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♥♥♥♥♥ 1-17 - <onariz-he> quarta-feira, 19 de Outubro de 2005 - MERGE REALIZADO PARA COLOCAR NO SITE «O ESCRIBA» COM A DIGITALIZAÇÃO DE TODO O TEXTO PUBLICADO NO LIVRO «O NARIZ», EDIÇÃO DO AUTOR, 1961 ♥♥♥♥♥ 1-3 <59-09-25-on> versos publicados em «o nariz», páginas 7, 8, 9, 10, 11 e 12
O FUMO DAS CIDADES Lisboa, 25/9/59 «J' écris ton nom » Éluard O fumo das cidades desenha o teu nome as crianças decoram o teu nome os pobres semeiam na terra o teu nome. Nos teus ombros dormem os tristes e os desesperados. Aperto as tuas mãos as tuas mãos me guiam ouço nos teus passos a certeza de não mais se abrir a terra ao fundo dos nossos passos. Dou-te uma afeição sem dúvidas sem laços sem pretextos uma gratuita afeição. Não falo de mim não me canso de esperar. Teu rosto anda por aqui um fantasma de passos brandos. Desenganado de procurar-te não estar contigo não estar tu sabes que é ainda estar presente. Continuo a descrever o teu corpo que é o teu espírito o compasso das gaivotas sobre as ondas o ritmo das crianças nos berços e baloiços os machados falando alto na floresta o amanhecer da terra e da distância. A calma ondulação do teu olhar é a mudez de um verso é o tronco fabuloso de um grande corpo de mar. Vou perguntar aos teus olhos o mistério e o que ouvir de conhecimento ou belo azul ou confusão anonimato ou ódio é teu é ainda teu é também teu. São teus os dentes das plantas os braços puros que se erguem da manhã as veias da árvore-lua tua irmã. Não sei porque na tua solicitude só de espáduas feita se reconhece deus. Talvez porque participes da linguagem do vento do mar que te ilumina cara a cara do sol que carboniza frente a frente. O teu olhar retém a alma de todas as coisas. Confio-te o meu nome verdadeiro o meu endereço certo hoje que apareceste unindo à minha noite de vigílias o teu dia de águias dormitando de rastejantes plantas raras de místicas roseiras actos e palavras. Olhámo-nos sem máscaras e sentimo-nos incapazes para escolher o sentido de nada que se guarda na falta de sentido de tudo. Só o amor é que nunca chega tarde. Em forma de arma ele fulmina e queima em forma de asa impulsiona e arde. A vida hoje que apareceste surge só porque tu surgiste. Deixo a minha jura à noite que foi nossa à noite com tudo o que foi nosso e dentro de nós adormeceu. Não é por estar à espera que a morte virá mais cedo não é saber a morte à nossa espera o que me assusta. É antes saber que acordo de manhã junto dos teus movimentos puros de adolescente e saber que existias antes de mover os teus longos braços na manhã.
