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1-9- <tragedia-8-ac-ab>
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<entropia> manifesto
13-2-1991
ENTROPIA E GIGANTISMO
Quanto mais o cancro cresce, mais pele, osso e camisa nos tiram. Como Roberto
Vacca sugeriu e quase demonstrou no seu ensaio célebre «A Próxima Idade Média»,
o gigantismo produz três principais consequências:
a) a partir de certa dimensão, os sistemas, como os dinossauros, deixam de
servir os objectivos para que socialmente foram criados, vampirizando os seus já
teóricos destinatários ou utentes;
b) se o sistema, ao crescer, entra em irreversível Entropia, tenderá
autofagicamente, a comer-se a si próprio, pois, exponencialmente, quanto mais se
autodestroi e autodevora mais energia precisa para se manter;
c) resulta daqui que cada homem na terra está a pagar, e pagará cada vez mais
caro, esta entropia logarítmica em que o sistema, girando sobre si próprio,
entrou. Por mais corpos, vidas, pessoas, consumidores que o sistema meta na
«caldeira», nunca se dará por satisfeito, os défices e as dívidas externas
aumentarão logica e logaritmicamente, as tensões sociais e as guerras
localizadas proliferarão, pois tudo isso é logicamente carne de canhão para o
sistema continuar, a Leste e a Oeste, destruindo ecossistemas, em marcha
vertiginosa para a sua autofágica autodestruição.
Na sua crítica à Entropia, Ivan Illich chega às mesmas conclusões: o actual
sistema de transportes urbanos, feito para alegadamente aumentar a velocidade de
deslocação dos utentes, já se encontra na vertente contrária: os transportes na
cidade servem hoje não para acelerar a deslocação mas para congestionar e
paralisar a vida quotidiana das pessoas. Sofrendo de indigestão crónica, o
sistema vomita-se a si próprio. No entanto, continua a enfardar, para o que
precisa de nos tirar alma, olhos, pele, osso, camisa e etc..
A lógica do absurdo girando à velocidade da luz. Quanto mais os subsistemas
nacionais e regionais se ligam à Central (no caso dos bancos o cerne é o Banco
Central...) mais custosos ficam ao pagador final (nós todos), pelo tal fenómeno
de entropia logarítmica.
Aplicando esta mesma regra do funil, D. Branca não fez nenhum discurso inflamado
contra a Banca, nem prometeu melhores dias e salários para o futuro (sic).
Reproduziu, ponto por ponto, a engrenagem. Limitou-se, em microcosmo, a pôr em
prática uma pequena engrenagam que inutiliza a macroengrenagem. É isto que o
sistema não perdoa. Que acusem o capitalismo de comer meninos (ou vice-versa),
sim, óptimo. Dá-se ares, assola cães-polícia, ejacula mangueiras e gás
lacrimejante sobre as ululantes multidões. Agora que o ignorem, pura e
simplesmente, que lhe passem ao lado sem sequer lhe dar a honra de o desprezar,
o sistema fica pior que uma barata.
[Recentemente, a Ordem dos Médicos travou-se de polémica com a comissão
instaladora da Faculdade de Medicinas Alternativas. Adorou a oportunidade
estupenda de ir à televisão, de andar em polémica, de se mostrar em forma, de
exibir seu poder, seu monopólio, suas garras, sua arrogância.]
Já a «tecnologia apropriada»,[das medicinas alternativas] o contrário de toda e
qualquer retórica, de toda e qualquer abstracção, de toda e qualquer ideologia,
enquanto tecnologia útil que inutiliza o sistema, não agrada nada. Não dá luta.
Esgueira-se no mato, como a guerrilha vietcong no Vietname. Na clandestinidade.
É como bambu - dobra mas não parte. Continuará progredindo, clandestinamente,
até minar o sistema.
