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sábado, 9 de Junho de 2007

SEGUNDO ACTO DA TRAGÉDIA:
EM LOUVOR DA ECO-TECNOCRACIA



Desta vez em abstracto e para não referir (ferir) ninguém em particular, mas tenho de voltar à palavra «eco-tecnocrata» que os meus interlocutores da Ambio perguntam o que é e consideram infamante, quando a intenção era precisamente o contrário: é um elogio, o maior elogio que hoje se pode fazer aos descendentes de Al Gore.
1. Desconfiado de que seria mais um neologismo dos meus, consultei a internet com a ajuda do Google e o resultado foi surpreendente: em «eco-tecnocrata» o Google não regista nenhum resultado (exclusivamente em páginas de Portugal) mas em «eco-tecnocracia» dá 65 resultados, imagine-se, com referências a velhos amigos como por exemplo Murray Buckchin que nunca mais vi citado desde os anos 70 do século passado.
A maioria das páginas é de língua espanhola (o que diz qualquer coisa sobre o luso-iberismo crescente) e alude à palavra de ordem mais usada pela ecotecnocracia: «desenvolvimento sustentável».
A única página portuguesa entre as 65 indexadas pelo Google é esta:
http://www.google.pt/search?q=eco-tecnocracia&hl=pt-PT&start=20&sa=N


2. Depois li um pouco mais sobre o Al Gore, pai da Ecotecnocracia e, mais do que o nome e currículo do personagem, encontrei a síntese da sua filosofia, uma magnífica síntese elaborada por uma leitora em carta ao «Diário de Notícias», que vale pela sua singeleza e pela sua imensa verdade:

«A filosofia é: podemos obter grandes lucros e não precisamos de mudar o nosso estilo de vida».

Dia a leitora Margarida Ferreira, de Odivelas, ao «Diário de Notícias», 6 de Junho de 2007:

««Al Gore é ambientalista ou empresário? A sua mensagem não é só: "O aquecimento global é uma realidade e precisa de acção global, já." Na Cimeira dos Investidores Institucionais sobre o Risco do Clima, em Maio de 2005, Al Gore afirmou:
"Estou convencido de que, se integrarem as questões relacionadas com a alteração do clima nas vossas análises sobre quais as acções em que vale a pena investir, a sua quantidade e durante quanto tempo, estão mesmo a fazer um bom negócio."
A verdadeira mensagem, a que interessa a Al Gore, é que a alteração climática proporciona grandes oportunidades de criação de novos mercados e os empresários só têm a beneficiar se investirem desde já nessa área. Não há propostas de soluções para a redução do aquecimento global. A filosofia é: podemos obter grandes lucros e não precisamos de mudar o nosso estilo de vida. O seu novo livro para jovens, em português, faz parte da estratégia global de que é "de pequeno que se torce o pepino" ou "semear hoje para colher amanhã. Al Gore é o presidente da Generation Investment Management.
Margarida Ferreira
Odivelas»»