Leio no céu o teu nome por seres tu as nuvens sossegadas que vão escrevendo a história do infinito. No outro dia de manhã pelo rio apenas o nosso ar ensonado de príncipes perdidos no nevoeiro. Das bocas e paredes vigilantes das horas já sem dentes de um rosto de animal morto de medo larvar indescritível proibido apenas me ficou o coração da terra e o nosso submisso batendo Onde os olhos dos outros nada viram onde nada souberam do nosso segredo lá estávamos. Arde a pira de sono ao nosso lado sobre a mesa de pinho só num quarto da memória a noite abençoando. Onde te escrevo falam de negócios. Eu falo escrevo para ti. Contra tudo estaremos respirando o mesmo ar pela mesma boca para sempre. + 1-1 <59-09-26-on> versos publicados em «o nariz», página 13EM TEUS OLHOS Lisboa, 26/9/59
Em teus olhos o dia nasce e sobe é um deus do mar que o sol descobre. Outra face tem agora a nossa dor outra geografia a terra que aguardamos. Quero contar-te o que adivinho e vejo o que desespero penso e imagino e o coração reparte. Quero dar-te a minha ilha alada e não trocar por nada o que me deste. O feno das horas vai crescendo vão caindo pedras no porão do tempo que já não é a teia do remorso a ilha onde pernoita em tua mão o pássaro de sono desta angústia da tua aurora e minha confusão. (In «Diário de Lisboa», suplemento «Vida Literária», 9/2/1961) + <59-09-29-on> versos publicados em «o nariz», página 14 NÃO ESCREVO Lisboa, 2919/59 Não escrevo a tua voz escreve o som da tua voz. Não vejo só os teus olhos a luz que há nos teus olhos mas penso acordo e como foi isto amor? Por nossa culpa são diferentes a tristeza as algemas os escombros as veias de humidade sobre os dias e principalmente as insónias as nossas noites sempre iguais às noites os nossos dias sempre iguais aos dias. Que somos nós mais do que crianças mais do que risos namorados rios mais do que árvores escutando o céu mais do que uma lágrima mais do que uma flor? É que não vale ainda a tua companhia o que a vida e a morte me derem de melhor. + <59-10-03-on> versos publicados em «o nariz», páginas 15, 16 e 17 NEM DOENTE Lisboa, 3/10/59 Nem doente nem triste nem só nem indiferente e só porque vieste. A coragem se coragem há és tu com tua luz com tua companhia quem ma dá. Aceito a morte já aceitei a vida e um bocado de pão da tua mesa um bocado da esperança que trazias. São brancas as paredes onde estou são brancas e vazias porque só tu és a paz a grande paz sem dor dos mortos como eu. Só uma hora existe só uma hora é certa só um instante conta o instante em que voltaste. Nem doente nem triste nem só nem indiferente aceito hoje a vida porque aceitei a morte. De tanta coisa bela que não vimos do que falámos os dois lado a lado do bem e mal que fizemos ou nos faltou fazer dos anjos que levantámos à nossa cabeceira das crianças que amo e amas porque somos crianças das almas que a nossa talvez santificasse do dinheiro que nos faltou perder por amor às coisas puras das coisas que não custam dinheiro porque só a nossa vida as paga da vocação que é nossa e ninguém compreende de tudo o que perdemos porque não quisemos ganhar da beleza que importa espalhar por toda a parte sem importar onde e sem olhar a quem de tudo o que sabemos e sentimos nada sabem os homens que sabem tudo. O meu coração parou à tua espera. Lisboa, 25/10/1959 * Talvez as horas que dormimos a mais Sejam horas a menos no nosso sofrimento. Lisboa, 28/10/1959 +
<59-10-07-on> versos publicados em «o nariz», páginas 19,20,21, 22,23,24,25 e 26
A CICATRIZ
Lisboa, 7/10/59
Dizia-se que a lei protegia os pássaros mas a lei era dos homens e não se compreende porque sendo a lei uma invenção dos homens podia essa lei proteger os pássaros. Matavam-nos apenas porque era proibido matá-los e fruto proibido vale por quatro caçador prevenido vale por oito. Falava-se também do cio dos lucros e eu limito-me à crónica desse tempo aos documentos que restam desse tempo. Legislando para os seus interesses provam os homens da época um notável avanço sobre os antropopitecos evoluídos do nosso. Pássaros comem-se e dão lucro: «Diz-me depois se gostaste. Não proves, come. É de chorar por reais. Baboso, limpa a boca.» E era, era de chorar lágrimas de sangue lágrimas de chumbo sobre os corpinhos guisados dos pássaros que a lei não há dúvida protegia. Daí a rivalidade que nunca mais cicatrizou: os homens - garantem os documentos - é que não protegia. Muitos não compreendendo uma lei tão desumana matavam indiscriminadamente fora do tempo próprio porque a verdade é que há um tempo próprio um clima um signo um ponto crítico de pressão normal e temperatura muito centígrada para uso exclusivo dos caçadores das aves que se destinam a matar e comer sem penas. Comer nuas ainda mais nuas do que nasceram e cresceram para desespero dos homens que decretaram leis de sua protecção. «Nós matamos as aves, nós nascemos para comer as aves. Venha mas é a lei reguladora dos mantimentos, que normalize também a segurança dos caçadores. Porque não há o direito - grita-se - não há o direito de caçadores clandestinos irem à frente fazerem o que nós faríamos indo atrás e, em vez de caçarmos, voltarmos caçados. Não, não há o direito. Legisle-se a favor do homem, rei da criação, rei dos patos, perdizes, coelhos e faisões, rei dos homens e dos animais, das aves de pena e dos irracionais. Não há o direito - grita-se contra a legislação, a falsa legislação em vigor afinal o que andam esses ministérios por aí a fazer se até hoje nem uma legislação decente contra a passarada se viu?»
