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1-4- <raízes-1> domingo, 24
de Novembro de 2002-scan
Se, como rascunho / bloco-notas, estritamente pessoal e bem guardado na
gaveta do Afonso, este texto já era insólito e um tanto exagerado na ambição de
citar autores e correntes, o facto de ter sido publicado n ‘ A Capital torna-o
ainda mais insólito. O que vem provar como «A Capital» afinal era aberta e doce
mesmo para os dislates como este do senhor Afonso Cautela. «A Capital» que,
nesse ano de 1979, me dava aos sábados duas páginas (duas páginas!) para eu
estender a minha facúndia. Dislate que só poderá justificar-se como guião
atabalhoado e mal escrito de um roteiro para historiar a ideia ecológica : mas
onde literalmente nem uma linha se aproveitaria do que segue.
A IDEIA ECOLÓGICA
AS RAÍZES MAIS PROFUNDAS
DA CRISE MUNDIAL
[18-Agosto-1979] - Com a chancela de “Frente Ecológica”, vários ensaios têm sido
publicados, em tiragens de policopiador, numa tentativa patriótica de ler
ecologicamente a actualidade (do País e do Mundo) e sugerir as alternativas de
fundo que se apresentam para a crise que, sendo energética e económica, aos
níveis mais superficiais e aparentes, vai radicar em profundidade nos
ecossistemas e na ecologia dos recursos naturais, base de toda a pirâmide
alimentar, de toda a economia, de toda a sociedade e de toda a História.
Para o autor dos referidos ensaios não se trata de reproduzir os esquemas e
métodos de investigação praticados pelos académicos de laboratório: trata-se de
tentar perceber se a humanidade está hoje a servir de Cobaia às experiências
tecnológicas mais inverosímeis e se a «ciência» hoje não consistirá precisamente
em saber o que estão fazendo de nós, de nossa vida, segurança e sobrevivência,
os cientistas e megacientistas que transformaram o mundo num laboratório e a
humanidade no seu macaco-cobaia.
Ecologia seria assim, fundamentalmente, a contra-ciência. E o ecologista o
macaco que, tomando consciência do laboratório onde o manipulam e do meio
ecológico que é o mundo concentracionário à escala do globo terrestre, passasse
de objecto a sujeito crítico dos que com ele continuam fazendo experiências...
A critica radical de todos os tempos assumiria hoje a forma de ecologismo.
Transcreve-se a seguir um texto em que se procura definir as linhas de força, a
vaga de fundo e as fontes originais a que esta corrente vai beber e onde vai
entroncar as raízes mais secretas e iniciáticas...
Texto que serviria de prefácio a todas as edições (tiradas a duplicador...)
passadas, presentes e futuras, sob a chancela «Frente Ecológica»
PROFETAS DA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL
Na linha de uma antiga aversão, quase orgânica, a todo o dogmatismo, pretende o
autor apenas continuar uma linha de investigação que, nos anos mais recentes,
viu com júbilo ser adoptada por correntes, autores e tendências diversas.
Se é verdade que no surrealismo e no existencialismo já havia, potencialmente,
uma contestação da ciência oficial e uma abertura a várias alternativas, na
arqueologia, na psicologia, na crítica de arte, na crítica da sociedade e até na
crítica da história, no próprio teatro e na própria literatura, a verdade é que
só com as alternativas à ecologia oficial se evidenciaram as linhas de força de
um pensamento que tem de comum esta constante histórica: a contestação de
modelos anacrónicos, de sistemas oficiais, de ciências fossilizadas e
anquilosadas, da economia à agricultura, da sociologia à medicina, da psicologia
à arqueologia.
De António Sérgio a Bertrand Russell, de Lovecraft a Jorge Luís Borges, de Freud
a Jung, de Erich Fromm a Ronald Laing, de Galileu a Ivan Illich, de Lanza dal
Vasto a Michio Kushi, de Buda a Rimbaud, de António Sérgio a Barry Commoner, de
Runé Dubos a René Dumont, de Marx a Cohn Bendit, de Claude Aubert a Rudolf
Steiner, de Alan Watts a Norman Brown, de Herbert Marcuse a Dubuffet, de Franz
Fanon a Aimé Césaire, de Sade a Nietzsche, de Michel Foucault a Claude Lévy
Strauss, de Hipócrates a Roger Gentis, de Fernando Pessoa a Teilhard de Chardin,
de Charles Fort a Jacques Bergier, de Herman Hess a Teixeira de Pascoais, de
Walt Whitman a Henry Thoreau, de Herman Melville a Henry Miller, de Samuel
Beckett a Jean Genet, de Agustina Bessa Luís a Carlo Coccioli, não faltam os
contributos que ultrapassem a própria expressão literária através da qual são
veiculados.
