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HUMOR & TERROR:
DO POLÍTICO AO APOCALÍPTICO (*)
[ (*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado , com o pseudónimo de A.
Mendes Pereira, no livro «Os Últimos Dias da Terra», nº 2 da colecção Dossier
Zero, Editora Arcádia (Lisboa), Junho de 1973, data da tipografia ]
I
[Junho de 1973 ] - Usado pelos autores de ficção científica, o método de levar
às suas lógicas e inevitáveis consequências as premissas da sociedade
tecnológica actual, pode servir, melhor do que nenhum outro, para evidenciar o
absurdo dos seus absurdos, dos seus crimes, dos seus mitos e vícios.
Curioso é que os órgãos mais avançados da inteligência bem pensante, ditos
esquerdistas e, quiçá, revolucionários, nem a esses absurdos assim evidenciados
dedicam alguma atenção, certos como estão de que tudo marcha no melhor dos
mundos possíveis. Mas mesmo os que criticam (poucos e a medo, não vão as
universidades expulsá-los ou as ordens profissionais excomungá-los) esquecem-se
de que estão apenas perante a fase paroxística de uma lógica e de um processo
que vem de trás e de muito longe.
Três exemplos tenho hoje à mão para ilustrar este «método de demonstração pelo
absurdo».
Um deles tem sido divulgado em capas de magazines sensacionalistas: exibem-se
grupos de máscara aperrada ao rosto, dizendo-se que é a próxima defesa contra as
poluições. Afirma-se isto nas calmas e no firme propósito de vir a
industrializar as máscaras... Assim será, inevitável, fatalmente e, por muito
que a princípio nos custe a crer, basta que mais dois ou três magazines insistam
no projecto, para nos mentalizarmos todos e aceitá-lo quando chegar o momento de
o ...comercializar. Cá estamos, os consumidores, para o adquirir. É o progresso,
Progresso obriga, progresso manda e ninguém pestaneja à hipótese de uma
humanidade de «mascarados» rodeada de poluição por todos os lados. Mas esta é
apenas uma das hipóteses impostas pela tal lógica exponencial do chamado
crescimento económico, do desenvolvimento tecnológico e que só não chega a ser
terrífica porque é simplesmente humorística.
Outro exemplo vamos colhê-lo em transcrição de um folheto publicado pelo
Departamento de Agricultura dos E. U. A. É verdade que o folheto insurge-se
contra os fanáticos negociantes da fluorização, um negócio chorudo mas óbvia e
escandalosamente criminoso. O escândalo é de tal sorte, que até o Departamento
da Agricultura protesta.
«A poluição industrial do ar pelo flúor, bem como da vegetação e da água dá em
resultado prejuízos incalculáveis no gado, nas colheitas e nas pessoas.»
Quer dizer, o que constitui um poluente activíssimo e pernicioso - flúor - está
em uso e continua a ser defendido, com unhas e dentes, por negociantes que o
«fabricam», como «medicamentação» aplicável à água de consumo público. Não
satisfeitos com este abuso perfeitamente legal, o Serviço Nacional de Saúde dos
E. U. A. já anuncia que a fluorizaçâo prepara apenas o caminho para outras
«medicamentações». Psiquiatras e psicólogos admitem a possibilidade do uso de
medicamentos para controle de nascimentos, na comida e na água.
Num simpósio de sábios, um psiquiatra sugeria: se se adiciona flúor à água tendo
em vista a saúde dos doentes, porque não adicionar Lítio que controla estados de
espírito fora do normal, uma vez que se provou exercer o lítio efeitos
consideráveis nos sentimentos normais do homem?
Quando o crime raia os limites do absurdo, já não é terrível mas apenas
ridículo. Vemos então as profundas afinidades que ligam humor e terror.
Outra notícia chega-nos, subreptícia, pelo canal de Le Nouvel Observateur, o
semanário bem pensante da esquerda francesa.
«Vacina anti-atómica - anuncia e descreve:« se a população for devidamente
treinada, um
terço dos franceses terá oportunidade de escapar a um bombardeamento atómico da
França.
