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O texto a seguir foi escrito em resposta à jornalista Helena de Freitas
que me questionou sobre o tema «ser jornalista e eco-militante»: se havia ou não
incompatibilidade, quis ela saber. Lá me expliquei conforme soube e tive depois
a satisfação de ver publicadas 10 linhas desta prosa, no artigo de uma página,
na revista «JJ», do Clube dos Jornalistas . Aproveitoagora para mostrar que
ainda tenho jornalistas no presente interessados em saber do meu passado.
Aí fica, com a minha gratidão à Helena de Freitas, minha querida colega.
+
<militante-1-2-ac-hf>
28-12-2006
A IDEIA ECOLÓGICA E SEUS MILITANTES
O militante da ideia ecológica, em 2006, tem todo o direito de se considerar
investido de uma «missão»: talvez não seja a de salvar o mundo ou as almas, que
é uma meta demasiado ambiciosa, mas contribuir, grão de pó perdido no espaço,
para ajudar o «imperativo cósmico» a realizar-se.
Potencialmente e segundo os dados das biocosmologias ancestrais e modernas
(aquilo a que a Astronomia científica chama «precessão dos equinócios»), a Era
do Aquário está aí e podemos (devemos?) aproveitá-la. O eco-militante
encontra-se na primeira fila dessa acção: que dantes, nos tempos heróicos do
Movimento Ecológico Português (M.E.P.), do jornal «Frente Ecológica» e da
«Ecologia em Diálogo» (na rádio), se traduzia nas famosas «manifs» e «agitações
de rua» mas que hoje tem um estilo de actuação mais concreto e ao mesmo tempo
mais profundo.
«Pensar globalmente e agir localmente» - lema desses anos pioneiros - tem hoje a
sua expressão nos grupos locais de activistas, entre os quais a rede Quercus se
destaca e continua, dia a dia, a desenvolver-se. Pessoalmente não concordo com
algumas tácticas pontuais utilizadas – uma certa obsessão das chamadas «acções
cautelares», por exemplo, – mas na estratégia em geral acho que fazem um bom, um
belíssimo trabalho.
Dos jornais e telejornais também não nos podemos queixar: nesse campo, como em
tantos outros, temos o que (colectivamente) merecemos. E as excepções confirmam
a regra. O gigantesco sistema dos media rege-se por leis internas para manter a
sua homogeneidade: e o recurso ao chamado «debate», tratando-se da ideia
ecológica, é apenas uma forma de cobrir e encobrir aquilo que o sistema não pode
deixar de fazer, na sua inércia interna.
Os mídia têm obrigação de ajudar mas é evidente que a ideia ecológica só pode
ser defendida em profundidade por militantes franco-atiradores e por autores
individuais com a necessária independência de voz e de pensamento: que o
jornalista profissional, por exemplo, não tem nem pode ter. Não é essa a sua
obrigação, não é essa a sua função, não é essa a sua missão, pelo menos enquanto
redactor de notícias, entrevistas e reportagens.
Fora das horas de serviço, ele tem todo o direito de se dedicar à militância
ecologista como cidadão. No jornalismo, se o deixarem ter uma coluna de opinião,
poderá expor as suas ideias mais genuínas e a sua orientação ideológica.
Considero-me um tipo feliz porque nos jornais onde andei me deram sempre essa
dupla oportunidade:
a) fazer jornalismo de ambiente, com as limitações necessárias ao trabalho de
informação que se reclama de alguma objectividade;
b) manter uma coluna de opinião onde tentava ser o militante anarco-libertário
que não podia nem devia ser no trabalho jornalístico.