Para o autor, tudo isto tem a ver com ecologia de maneira profunda e original.
A SEMENTE DA HERESIA
A ecologia começa na semente herética, qualquer que ela seja, na contestação e
na crítica radical ao sistema vigente, fundamentalmente destruidor do
ecossistema. Começa na contestação de uma ecologia oficial, anacrónica,
ultrapassada e académica, pilar de toda uma ciência igualmente oficial,
anacrónica, ultrapassada e académica.
O mesmo para a sociologia, para a arqueologia, para a agricultura, para a
etnografia, para a medicina, para a economia, para a política, para a história
de arte e para a história da ciência.
A revolução no conhecimento ou revolução cultural. consiste na descolonização
cultural, que tem sido o esforço constante do ecologista, através da leitura
crítica daqueles e outros autores.
A revolução no conhecimento científico consiste na contestação de um
conhecimento A, abrindo-se, através de ensaios sucessivos e de aproximações
prudentes, a vários sistemas de conhecimento alternativos, a várias culturas e
civilizações mais ou menos desaparecidas ou extintas.
A ecologia insere-se nesta movimentação geral, quando descobre, por saber de
experiência feito, que há sistemas culturais muito mais harmónicos e
ecologicamente muito mais equilibrados, em povos alheios à tirania (da
Civilização) ocidental que julgou, em determinada época, ter o monopólio e o
exclusivo desse património, desse potencial.
A Barbárie, hoje, somos nós, os civilizados...
Propõe-se o autor realizar uma sistematização do que já ensaiou em trabalhos
iniciais, como «Movimento Ecológico e Descolonização Cultural» (opúsculo
policopiado), sem falar dos que permanecem escritos mas inéditos, no fundo dos
baús, e dos dossiês, nesta linha de investigação para uma ciência cósmica contra
a ciência doméstica europeia...
Ao apresentar uma leitura ecológica destes autores e precursores, destes
contemporâneos do futuro, destes construtores da idade solar e da civilização
cósmica, - utilizando uma óptica pessoal, inevitavelmente limitada e limitante -
pretende-se apenas dar um contributo a estudos mais vastos e profundos, que as
gerações, aliás, não têm deixado de empreender numa linha ininterrupta e hão-de
continuar, agora como condição sine qua non da sua própria sobrevivência.
Mas, acima de tudo, provar de que, através desses e de outros iniciados, é que
se filtra e chega até nós e verdadeira ciência, quer dizer, a sabedoria perene.
O MAPA DA GEOGRAFIA CÓSMICA...
O extracto de experiência e pensamento que revela o balanço de aquisições do
homem na sua aventura planetária é, afinal, o que se procura extrair da leitura
ecológica desses hereges. Ou da sua eventual sistematização.
Com esses guias (e outros que não houve espaço ou oportunidade de citar),
pretende-se traçar o esboço de uma carta na geografia do possível impossível, do
real fantástico, do passado-presente-futuro. A geografia deste caudaloso rio
onde confluem todos os tempos, humanidades, civilizações, experiências, povos,
idades, lugares da terra e planetas do universo, galáxias e cosmos.
Auxiliado por todas as correntes heréticas, que nunca deixaram de emergir acima
da tirania de ciência oficial; aderindo aos contributos da ficção científica, do
realismo fantástico, da ovniologia e da demonologia; repisando novos e velhos
caminhos da Parapsicologia, da alquimia e da magia prática; recuperando e
reinterpretando a uma luz ecológica de síntese dialéctica os factos malditos de
todos os tempos: eis que o autor se sente em boa companhia para prosseguir uma
tarefa que não é individual mas colectiva, uma tarefa que não tem princípio nem
fim mas é, afinal, a obra única de gerações passadas, presentes e futuras, dos
que viveram, dos que vivem e dos que hão-de viver, se os tecnoburocratas
consentirem...