«Estando hoje estabelecido que o mais perigoso, numa explosão atómica, não é a
conjugação dos efeitos térmicos e mecânicos mas a das radiações ionizastes cuja
acção é diferida e invisível, eis que uma vacina ou droga poderá permitir
suprimir a nefasta acção das radiações, um remédio permitirá evoluir num meio
total ou parcialmente irradiado, sem nenhum perigo para o organismo... Tudo isto
afirmam os peritos militares.»
E - acrescenta Le Nouvel Observateur, não muito a sério mas não muito a brincar
- «quando um militar sonha, há sempre um cientista para transformar esse sonho
em realidade.»
Tal notícia não necessita, creio eu, comentários. Aliás, a moralidade de órgãos
como Le Nouvel Observateur para criticar tais absurdos também não é grande.
Necessita-se de um ponto de partida mais profundo para contestar determinados
mitos e esse ponto de partida não é o esquerdismo contemporizador desse ou de
qualquer outro semanário comprometido com o Sistema, com o terror industrial.
Mitos como este da vacina anti-atómica, ou aquele da medicamentação da água para
limitar nascimentos, ou aqueloutro das máscaras antifumos, pertencem todos ao
ciclo de uma rotina que órgãos bem-pensantes como Le Nouvel Observateur não
contestam: a rotina sintomatológica, raiz de todos os crimes, quem há aí para
criticá-la?
Se há doença, dá-se vacina. Se há meio deteriorado, medica-se. Se há órgãos
podres, transplantam-se. Se há um ecossistema transformado em cloaca,
fabricam-se máscaras e deixa-se ficar a cloaca e o pessoal lá dentro. Remendar,
conformar, melhorar o mal, reformar - que outra tem sido a conversa, mesmo dos
mais contestatários?
Que outra coisa - senão um repugnante reformismo-conformismo - revelam todos
esses sintomas paroxísticos de uma mitologia que os vem revelando de há muito?
Preconizar uma terapêutica medicamentosa para uma dor de cabeça ou para a
limitação dos nascimentos, é apenas questão de grau: ambos, porém, são
reformismo.
A tal nível de contestação global não chegam ainda os órgãos da intelligentzia
bem-pensante. Por isso clamam que a poluição é um problema político, sem saberem
que estão a dizer menos e mais do que é a verdade. A poluição com efeito, não é
uma, questãozinha política ao nível de blocos, regimes, ideologias, ao nível em
que se dirimem as questões diplomáticas político-ideológicas da rotineira
coexistência e seus derivados. A poluição é realmente uma questão política mas
de política radical, de política revolucionária, de política planetária ou
antropolítica. Ultrapassa, claro, as questões ronronantes (reformistas) de
blocos que se «combatem» sobre o corpo-mártir da Indochina mas que se
intervisitam depois, nos respectivos salões de baile, se beijam e abraçam.
Só a substituição desta civilização (desta cultura) por outra é démarche
radical, revolucionária, antropolítica. O que as políticas de blocos e
ideologias pretendem é reformar o querido Sistema, a querida civilização, não é
substituí-lo.
POLÍTICA DO HOMEM
Assim, transpolítica, política planetária ou antropolítica são apenas e
claramente sinónimos de Contra-Cultura, de Contestação Radical, de Política do
Homem e, portanto, de utopia.
Desabituados de pensar o homem em termos de Utopia, porque foi tarefa secular da
porcaria racionalista desacreditá-la, fazendo-a sinónimo de fantasia quimérica,
de impossibilidade romântica, de inacessível e inexequível, a poluição teve o
grande mérito- de nos atirar repentinamente contra o inacessível da Utopia.
Queiramos ou não, quando as coisas chegam aos tais extremos absurdos - de que
descrevi apenas três exemplos - o dilema é Utopia ou Morte. A Utopia será a
única maneira de escapar à catástrofe. Pensem-se, imaginem-se alternativas
utópicas e por mais impensáveis, fantásticas, inverosímeis que elas sejam hoje,
tenhamos a certeza de que serão a realidade de amanhã.
