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1-3-<step-3> rabo de gato
entrevista afonso cautela
[domingo, 10 de Outubro de 2004]
O PODER ABSOLUTO POR UMA DIA
RABO DE GATO - Mister Fire: qual a sua ementa para hoje?
A . C. - Usar o poder para fazer alguma coisa de razoável e obviamente útil.
R. de G. - Como por exemplo?
A . C . - Decretar obrigatória , desde a escola primária à universidade, a
leitura do maior filósofo de todos os tempos.
R. de G. - Não é uma medida tirânica?
A . C. - A ditadura da inteligência não é tirania. Tirania é a ditadura dos
poderes fácticos que se sobrepõem ao poder eleito.
R. de G. - Mas quem é, para si, o maior filósofo de todos os tempos?
A . C. - Etienne Guillé.
R. de G. - Como?
A . C. - Etienne Guillé
R. DE G. - Mas ninguém conhece tal nome.
A . C. - O que só evidencia a estupidez da ignorância e a ignorância da
estupidez.
R. de G. - Já vi que a sua ementa para hoje não inclui a tolerância.
A . C. - Tolerar a mediocridade é fazer o jogo dos poderes fácticos,
estruturalmente medíocres. Olhe a televisão e depois falamos.
R. de G. - Defende então a intolerância?
A . C. - O poder eleito não tem que ser tolerante nem intolerante: tem que agir
pelo que é obvia e claramente o bem comum.
R. de G. - E sabe alguém o que é o bem comum?
A . C. - Até os analfabetos sabem o que é o bem comum. Qualquer criatura
medianamente inteligente sabe o que é o bem comum e sabe o que há a fazer para o
realizar na acção do dia a dia.
R. de G. - A política é a arte do possível - diz-se
A . C. - Por isso mesmo: o que proponho ao poder eleito - desde o Presidente da
República ao Primeiro-Ministro (a todos os que mandam, em suma) é apenas o
possível e nada tem de utópico. Os que não querem agir - por medo, preguiça ,
conveniência ou corrupção - proclamam que o ideal democrático do bem comum é
utópico .
R. de G. - E não é utópico?
A . C . - Não , é o puro bom senso ou, se quiser, o puro senso comum. Mas por
hoje, dia 10 de Setembro, chega. Voltaremos amanhã, senhor jornalista. Não
esteve a gravar, pois não?
- !....
*
R. de G. - Pensa então que o poder que se desculpa com a democracia de não
(poder) agir é tirânico?
A . C. - Duas vezes tirânico. Democracia não é o laxismo vigente. Democracia que
não resolve e antes agrava os problemas da maioria não é democracia.
R. de G. - Acha então que o poder eleito tem medo?
A . C . - Às vezes, parece, já que não usa o poder que lhe foi conferido. Ou o
usa para fins mesquinhos e medíocres.
R. de G. - E a Europa?
A . C . - A Europa é outra boa desculpa para não fazer o que deve ser feito.
Quando chegámos à anedota (trágica) do défice, vimos ao fundo ao saco. E todos
os que advogaram a integração (inevitável) na Europa, calaram-se. O mal estava
feito, o compromisso tomado, os dinheiros gastos (50 % para pagar os circuitos
da corrupção).
R. de G. - Fala como se o país estivesse encurralado.
Tal e qual: é a palavra. Fomos encurralados no que ainda não se sabe muito bem o
que seja. Da Europa e sua sobreposta ditadura, conhecemos a moeda única.
R. de G. - Dá para os coleccionistas juntarem as efígies de outros países.
A . C. - Sim: a Europa é um paraíso para os coleccionistas.
R. de G . - Só?
A . C. - E para os partidos que queriam Alqueva - que foram todos - a Europa foi
a benção divina, a cornucópia inesgotável que deu o empurrão decisivo.
R. de G. - Se tivesse o poder tinha proibido Alqueva contra a unanimidade dos
partidos?
A . C. - Se tivesse o poder tinha proibido terminantemente Alqueva, a mais
estúpida e inútil das brincadeiras que hão-de afundar este país.
R. de G. - Afundar em sentido metafórico?
A . C. - Infelizmente não só metafórico. É impossível pensar que não tem
consequências, a médio e longo prazo, o afundamento do tesouro megalítico
alentejano.
R. de G. - Se fosse poder , o que fazia?
A . C. - Impedia por todos os meios - incluindo os violentos, se fossem
necessários - que esse tesouro do sagrado fosse profanado .
R. de G.- E o progresso?
A . C. - Qual progresso?
R . de G. - O progresso da barragem.
A . C. - O retrocesso quer você dizer. Progressos desses, não obrigado.
R. de G. - Então quais?
A . C . - Não vale a pena repetir o que foi repetido por pessoas inteligentes
sobre pequenas barragens. O que é criminoso em Alqueva ou em qualquer obra
pública «faraónica» é o gigantismo, pecha de todas as ditaduras e ditadores.
R. de G. - Em vez do gigantismo, o que faria então, se tivesse o poder?
A . C . - Instaurava a ditadura das alternativas ecológicas: o «small» além de «beautiful»
é democrático, o big além de feio é anti-democrático. E por hoje chega, sr.
Jornalista. Não esteve a gravar, pois não? ■
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