3. Ainda na esperança de encontrar algo de mais concreto, remexi, sempre com o Google ao lado, em algumas expressões que antecederam esta no meu vocabulário particular e nada:
Eco-oportunismo - 0
Eco-verdismo - 0
Eco-merdismo - 0
Mas já em
Eco-negócios - há 8 resultados, dois deles em páginas da Universidade de Aveiro e de certeza que não são pejorativos, antes pelo contrário. Lá figura o empreendorismo ou empreendedorismo, mais uma palavra de ordem da nova classe emergente, a eco-tecnocracia.
+
Tentei depois
«Ecoturismo» e só aparecem 67.100 resultados. Fui eu, com certeza, que inventei a palavra.
+
Já agora e recuando um pouco no tempo, vejamos «Eco-tácticas» - com apenas 4 resultados e só em páginas portuguesas.
+
Para «Eco-estratégia» – 84 resultados.
+
Ainda no propósito de ficar um pouco mais esclarecido sobre a «eco-tecnocracia» a que chamei a «nova classe emergente e dirigente», compilei alguns títulos de jornais dos últimos trinta dias e que já reproduzi na Ambio em mensagem anterior:
« ... uma onda de eco-verdismo que nos começa a assolar, a que alguns chamam o «sindroma pós Al Gore» e de que tenho de fazer aqui o resumo para não gastar muitos bytes à Ambio.
Recapitulemos no último mês, salteando as datas e aproveitando os títulos dos meus jornais de estimação:
Alemanha quer ser o país mais «verde» do Mundo – Ministro alemão promete atingir a maior eficácia energética de sempre (31.Maio.2007)
Produção de etanol pode originar penúria alimentar (15.Abril.2007)
Comissão Europeia faz relatório – Tecnologias limpas defendem clima – As empresas ecológicas aumentaram (4. Maio.2007)
Ministério do Ambiente pretende cobrar taxas aos visitantes de áreas protegidas (in «Público», 4. Maio.2005)
Entidades do Estado obrigadas a fazer compras ecológicas ( in «Diário de Notícias», 8 de Maio de 2007)
Centenas de novas empresas da área das tecnologias verdes invadiram a paisagem de Slicon Valley. A TerraPass limpa a consciência dos cidadãos mais poluentes investindo em empresas amigas do ambiente. O negócio vai de vento em popa (in «Público», 5.Maio.2007)
O turismo sustentável está na moda – Eco-turismo ou «turismo responsável» são faces de uma tendência recente na indústria de viagens. No mundo há cada vez mais adeptos, mas está a dar os primeiros passos em Portugal . (In «Público», 11. Maio.2007)
Energias Renováveis em Portugal e Espanha (anúncio do BES in jornal «Diário de Notícias»)
EDP investe 163 milhões por ano em ambiente ( In «Diário de Notícias», 6.Maio.2007)
Cidadania ambiental – Rumando a um desenvolvimento sustentado com uma educação do respeito pelo meio ambiente. (In «Perspectiva», Maio de 2007)
Galp à frente da Iberdrola nas eólicas (in «Diário de Notícias», 12.Maio.2007)
Protecção ambiental está no topo da lista dos empresários europeus. (In jornal «Metro», 10.4.2007)
Direcção Geral licencia exploração de recursos (in «Público», 11. Maio. 2007)
Esta exaustiva busca de títulos que ofereço aos amigos ambionautas pode servir de guia para uma exploração mais desenvolvida dos itens no Google News, ferramenta que não podemos deixar de ter à mão.»»
+
Mas ainda não era o suficiente e tentei investigar a palavra tecnocrata em estado puro, ou seja, sem o prefixo «eco-».
Não é para bajular ninguém mas entre os 882 resultados destaco este:
http://www.revue.uevora.pt/revue01/artigos/p004.htm