Fatal, inevitavelmente. Tão fatal, inevitável e irresistivelmente como a ciência
nos habituou a considerar os seus mitos. Quando se preconiza uma vacina
anti-atómica, a medicamentação da água de consumo público ou as máscaras de
aperrar aos narizes, tenhamos não só a certeza de que a Utopia (quer dizer,
substituir esta por outra Civilização, esta por outra Cultura) é inevitável como
está incrivelmente perto de nós e já em curso.
II
UMA CIVILIZAÇÃO MORTAL
12-8-1972 - Se todas as civilizações são mortais, não há razão para que esta -
tecnoburocrática - escape à regra e fique cá para tia.
E assim é que se lhe prevê um lindo funeral, um relativamente curto período para
dar as últimas. O comandante Yves Cousteau - autor de filmes "fantásticos" sobre
a fauna e flora submarinas - um dos homens que cometeram o hediondo crime de
amar a Natureza, não lhe dá mais do que 50 anos. E bastante atribulados.
Calcula-se o que será o estrebuchar de um animal tão corpulento...
Também os funcionários do sistema,- até há pouco todos clorofila, todos
sorrisos, todos optimismo, toda a vida inspirados no tio Pangloss, embebidos nos
seus mitozinhos caseiros, também esses e até esses, que classificam de
histéricos os "defensores da Natureza", começam a reconhecer que, pelo lindo
andar da carruagem, já pouco tempo fica para eles beberem os seus uísques nos
seus simpósios internacionais.
Mesmo com o risco de perder o emprego, os Sicco Mansholt cá do sítio têm andado
eufóricos a descobrir a pólvora e a dizer o que os poetas e profetas de todos os
tempos já tinham dito e redito.
Temos assim esta civilização do lixo (e do luxo), esta civilização do
desperdício, esta opulenta e orgulhosa civilização que andou séculos a dominar a
natureza e a combater (ora era um bacilo, ora era um vírus), a caçá-la (ora eram
lebres, ora eram elefantes), a destruí-la (ora eram sardinhas, ora eram
golfinhos) perto de dar a alma ao criador, diagnosticado o cancro pelos melhores
merceeiros e clínicos da especialidade, que lhe prognosticam assim repouso e
caldinhos (de galinha).
Poluída até ao pescoço, falta agora que a poluição suba até às orelhas, ouvidos,
olhos e boca. Se lhe tapam a boca é o fim, numa civilização que viveu toda a
vida de meter à boca e encher o bandulho. Depois, as formigas que cá ficarem,
lhe farão o funeral.
Até há pouco tempo era clássico na ficção científica o apocalipse termo-nuclear
e alguns narradores empenhavam-se a imaginar lindas cidades arrasadas por úteis
bombardeamentos atómicos. A ficção científica foi ultrapassada por aquilo que,
há dez anos, ninguém previa (ninguém dos espertos cientistas). Nesse lapso de
tempo, o ar tornou-se irrespirável, a água, imbebível, as terras e os alimentos
contaminados por toda a casta de organoclorados recomendados pela F.A.O., de
modo aos famintos morrerem mais devagar e aumentarem, em paz, a fertilidade de
novos famintos.
De absurdo em absurdo, de crime em crime, de vício em vício, esta civilização
que transplanta fígados, corações, rins e (ameaça) cérebros, não terá Barnard
nenhum que lhe enxerte víscera vital nenhuma. Há-de morrer às próprias mãos e
com todos os santos sacramentos.
A nós, "histéricos defensores da Natureza", que nos resta?
Rir da anedota, preparar os crepes para o funeral, inventar alternativas de
sobrevivência fora do pântano e meter o cadáver no fosso mais fundo, de onde o
seu fedor não venha empestar o ar, nem aborrecer mais ninguém.
De facto, esta civilização cheira mal. Em todos os tempos o disseram profetas,
poetas, artistas, músicos, homens que pelo radar da sensibilidade e da
imaginação logo viram tratar-se de uma estrutural vigarice e compreenderam os
mitos, erros, crimes, vícios do Raciocínio arvorado em dono e senhor,
omnipotente, omnipresente e omnisciente ditador.
