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A ONU AINDA MEXE: CENÁRIOS À LA CARTE
10-5-2007
O relatório da ONU sobre o estado de sítio mundial (nome de guerra: IPCC,
sigla inglesa de Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) voltou
às páginas do jornal «Público», desta vez pela pena muito mais precavida e
prudente do Ricardo Garcia, que evita a parte tão interessante apontada, um dia
antes, no mesmo diário (4/Maio/2007) pela jornalista Clara Barata que, em
antecipação, escrevera coisas giríssimas sobre e à volta do relatório (como aqui
já se disse) exaltando o sonho e as fantasias psicadélicas dos senhores
cientistas que querem salvar o Planeta Terra.
Agora que o relatório já foi divulgado, em Banguecoque, quem tiver paciência de
ler o original na íntegra e em inglês,(1) poderá gozar muito mais.
No artigo do Ricardo Garcia, pós-relatório, vale a pena referir o previsionismo
em que os cientistas se mostram exímios. Especialistas na técnica da ameaça,
ninguém os bate. Previsões para amanhã são arriscadas, pois nunca sabemos, neste
tempo-e-mundo, se vai haver amanhã e se vamos acordar vivos. Mas quando o
eco-previsionismo, com lances proféticos, se alarga para daqui a 20, 30, 200 ou
2.000 anos, é seguríssimo que acertará, já que ninguém daqui a 20, 30 ou 2.000
anos vai cá estar para confirmar.
Talvez os cientistas se divirtam a fazer cenários, coitados têm que se
desembaraçar da encomenda o melhor que sabem. Mas calcular probabilidades –
ainda por cima em área tão flutuante como o clima – classificando tudo isso de
ciência exacta (!) - é que é mesmo dançar em pontas sobre o abismo, a clássica
distracção dos sábios.
De cada vez que vejo previsões daqui a 2 ou a 2000 anos, digo cá comigo: oxalá
tenham razão, talvez nos encontremos no outro mundo e certamente que iremos
beber um copo e lamentar que os senhores da ONU tivessem acordado tão tarde.
Quem diz ONU, diz PNUD (ainda existe?), diz PNUMA (ainda existe?), diz OMS
(ainda existe?), diz FAO (ainda existe?). Curioso como organismos internacionais
de tal magnitude, que estiveram na berra nos anos 70, 80 e até 90 do século
passado, tivessem sumido pelo cano abaixo e já não façam, como então faziam,
manchete diária dos jornais. Com saudade o digo, pois animavam muito o meio
ambiente, já que as ameaças, nessa altura, eram do apocalipse demográfico
(superpopulação, lembram-se?), do apocalipse atómico, do apocalipse químico
(pesticidas, medicamentos & arredores).
O apocalipse alimentar (a fome), era liderado pelos sábios da leguminosa seca
alojados na famosíssima FAO (Organização para a Alimentação e Agricultura) e do
apocalipse climático falava-se ainda muito pouco, o Al Gore ainda não era
nascido e havia também, creio, a OMM, Organização Meteorológica Mundial,
encarregada de nos dizer que tudo corria à maravilha no reino das tempestades:
ainda não tinha chegado El Niño com toda a sua corte de horrores.
Todas estas organizações, encarregadas de vigiar o destino mundial da humanidade
e o destino humano do Mundo, até parece que foram tragadas pelo CO2: talvez
esses organismos especializados das Nações Unidas também sejam, hoje,
considerados «ameaças globais» e convenha portanto mantê-los na reserva.
Resumindo e concluindo e como o jornalista Ricardo Garcia muito bem descreve no
seu belíssimo artigo, o relatório de Banguecoque (4/Maio/2007) rege-se pela
seguinte filosofia:
«Combater as alterações climáticas é urgente, possível e relativamente barato»
«É o último volume de uma trilogia de relatórios concluída este ano pelo Painel
Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), criado em 1988»
«Se nada for feito, as emissões de gases com efeito de estufa poderão subir de
25 a 90 por cento até 2030.
«Limitar a 2,0 graus Celsius o aumento de temperatura até 2.100 reduzirá em 3
por cento o PIB mundial em 2030 e 5,5 por cento em 2050.»
Segundo o físico hoje mais célebre do Mundo, Stefan W. Hawking, o fim do
Universo – big crunsh – só se prevê para daqui a uns milhões de anos. Até lá,
vamo-nos entretendo com os relatórios do IPCC e pensar o que faremos, cá em
casa, até 2050, o mais tardar.
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(1)Penitencio-me aqui de um lapso na minha mensagem de ontem sobre o artigo de
Clara Barata: afinal está acessível, na íntegra, numa secção on line do jornal
chamada Ecosfera, neste endereço:
http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1293003
O próprio relatório, em inglês e em PDF, também lá está. Vamos a ver:
http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1292981