De resto, nostalgicamente, só me aparecem na Net velhos textos meus (peço desculpa ao José Moreira, interlocutor na Ambio, mas lá me estou a citar) em que me fartei de bramar contra os malditos tecnocratas.
Até que um dia o meu querido amigo Prof. Delgado Domingos me ensinou que havia «tecnocratas competentes» que devíamos distinguir dos «tecnocratas incompetentes». Aí calei-me com a história e só agora, muito instigado pelo Al Gore, pelo CO2, pelos biocombustíveis e pela C.S., me atrevi a retomar uma palavra-chave para entender alguma coisa deste nosso tempo-e-mundo: e é claro que ao referir a palavra «eco-tecnocratas» os incluo, automaticamente, na categoria dos tecnocratas competentes.
Pelo que me parece ser um elogio, lamentando que alguns não o tivessem entendido assim.
+
Ao associar a palavra «tragédia» à palavra «eco-tecnocratas», fica claro que estamos todos embarcados nessa fatalidade genética da nossa «civilização» que eu insisto em escrever entre aspas.
Uns na qualidade de dirigentes – os que têm o poder do saber – outros na qualidade de vítimas – os que não têm poder algum – mas de qualquer modo estamos todos metidos na nave espacial Terra e somos todos culpados: ou porque fizemos de mais ou porque fizemos de menos.
Culpados e cúmplices, é o que faz a essência da tragédia: podem confirmar relendo os eternos trágicos gregos da época clássica.
Nada podemos – algozes e vítimas – contra o factum, o destino, o sistema que segue a sua rota matando os eco-sistemas.
Como se dizia no auge da campanha anti-nuclear, só nos resta abraçar os filhos e rezar.
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Desta filosofia elementar de base, resultam algumas alíneas:
- Não há inimigo principal
- O sistema que vive de ir matando os ecossistemas continuará a sua marcha e a destruição final será inevitável
- Como não podemos fazer nada, o melhor é mesmo gozar hedonisticamente os últimos momentos, defender-se dos embates e/ou misticamente ouvir música e ver o mar
- Uma imensa compaixão budista desce sobre os nossos corações: reconhecendo a efemeridade de tudo, podemos começar a imaginar que a eternidade talvez esteja à nossa espera e que está impaciente por nos ver lá
- Como todos vamos ser julgados (a deusa Maat aguarda-nos no tribunal de Osíris) o melhor é começar a pensar o que vamos alegar em nossa defesa e o que estamos a fazer da nossa alma: mas aí também o problema é de cada um e ninguém tem nada que interferir
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Eu sei e aceito o que os meus interlocutores me dizem: temos que esperar que a ciência venha conhecer e reconhecer a «nova classe emergente e dirigente», a «eco-tecnocracia».
Mas a ciência, naturalmente cautelosa, leva sempre algum tempo a acordar para estas coisas que não dão dinheiro, como são as ideias e o movimento das ideias.
Recordo que para a ecologia vegetal e animal, por exemplo, foi num ápice, acordou relativamente cedo, antes dos movimentos ecologistas e proteccionistas e ambientalistas.
Para a ecologia Humana, mesmo com o empurrão, em 1962, do «Silent Spring», da bióloga marinha norte-americana Rachel Carson (1907-1964), (*) ainda estamos à espera que a Ecologia Humana entre na rotina diária, embora, ao que sei, tenha já entrado nas Universidades, a julgar pela meia dúzia de livros que sobre o tema foram editados pelo Instituto Piaget.
Áreas proibidas como «ecologia das radiações», «ecologia do trabalho», «ecologia da pobreza», «ecologia alimentar», umas estão em stand by, a ver onde param as modas, e outras à espera de ordem da Ordem dos Médicos para haver quem as estude: é o caso da iatrogénese que, segundo associações médicas norte-americanas, começa a ser a primeira causa de morte naquele país.
Ecologia Profunda (Deep Ecology) teve que esperar uns anos para aparecer um livro fundamental editado pelo José Carlos Marques na «Sempre em Pé»: São 290 páginas que recomendo vivamente a quem se interesse pelo movimento das ideias (das eco-ideias, vá lá mais um neologismo...).
Eis a ficha deste livro:
- Bill Devall e George Sessions
- Ecologia Profunda
- Edições Sempre em Pé, Águas Santas, Outubro de 2004
+
A convergência holística das ciências-chave para uma ecologia alargada ainda continua à espera do reconhecimento oficial . Que não vai ter, porque entretanto foi recuperada pelas marabuntas da «New Age».
Há ainda uma lista de «ecologias proibidas», já que o objecto de estudo é tabu e ninguém se quer meter nisso:
Ecologia dos fogos de Verão em Portugal;
Ecologia dos Tsunamis e terremotos provocados;
E as já citadas : «ecologia das radiações», «ecologia do trabalho», «ecologia da pobreza», «ecologia alimentar», etc.
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Sem dúvida, estamos perante um complicado problema metodológico e epistemológico (mudança de paradigma) para a ciência. Mas o que custa é que Deus agradece.
Todas as atenções se concentram hoje na «eco-tecnocracia», que se vai comendo a si própria como a serpente da fábula, multiplicando e ampliando a destruição.
Admito que constatar tudo isto seja humanamente impossível. A batalha final é mesmo entre utopia tecnocrática e utopia ecológica. Mas que quem se atreva a sugerir alguns itens desta lista negra seja logo cognominado de vil inimigo do progresso e da nova classe emergente é que me parece injusto.
Afinal somos todos culpados e ninguém é culpado do sistema continuar matando os ecossistemas à velocidade de 30 espécies por segundo.
+
(*) Em 1962, Rachel Carson (1907-1964), uma bióloga marinha norte-americana, publicou um livro chamado Silent Spring (Primavera Silenciosa). Nele falava sobre os efeitos nocivos dos pesticidas (produtos químicos utilizados para exterminar os insectos que atacam as plantas) sobre as aves e os animais que entravam em contacto com eles.
 

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Última modificação: 22/06/07