RESERVA DE MUNIÇÕES E ARMAMENTO ESTADO DE SITIO VIGÍLIA LUZ VERMELHA TROPAS DE CHOQUE Nós somos filhos naturais das ervas das águas das aves correndo ao nosso lado jovem namorada símbolo da manhã noiva que apareceste o triunfo da palavra livre sobre as palavras conhecidas noiva branca jovem noiva das altas e livres e puras madrugadas. Repara, uma cicatriz de remorso marca a cara dos homens a cara suada dos homens é uma enorme cicatriz que os denuncia rasgando-lhes o rosto e a consciência um grito um pio das aves feridas cuspindo nas faces culpadas cuspindo nos ares escurecidos pelas primeiras chuvas do Outono é um ente mais perfeito a cicatriz capaz de julgar a nossa hediondez como a inocência dos pássaros os julga. E a cicatriz tem voz é um dilúvio de vento aquela voz é um lírio crescendo à nossa vista penetrando os nervos curando como droga suavizante enxugando as lágrimas não vindo deste mundo aquela voz mas compreendendo quem vive neste mundo é a única serenidade conhecida é a voz de deus aquela voz ou a voz humana que ainda ignoramos? E também o ciúme dos aflitos a coragem dos cobardes a pele branca dos versos dos poetas um botão sideral a mais um botão a menos na tua farda é o bálsamo que vence e tranquiliza a voz a palavra o signo ou o sinal. Dormem as aves de pequenos torsos nos ramos mas não dormem os homens seguros do poder da força da lei. Quando eles vierem dormirão os pássaros resguardados da neblina nocturna sob a sombra oscilante de um ramo que a lua reflecte. Os homens tiveram tempo de negociar as chaves com S. Pedro que sempre foi para estes negócios escuros. Em suas janelas de baloiço as aves dormem dormem as almas simples dos simples na companhia de um coelho azul. Rochas naturais de um lado do outro lado guindastes de guerra o velho violão compondo música de um lado do outro lado o papel das repartições o fio de sangue imperturbável de um lado do outro lado um cano de espingarda. Onde, onde está a ferida a imensa cicatriz que fala que descobriu pais e mães mortos nos ninhos? "Condicione-se a indústria - gritam – antes que seja tarde proíba-se a concorrência. Urbanize-se a classe mobilize-se o exército de terra com reforços de mar e céu. Fale-se a irrefutável logística dos números mas suspenda-se a lei a favor dos animais e a voz das espingardas- SÓ PROVISORIAMENTE. Depois o ultimatum, rendam-se e mais nada."
Há aves fora da lei cruzando o céu há aves clandestinas pisando a terra há aves comendo e não lhes é permitido comer. Ai dos solteiros - reza a Bíblia - ai dos sós que a chama dos infernos consumirá ai das aves que voam de continente a continente ai das líricas ninhadas desurbanizando as linhas previstas da construção civil ai dos condores que voam alto ai dos pintassilgos com penas amarelas ai dos mochos que têm olho grande mas não têm pé leve ai de quem tiver asas ai de quem tiver penas ai de quem não pertencer à última constituição por plebiscito ai de quem não nomear um representante para a sociedade das nações ai dos mortos ai dos vivos ai das flores ai do ar azul ai do que for puro nesta terra dos homens.