Embora se reconheça que não faltam hoje as equipas que estão trabalhando nessa
linha de investigação alternativa, não abdicamos de ter também uma palavra - e
uma palavra não repetitiva - sobre os meandros, algares, subterrâneos, grutas,
cavernas e escolhos do que tem sido designado «ciências ocultas».
Sabe-se agora que a famigerada «ciência oculta» ou assim chamada por fariseus da
ciência, foi oculta apenas na medida em que a ciência oficial a atrofiou,
obrigou e esconder-se nos catacumbas e a refugiar-se nas cavernas da montanha.
Porque era ciência da idade solar, a que trazia os fundamentos da esperança e do
paraíso, eis que a ciência oficial e seus sacerdotes (os tecnocratas de todos os
tempos), fizeram tudo para a meter nas catacumbas.
Note-se que é ainda neste caminho de .pluralismo científico, de alternativas
ecológicas à ciência académica oficial e seu monopólio, que se inscreve a
redescoberta da cosmologia taoísta que, vinda de há cinco mil anos, reencontra,
afinal, o homem de hoje, dela perdido tantos séculos, esfacelado nas
contradições e melodramas do dualismo, do positivismo, do nacionalismo, do
cientifismo e do experimentalismo mais atroz: o das bombas subterrâneas e
consequente terror sísmico.
Toda a ciência oficial se esboroa e desmorona, ao mesmo ritmo da crosta
terrestre que eles estão religiosamente destruindo.
A crise do ambiente, tão ligada à crise da energia e ambas tão ligadas à crise
da economia, teve o grande mérito de pôr a descoberto as raízes podres do que se
considerava a imaculada ciência servida por uma prepotente tecnologia.
Agora, que tudo está em discussão e em questão, vários tipos de análise se
acumulam ao lado da analise científica, que deixou de ter o monopólio.
Crónicas e ensaios escritos, durante meses, na linha de uma prospectiva crítica
e de uma futurologia revolucionária (não capitalista, não tecnocrática, não
burguesa), não visaram, afinal, de concreto outra coisa do que a crítica aos
sistemas fechados da ciência académica e as propostas, as hipóteses, as
sugestões de trabalho para as novas velhas ciências que caminham na espiral da
evolução, na iniciação macro e microcósmica, na autocriação de um homem como ser
planetário e universal.
Matérias marginais à ciência , ou por ela desdenhadas, contribuíram e contribuem
para o enriquecimento da consciência ecológica e sua transformação em acção
ecopolítica:
Escutismo e escutistas; naturismo e naturistas; proteccionismo e
conservacionismo da natureza; vegetarianismo e vegetarianos; campismo e
campistas.
Citemos ainda entre as cor rentes de expressão histórica europeia: anarquismo a
coo-
perativismo.
Entre as correntes de expressão oriental e não europeia, citemos: macrobiótica e
macrobióticos; ioga; zen e medicina chinesa e acupunctura.
Entre as correntes europeias, inerentes à sociedade do consumo mas que
aparentemente a contestem: alimentação racional; defesa do consumidor; defesa de
ambiente; luta antipoluição; e defesa da mulher.
Verdadeiras alternativas que convergem num radicalismo ecopolítico:
antipsiquiatria: bioagricultura; e comunalismo rural.
A TOTALIDADE PELA INTEGRAÇÃO DE VIAS E CIÊNCIAS PARCIAIS
Pode chegar-se à ecologia radical, contestando todas as ciências oficiais,
incluindo a própria ecologia oficial. Essa, será uma maneira de lá chegar. A
maneira de exclusão.
Há, no entanto, a via da inclusão ou integração. A ecologia radical poderá então
beneficiar de matéria já adquirida e conquistada por ciências como: etnografia
ou etnologia; antropologia; geografia humana; astronomia; economia política;
geopolítica da fome; e biopolitica.
Entre as correntes neo-utopistas que irromperam no seio da cultura ocidental e
burguesa: surrealismo; existencialismo; dadaísmo; fourierismo; não-violência e
resistência passiva; realismo fantástico; movimento comunalista de origem hippy;
e tradição comunalista em países como Portugal, etc.
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