Somos os ratos do sistema, os clandestinos da Sociedade.♥♥♥
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1-1 < 90-09-04 – ls > leituras do afonso - sábado, 12 de Abril de 2003-novo word
-<entropia>
RAÍZES DA DECADÊNCIA
O DESESPERO
DOS HEDONISTAS(*)
[(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital», «Livros
na Mão», 30-10-1990+-]
4-9-1990
A palavra «entropia» ainda não estava na moda quando Miguel de Unamuno escreveu
«Del Sentimiento Tragico de la Vida», que agora aparece em nova tradução
portuguesa(*). Em 1953, a editora Educação Nacional, do Porto, publicara a
versão de Cruz Malpique, mais literal e académica do que esta que o Círculo de
Leitores agora apresentou.
Para o filósofo de Salamanca - também romancista, poeta e dramaturgo - a
condição humana já era entendida como maldição e prova, no que andou muito perto
dos «pessimistas» como Schopenhauer, Nietzsche, Leopardi ou Kierkegaard e também
de muitos que se viram englobados no rótulo de «existencialistas».
Mas de uns e outros ele se demarcou, pela intuição central que o título desta
obra particularmente expressa: o «sentido trágico da vida» seria o sentido
entrópico da vida que regula todos os sistemas morais do Ocidente, baseados num
cego, obstinado e estúpido hedonismo. Essa seria, no Ocidente, a nossa «doença»,
que levámos séculos a difundir pelo Mundo, como a maior pandemia da História.
Perdemos as raízes da sabedoria, que consistia exactamente em saber que o homem
é energia e que toda a ciência se deverá resumir, afinal, em conhecer a arte de
administrar essa energia.
A nossa «doença» chama-se «ignorância» e daí, dessa ignorância, o sentido
trágico e cego do caminhar por este mundo. Ler Miguel de Unamuno e o seu
diagóstico, é ler os sintomas exacerbados da Doença que se reconhece, confessa
mas não ultrapassa, e isso ainda por preconceito «cultural».
Fala Unamuno dos «Upanishads» mas o seu despeito irritado logo se revela nesta
acusação ao monismo das cosmologias extremo-orientais que da Energia sabiam como
ninguém mais voltou a saber: «aquilo a que eu aspiro, não é submergir-me no
grande todo, na Matéria, ou na Força, infinitas e eternas, ou em Deus. Aquilo a
que eu aspiro não é a ser possuído por Deus, mas a possuí-lo, a fazer-me Deus,
sem deixar de ser o eu que vos digo ser neste momento. »
A «doença» ocidental, a que Unamuno chama «tragédia», um tanto exageradamente,
caracteriza-se por criar essa espécie de catarata ideológica que impede de ver
tudo quanto não seja e não ajude ao progresso da própria doença.
Para lá do interesse quase mórbido que a sua fascinante leitura suscita,
especialmente aos que gostem de romances policiais, para lá do muito que se
aprende e sofre neste testemuno humano de beleza inigualável que é o livro de
Unamuno, importa ao militante da Heresia detectar algumas passagens francamente
demonstrativas do apego ao erro e da rejeição apriorística das raras janelas
terapêuticas que se podem abrir.
Pobres filósofos como este «trágico» Unamuno que, na imensa noite e na imensa
doença da «civilização» ocidental, marraram contra as paredes do cárcere, não
vendo que eram de vidro..., muitas vezes tendo na mão o amuleto - a intuição
central da entropia cósmica - capaz de exorcismar angústias, revoltas,
desesperos, mas sem o saber utilizar. Mais: alguns deles, como Unamuno, tiveram
o amuleto na mão e deitaram-no fora.
Os filósofos ditos «pessimistas» e, em séculos mais recentes, os
«existencialistas», com seus gritos, aflições, insónias e calafrios, são bem a
imagem, o sintoma de uma «doença» cada dia mais incurável e de que a Poluição e
suas sequelas é apenas um dos sintomas mais ridículos e insignificantes. Mas foi
ela, a Poluição, que obrigou algguém a descobrir a palavra Entropia. Valha-nos
isso.
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(*) «O Sentimento Trágico da Vida», Miguel de Unamuno, Ed. Círculo de Leitores
(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital», «Livros
na Mão», 30-10-1990+-
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