"Legisle-se, legisle-se a favor, legisle-se contra, mas legisle-se, sem lei não se respira, anda ou evolui, legisle-se a favor dos homens e num parágrafo único a favor dos que vão à caça , à mercê, coitados, das aves carniceiras que cantam sob as nuvens que adivinham o tempo que debicam as colheitas que prejudicam de centigramas a economia mundial que dominam o mundo com os seus olhos de infinita doçura de infinita melancolia que provocam as pupilas dilatadas a irritabilidade glandular dos caçadores as tropas de choque dos caçadores que avançam porque há uma lei porque se diz que vai haver uma lei porque tem de haver uma lei que os homens fizeram porque para isso os fizeram uma lei contra os pássaros finalmente e a favor dos homens." + <bandidos-VA> - versos publicados de afonso Cautela A CAPITAL DOS BANDIDOS [ Lisboa, 9-10-1959] Um velho costume oriundo das Antilhas e internado nos hábitos indígenas subsiste entre os habitantes dos Cárpados: meia dúzia decide em nome de milhares. Já invocam a Razão que mais tarde surgiria entre os povos ditos civilizados. A Razão é assim sem ninguém dar por isso a deusa feminina deste povo macho. Feminina e dona de fecundíssimas ninhadas atinge os fins de embaratecer a produção goza de sólido prestígio nas páginas dos livros que protegem os costumes com capa de couro e os estados criam para os patriotas. Dotada de um poder magnético superior visível em vários pontos da terra menos no polo onde é sempre noite e pinguins focas ursos ou animais de pêlo comprido e remo lento não têm olhos para o dia a Razão destes povos atinge todavia um largo raio de acção. Quando tudo isto há-de ser pago não sei tudo se paga no MUNDO ORGANIZADO dos homens. Quando nos hão-de pagar o que nos roubam sei ainda menos nem o sabe ninguém. A sentinela apenas conhece do muro o seu bocado regressando sempre ao ponto de partida. Assim nós vigiamos e nada sabemos dos desígnios de quem manda. Só sabemos que há uma raça de homens nascida para perdoar e outros apenas culpados e outros para culpar uns por baixo outros por cima uns que ganem e outros que falam uma raça de homens só para tapetes e outra raça para fogão de sala uma para aguentar as pisadelas e outra para pisar uma para limpa-chaminés e outra para chaminés. Cumpre-nos a nós a ti a mim cairmos até ao cansaço dançarmos até ao delírio para que o nosso país e sobre a terra haja cidadãos cumprindo o dever de cidadãos sem dever nada a ninguém para isso é que foi criada a nossa dívida para que subsistindo a fatalidade hereditária a velha justiça continue entre os seres. Ou para que uma razão além da razão com razão viesse não oriunda das Antilhas. AFONSO CAUTELA, in "O Nariz", 1961 + <59-10-22-on> versos publicados em «o nariz», páginas 31 e 32 – anti-prosas SEGUNDA METAMORFOSE Lisboa, 22/10/1959 Outras ausências criavam filhos de saudade, talvez filhos adoptivos mas belos filhos de saudade, verdadeiros selos de armas numa farda branca de enfermeira. Que paz, que doce paz é ver o coração brincando, feliz, pelas paredes os quadros de um pintor, pelas alamedas cheias de sol falando às pessoas desconhecidas que, apesar de me não conhecerem, me olham, me sorriem, me falam para que as olhe e lhes sorria e, se tiver voz, lhes pergunte da manhã límpida que faz, da noite fria que vai estar, dos agasalhos para os filhos, do ordenado que este mês não chegou, da ginástica, dos corpos, da vida, da vida a encher os pulmões até Deus. Ah! coração, estarmos próximos, tão próximos da eternidade, tão puros deuses jovens tão clamorosamente imorais e felizes! O Outono treme de frio mas o rio humanizou-se. As janelas abriram-se e lá dentro aparecem mulheres das que não aborrece beijar, das que lembram sempre uma cama, um quarto e um lençol