Lembro aqui, com enorme gratidão, as oportunidades que, em ambos os sentidos, me
foram dadas nos jornais por onde andei: «O Século» (onde publiquei dezenas de
reportagens sobre o ambiente - o «verde» e o «negro» deste país); «O Século
Ilustrado» (onde publiquei reportagens, entrevistas, separatas sobre temas de
ambiente e uma coluna «O Futuro em Questão» sobre Eco-prospectiva); «Portugal
Hoje» (onde, entre outras novidades, me deixaram fazer coisas sobre «ecologia do
trabalho»); «A Capital» onde entrei por empenho do Rudolfo Iriarte, que me
convidou para escrever uma coluna semanal, aos sábados, sobre ambiente. Ainda
hoje não compreendo como isso foi possível, mas a verdade é que a «Crónica do
Planeta Terra» durou 12 anos...E onde nunca houve a mais pequena restrição às
minhas opiniões de militante.
Inclusive deixaram-me entreabrir aquilo a que chamei os «dossiês do silêncio»,
temas que se foram tornando cada vez mais tabus e de que pouco ou nada se falava
e se fala ainda hoje.
Era giro que a nova geração de jornalistas (especialmente senhoras que estão a
fazer um trabalho brilhante em jornais de grande circulação) se interessasse em
desvendar esses dossiês secretos e já que também nos encontramos em tempo de
decifrar códigos e segredos... Ao que parece, os best sellers dão bons lucros
aos editores.
Militantes da Esperança, precisam-se.
E já só temos seis anos da Era Cristã para mostrar o que valemos.
+
O CATASTROFISMO VIROU MODA E IDEOLOGIA POLÍTICA
Nos anos após o 25 de Abril de 1974 (durante o chamado PREC, processo
revolucionário em curso), o militante da ideia ecológica era considerado um
«alarmista» e um desmancha prazeres, quando não era um retinto fascista que não
respeitava o progresso tecnológico e todas as megalomanias dos megaprojectos.
Dominava e predominava o discurso dos «amanhãs que cantam» com as tecnologias de
ponta e as indústrias pesadas e hiperpoluentes a comandar a procissão. Sines e
Alqueva superavam Nossa Senhora de Fátima em capacidade milagreira de nos
resolver todos os problemas.
Depois, ainda no calor da guerra fria, quando os partidos verdes começaram a
florescer na Europa (França e Alemanha) já era de bom tom que um partido se
debruçasse (sem cair) sobre o ambiente, sempre na perspectiva reformista da
anti-poluição que muito pouco tem a ver com uma ideia ecológica de fundo
(prospectiva, preventiva e profiláctica), mais tarde descoberta sob a designação
de «deep ecology».
O Partido Verde, criado pelo PCP e que começou por usar o nome de Movimento
Ecológico Português (associação criada em 1975 e com estatutos publicados no
Diário da República) chegou à Assembleia da República. Muitos anos depois, com o
Partido da Terra, malogrou-se uma esperança: a de um partido independente de
outros partidos. Paulo Trancoso, Ribeiro Telles, Delgado Domingos trabalharam
por isso mas a conjuntura já não lhes era favorável e tiveram que se socorrer de
um partido dominante para ganhar dois lugares na A.R., onde aliás têm feito um
trabalho notável.
Tal como sempre quis o José Carlos Marques (que chegou a ser candidato à
Presidência da República) os ambientalistas não se dão bem dentro de estruturas
partidárias. Sentem-se melhor em rede. A Quercus é o melhor exemplo, com saldo
positivo.
Curiosamente, a situação hoje é inversa da dos anos heróicos e pioneiros do
movimento ecológico: ainda se rotula (embora menos) o eco-militante de
alarmista, derrotista ou catastrofista, mas em contra-partida o discurso
dominante em todos os sectores (e nem só no ambiente) é apocalíptico e
catastrofista. O catastrofismo virou moda e ideologia política.
O militante da ideia ecologista, hoje, em que todos só falam em desgraças, vírus
e aquecimentos globais, deverá estar na primeira linha para contrariar esta
«onda negra» que hoje invade os mídia, multiplicadores de um estado depressivo e
desesperado.
Provavelmente o Planeta Terra não vai ter muitos anos de vida e até ao dia 21 de
Dezembro de 2012, segundo o calendário maya, iremos receber, tranquilamente, do
Cosmos todos os sinais necessários e suficientes para saber o que fazer,
individual e colectivamente.