brancos. Uma mulher em que todos os meses são Abril, uma mulher sem a castidade visível e falsa dos monges mas com a castidade febril da terra onde o sol vai chegar e procriar. Marinheiro sem trabalho, à espera que uma das janelas se abra, que um pregão de virtude rasgue o ar, que uma cara bonita me sorria, fico com os braços ao longo das pernas. Nem só de cartolina e cimento, de ferro e gasolina, de química e átomos, de estádios e igrejas é feita a vida que Deus fez, que nos deu para apertar nos braços, até que sufoque e nós também. De amor por ela. + <59-10-28-on> versos publicados em «o nariz», página 36 ÚLTIMA METAMORFOSE Lisboa, 28/10/59 Ainda não sei o que me falta hoje, se a inspiração ou se é não haver nada que mereça a nossa indignação. Talvez o peixe que não morde a isca, talvez a corda do violino que não vibra em pleno concerto, porque se partiu e ficou partida. Mas sei que a nossa coluna vertebral voltou ao seu lugar. Falando alto, sei que falo alto. Falando de amor, sei que ninguém me ameaça. No entanto, tenho medo de falar alto no teu nome, para que os outros assistam à decomposição do mundo íntimo, à aflita, nervosa, ardente, lícita alma que se entrega sem pensar. Cresce o nosso filho em nossos braços nus, este filho de raios e raiva e medo e radiosa alvura, de cadáveres e submissas, inquietas larvas de justiça. O nosso filho dirá ao mundo, falando alto, o que nós ainda temos medo. Dirá ao mundo que nascemos e que de nós nasceu. + <59-10-28-on> versos publicados em «o nariz», páginas 33,34 e 35
A CIÊNCIA DAS ALMAS Lisboa, 28/10/59
A moral ou ciência dos costumes varia segundo as estações, a moda, a conveniência e a autoridade constituída aprovar. À ciência dos costumes prestam o seu concurso as restantes ciências, positivas e normativas, ciências do espírito e ciências da matéria, ciências naturais e ciências sobrenaturais, ciências legais - em suma. Das ilegais não reza a história, que a rezar nunca aprendeu. A moral ou ciência dos costumes, dos bons costumes, deu, dá e dará que falar. Por três ou quatro necessidades vegetativas, que se eufemizam nos verbos nascer, comer, dormir, ficar em pelote, sofrer, constituir família, prorrogar a espécie - a moral sabe que, antes ainda dos reflexos condicionados, podia controlar os movimentos dos indivíduos até à mais ínfima partícula, até à subderme da espécie, até aos interstícios familiares e de alcova, e pode, com a ameaça de revelar os segredos de dentro às línguas do mundo, manter a decência no mundo das línguas, na rua da má língua, decência que só não percebe quem não percebe nada de olhares, quem, devido à gente que faz e ao chuvisco de cabelos, não sabe (ensina o anexim) que são os olhos o espelho da alma e (não ensina o anexim) quem vê caras pode ver, se quiser e tiver olho, corações. O especialista de qualquer falante especialidade, proíbe. Proíbe e é tudo. Conforme o figurino exarado nos laboratórios, academias e ministérios, proíbe. Veste, de alto a baixo, a sociedade legal, a multidão uniformemente distribuída por classes, umas por baixo outras por cima, tal as prateleiras nos jazigos de família. A família aqui chama-se em bom ou mau estado de conservação, assim os ratos que vivem no sótão. Uma multímoda, segregante raça de saltimbancos resolve, sob vários designativos policiais, políticos, diplomáticos e publicitários (logo a imprensa atesta os binóculos e a miopia piora - não vendo mais do que larvas propulsoras em evolução rítmica para o mundo) resolve um ataque, na forma dos comuns ataques por transbordo em recipiente fechado, ou por pressão gasosa contra as paredes nuas em excipiente aberto. Com a fácil contracção dos miriápodos, o pequeno bando actua à moda dos caranguejos, por embates. Cá fora ouve-se o som cavo das investidas, que, ampliado pelos referidos falantes, parece um fragor de batalha. Tratando-se do que a sociedade está formalmente estatuída, com o bordado marítimo de vários fortes espreitando por vários faróis de luz verde e alguns, por excepção, de luz vermelha. Para isso se criam os estados de prevenção - antecipando os estados de sítio. E para os estados de dúvida - os estados de alarme. + <59-10-28-on> versos publicados em «o nariz», páginas 44, 45 e 46
O NARIZ Lisboa, 28/10/59
A lei ai está. Eu julgo que estou, ainda, senhor do meu nariz e ela do nariz dela. Criando, inventariando as linhas que do remorso partem para o sol e o céu, enquanto o tempo rói, rumina, enquanto o mercado nos não vende, aqui estamos. Nós à disposição da lei, a lei a dispor de nós. A lei que por nós vive e assina por nós. A lei que, é claro, nos protege. A lei que, aparentemente, nos livra de assassinos e nos assassina lentamente. A lei contra os jovens puros mas que ela considera impuros. A lei de um só nariz e várias bocas e pernas, para andar de noite sem ser ouvida, sob ou sobre a pele, como a centopeia nos lençóis. A lei, veneno que antes de matar dá euforia. Ali está a lei, e nós sentados neste banco de réu, nesta solidão de vozes, de palavras, de actos, nesta infinita clareira, suspensos desta corda que não ata nem desata, apertados neste nó górdio em forma de pescoço, velas a arder por imaginários mortos. A lei não vê porque é daltónica e baralha as cores quando lhe convém. Ali está a lei, e nós a escrever o rascunho do relatório que nos há-de entregar. A lei julgará. Há a lei, é o que há. Há a lei, é o que há. Do outro lado estamos nós, todos o sabem, ao dobrar a esquina, ao primeiro amor verdadeiro e sem maldade. Chama nomes aos nomes verdadeiros, a lei. Vingai-vos de mim pela secreta via das comunicações telepáticas, um alfinete nos olhos e trás, aí o tendes coxo de um pé, ao sol. Vingai-vos porque eu vos juro que vos não quero mal, que não quero mal a ninguém. Esta violenta asa de mistério que abro sobre as vossas cabeças, este vendaval que levantará as escamas dos vossos olhos, que desblindará os vossos corações, é porque me sinto obrigado ao circuito solar, um pouco longo, enquanto houver na terra a escuridão dos infernos. Contra a moral, ciência dos costumes, não se brinca com cetins. Perdoai-me a vela enfunada e negra contra a tempestade. Só uma tempestade neutraliza outra tempestade. Contra a moral da violência, a violência do amor. E nossa consciência, sem as rugas da desconfiança, face a face, será a vontade do tempo impelindo, pela dor, a vontade do homem. + <59-11-03-on> versos publicados em «o nariz», páginas 37, 38, 39 e 40 – anti-prosas
A MORAL DA HISTÓRIA Lisboa, 3/11/1959 Pois sim, sou metafísico, mas nunca repetirei a lição que obedientemente dais todos os dias. Fechando a tampa por onde espreitava sei que me confundis com um caixote, mas sou a área pura onde quem amo põe os pés. Sei que a minha vocação foi a de falhado, mas é de sangue, de sangue e sal a minha sede, de cristais de sol a minha boca. Escrevo cartas apócrifas para livrar alguém da lei, mas com poemas nunca menti, talvez para reunir a solidão meteórica dos homens, pobres ruminantes das metáforas que inventam, da sede que fabricam, dos aviões que despedaçam, dos dejectos que produzem, pobres seios onde o leite se acaba e a gasolina, em vez dele, agora brota pelos soalhos frágeis da mulher que amamos. Troco a maioridade pela adolescência. Troco a certeza de ter dedos pelo amor puro de uma hora. Mas quem guarda a vinha do senhor? Quem guarda o sono dos senhores? E quem nos guarda? Quem nos guarda do assalto à mão armada? Quem nos viu meter o dedo no nariz? Quem guarda a virgem da sua estimação? E o nosso