Atenção, portanto, aos sinais que terão de ser descodificados, num tempo em que
os códigos estão tanto na moda e se vendem tão bem.
Ajudar o Cosmos e a ordem cósmica nesse «imperativo» (paradigma) ao qual ninguém
pode fugir e que nos é dado de bandeja, poderá ser hoje a missão do militante e
do jornalismo militante.
O catastrofismo e negativismo de que nos acusavam nos tempos heróicos do
movimento, pode e deve ser contrabalançado por todas as alternativas de vida que
também foram sendo proclamadas (embora com menos veemência) pela ideia ecológica
e seus militantes.
Se o ambientalismo casuístico é necessário e continua a ter um papel
(reformista, digamos), alargar o horizonte da Terra até ao que chamo «imperativo
cósmico» torna-se urgente. Até 21 de Dezembro de 2012, temos seis anos...
Tempo que as carpideiras do Juízo Final e os epígonos do apocalipse vão
aproveitar para aumentar e multiplicar o estado de entropia do sistema que nos
fez chegar exactamente aos apuros em que hoje nos encontramos: lutar pela
neguentropia crescente que o potencial cósmico (macro e microcósmico) nos
oferece de bandeja (com o nome lindíssimo de Era do Aquário), pode ser a melhor
missão do militante e do jornalismo militante.
IDEOLOGIA DO SUSTO
Hoje todos tocam, como um disco riscado, a melodia da catástrofe que está na
moda mediática e pelos vistos rende mais lucros. Economistas (com uma nova
estatística todos os dias) e cientistas (com uma nova gripe das aves aterradora,
dia sim dia não) alimentam os mídia.
As seitas apocalípticas, com milhões de fiéis e um poder financeiro superior a
muitos estados, debitam o mesmo discurso aterrador, onde o pior do pior é sempre
notícia de página e o melhor do melhor uma nota de rodapé (quando é).
Segundo a contabilidade deles, o medo parece que é lucrativo e os mídia investem
no medo. No panorama internacional de canais que nos chegam por cabo, existe,
que eu saiba, uma única excepção: o Canal Infinito, produzido na Argentina e que
há seis meses nos chega em português. Espero que não acabem com ele: porque isso
sim, seria, quanto a mim, o apocalipse. Ficaríamos exclusivamente entregues aos
chacais esfaimados da destruição. Valia a pena o militante aperceber-se dessa
voz no deserto: tal como nos tempos heróicos do movimento ecológico, sabemos bem
dar valor à voz que prega no deserto.
Desde sempre se sabe que o desespero paralisa a acção: o que querem os lobbies
da destruição (agora encabeçados, entre nós, pelo apocalipse da biomassa - 15
centrais 15!, depois do rotundo fracasso do lobby pró-nuclear) é precisamente o
catastrofismo convertido em ideologia política. Porque eles, afinal, com suas
loucuras e barbaridades, é que nos irão «salvar» de todas as crises e
catástrofes.
Compete ao militante e ao jornalismo militante não se deixar indrominar por
estes salvadores da pátria, do mundo e das almas.
Essa é a missão do militante até 2012: não se deixar indrominar e não indrominar
os seus compatriotas.
«Manipulai-vos uns aos outros» era um slogan dos tempos heróicos que o militante
nunca aceitou e que deve continuar a não aceitar. Eles que se manipulem uns aos
outros (com alguns, poucos, jornalistas a ajudar em livros sobre o futuro
radioso do Nuclear), que se comam uns aos outros e que nos deixem a nós em paz :
são os meus votos de ano novo.
Como sou obscurantista, segundo alguns especialistas do nosso meio ambiente
(vide Ambio Archives), ainda levo muito a sério a batalha entre a Luz e as
Trevas, a grande batalha do Armagedão.
Por isso digo: militantes da Grande Esperança, precisam-se.
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