completo, imundo, salubre coração? Quem guarda a nossa culpa? Quem me perdoará de te querer tanto? Que país estranho é este? Que fundamento vão ter tantas mentiras? Quem pode acreditar que existe gravidade e as leis decretadas contra a gravidade? Quem sabe o que escreve a minha voz, o que o meu corpo ouve? Enquanto deliberam o calibre que me há-de liquidar, enquanto me proíbem de fugir, saibam que sou livre. A máquina de escrever, meu instrumento de vingança, guilhotina a que condeno ideias e suspeitas, tem o ar de uma cigana que me rezasse a sina. Ouço-a, deixo-a bater como um coração ferido, pulsar nas . paredes e no soalho, dialogar com as horas em que ninguém anda lá fora. Escrevo como quem carrega um botão, escrevo como quem ama o que escreve, escrevo como quem transcreve o pensamento de Deus. Distrai-me o trabalho, este trabalho livre no papel, a martelar a máquina de escrever que me reza a sina. Aguçam-se-me as unhas, os cabelos crescem e simultaneamente a máquina de escrever é poesia, alimento e religião. E, simultaneamente, a minha moral de animal sem ela. Desconhecido era, desconhecido fiquei: sinal contrário, parcela de uma soma que não dá total, cobaia de uma experiência que não resultou, carga de uma espingarda que há-de disparar há anos. Para nada sirvo, eu sei. Nem à mesa do pobre, nem para a câmara dos mortos que perderam a feição, nem para purificar as zonas ferroviárias densamente povoadas de gazes tóxicos, nem para os arrabaldes da indústria atómica, nem para os aeródromos da circulação internacional. Para nada sirvo, nem para resposta das perguntas sem resposta. Por isso não faço a vontade aos que me roem o casaco em uso há cinco anos, ele a imaginar e eu também que evitamos, um ao outro, o frio, as anginas, as constipações. Nunca, nunca amei tanto os que me odeiam, os que eu, por engano, por esquecimento, por dever, também odeio. Nunca amei tanto todos os países, hoje sei a raça a que pertenço. Antes assim, saber que estou vivo a cada pisadela vossa, saber que sangro a cada arranhão, saber que cuspo a cada palavra dos vossos discursos e actas e artigos e sessões, saber que me roeis os versos, saber que imoral seria eu, sim, sendo moral na moral do mundo que ORGANIZASTES. Vinha a minha pátria, concha bivalva do sono de nós dois. Vulcânia emergindo das ondas, salpicando-me os cabelos, crespos e de mistura com algas.
Não tenho seguros, nem bancos. Banco só este, de réu, onde me sento, onde me sentaram. Talvez o oxigénio colabore na minha regeneração. Se assim for, promova-se o oxigénio a elemento activo, a estrela polar e óleo combustível, a primeiro motor do universo. Um universo em chamas, neros do ocidente. + <59-11-03-on-> versos publicados em «o nariz», páginas 41, 42 e 43 – anti-prosas
CONGRESSO PRELIMINAR Lisboa, 3/11/59
Havia congresso pelas almas dos mortos, manifestação comum aos ritos do Ocidente, este Ocidente de fadas, baseado numa concepção greco-latina da beleza, anexa a outras heranças. Dedica-se a atenção que o tempo das máquinas deixa disponível. Discursa-se, então. A cultura é o tema central dos discursos e comunicações; porque sempre se discute nestas manifestações de pesar pelas almas dos que lá vão e antes que voltem a atormentar as que cá ficam. As outras não participam em congressos, estão a receber empréstimos sobre penhores, em troca de pastilhas elásticas, ferros de engomar, alcatifas para abafar os ruídos. Os homens, animais capazes de progresso, andavam muito chatiados com aquilo tudo mas gramavam porque era a civilização e, além disso, o congresso. O destino, no melhor da festa, urinou cá para baixo quando se encontravam em reunião. Que pena, que falta de lembrança a dos arquitectos: promover congressos sem esgoto. Diplomatas aproveitaram a ocasião para brincar ao apanha nos corredores e um escritor da moda escreveu o ministério do medo. Quando ele estava, não vinha ninguém, quando alguém vinha ele não estava. Nisto consistia o jogo e nele duraram até de manhã. À tarde, bebendo sucos de frutos, iam a espectáculos públicos na falta de templos. Viam fitas de muitos metros de comprimento. E voltavam para as hierarquias, regularmente, porque eram homens do Ocidente e portanto regulares. Alguns médicos prometiam a cura da angústia por processos narco-fármacos. Os choques eléctricos andavam pelas ruas a meter sustos às pessoas nervosas, aquelas que ainda guardam na gaveta um incómodo coração saltador. É claro que todos estes melhoramentos eram devidos aos homens da Razão e por eles inaugurados em dias festivos, muito avançados para o seu tempo, alguns até de ideias e convicções socialistas que lhes ficavam a matar, que nem uma luva, ou que nem manteiga em focinho de cão. Formou-se um partido de esqueletos inteligentes e meteram-se todos numa fatia de queijo, à espera de vir o rato. Num espaço de tempo impossível de reter, cartas e significações colectivas, baixo-assinadas, foram entregues em nome também dos insignes exploradores que dobraram o cabo Bojador ali mesmo à esquina. Enfim, os melhores frutos da civilização mecânica eram fruto de muitos cérebros a cerebrarem e de muitas mãos a manipularem ao mesmo tempo. O progresso esforçava-se por findar com alguns males remanescentes, quer fosse o espírito religioso das massas, o espírito dramático dos poetas ou o espírito trágico dos suicidas, bem como a consciência de estarmos nuzinhos em pelo, o que ocasiona fortes distorções nos até aí bem escanhoadinhos sexos. O diabo que não é nada para demoras, antes que abrisse e fechasse um olho, deu com o animal capaz de progresso e disse que sim. Que fizessem as malas porque ele também ia. Que se não demorassem. Que os tiozinhos estavam à espera na estação do Rossio. E que o combóio partia dentro de duas horas. Foi isto como se falasse uma só língua e ninguém o entendesse. Estabeleceu-se a Babel ali mesmo no largo D. João da Câmara. As línguas vivas andavam aos pulos pelo asfalto, agarradas aos troleys dos eléctricos, com choques azuis na atmosfera que também se formara naquele momento. O homenzinho ocidental, que já se encontrava no hotel e à prova de glóbulos vermelhos, comeu todas as luzes, deixou-se escorregar pelo telhado, subiu a avenida, deitou-se na relva. E o congresso terminara. + <59-11-10-on> versos publicados em « o nariz», páginas 17 e 18
NESTE ARQUIPÉLAGO Lisboa, 10/11/59
Neste arquipélago de tranquilidade espero a hora triste de embarcar quando a bóia vermelha for uma veia aberta para o mar. Espero o teu lago de calma e segurança espero a ocasião do amor como um duende diurno procura a sua casa na espuma destas ondas. Dois fios cruzados dois fios cruzados para o norte cruzados para o sul cruzados são dois braços de navios. Se falasse das algemas de ternura com que te aperto os pulsos era uma explicação. Se falasse de amoras frescas sujando de vermelho a tua boca era também uma explicação. Se falasse dos meninos brincando com as próprias vozes era ainda uma explicação. Mas porque nos deixaram crescer sem uma explicação? Quando me faltam palavras tenho as estações quando me faltam palavras para dizer que te amo procuro-as na toalha limpa dos pinheiros nos subterrâneos da toupeira que cega trabalhando nas asas mais pesadas ou leves do que o ar no meu quarto de quatro paredes de cela e de prisão quando não tenho palavras para dizer que te amo fico em silêncio olhando as veias que marcam de azul a pele e vão guiando os dias e o instinto à morada definitiva. ♥♥♥♥♥
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