A nós, que apenas vemos confirmada a profecia, a nós, "histéricos defensores da
Natureza", que resta?
Acreditar talvez na última safa: persistirá o "homem eterno" para lá de mais
este acidente chamado civilização? Mesmo que só fique sobre o globo uma formiga,
há quem acredite na cultura mais antiga da terra - a chinesa -, há quem acredite
nos golfinhos, há quem acredite em todos os índios ainda não exterminados, há
quem acredite nas tribos australianas ainda não contaminadas pelos melbúrnicos,
há quem acredite nos indígenas do Amazonas antes que a Transamazónia acabe de os
exterminar, há quem acredite nos "hippies" e no seu neo-tribalismo, há quem
acredite em Lanza del Vasto e em Danilo Dolci, há quem acredite - até - no
socialismo libertário, nos falanstérios fourieristas, há quem acredite nos
extra-terrestres que continuam a vigiar o nosso sono e a ser matéria dos nossos
sonhos.
Tudo Utopia: - dirão os porcos do costume, dirá qualquer funcionário da querida
civilização, já com a máscara anti-fumos aperrada ao focinho.
Pois é, sempre foi e há-de ser Utopia, enquanto houver porcos desejando reduzir
a existência, o mundo e o Cosmos à sua Porcaria. Utopia foi sempre toda e
qualquer tentativa, toda e qualquer alternativa para sair sobrevivente desta
civilização que se caracteriza pelo totalitarismo totalitário. Daqui ninguém sai
e quem tentou sair (os Artaud, os D. H. Lawrence, os Guénon, os Henry Miller)
por sua conta e risco, levou para tabaco.
Enfim, há quem acredite na aproximação e diálogo de civilizações exógenas,
sempre tão vilipendiadas, sempre tão acusadas de fome, de pobreza, de
inactividade, de pauperismo, de doenças: De doenças, céus! Esta civilização de
Morte tem o arrojo e descaramento de criticar a Miséria em outros continentes, e
a Doença como se não fosse ela um pântano de Morte, de Doença!
Além de que para as outras civilizações, quem exportou para lá a pobreza, a
fome, a miséria e as doenças? Quem?
III
SOBRINHOS DE PANGLOSS
Há sempre os optimistas, sobrinhos de Pangloss, que esquecendo as notícias do
Fim e as trombetas do Apocalipse, fazem lindos «planos para o futurou.
De facto, os vários alarmes que têm soado ultimamente sobre os poucos anos de
vida que esperam a civilização conhecida por «civilização do lixo» ou do
desperdício, não impedem os optimistas de continuarem a planear, a programar, a
projectar, a prometer, como se tudo continuasse à espera deles, e à sua frente,
calmo, sem prazo e com horizonte indefinidamente desimpedido. Embora sejam os
próprios cientistas que começam a diagnosticar o mito do crescimento infinito e
ilimitado, a maioria dos cronistas continua enlevada com o que se há-de passar
daqui a ?0 ou 80 ou mesmo 90 anos.
Nada mais humorístico do que visões futurológicas, do que previsões tecnológicas
sem o sentido ecológico da realidade e da história. Se tudo indica que o globo
será consumível e está a dar as últimas, como podem alguns futurólogos continuar
pintando os paradisíacos cenários de um futuro abstracto?
Pensam alguns que os temas futurológicos conduzem fatalmente a essas visões
cor-de-rosa, ingénuas, paradisíacas, inconscientes, abstractas.
Não vejo porquê. Creio que uma verdadeira consciência prospectiva será sempre
mais pessimista do que optimista e que, aliada à prospectiva, só uma consciência
ecológica dará consciência a qualquer previsão. De resto, tudo são mitos: mais
passadistas, mais futurizantes, mitos de uma mentalidade efectivamente
ultrapassada. E de uma «civilização» moribunda.
IV
1972 foi, sem dúvida, o Ano da Ecologia.
E curiosamente, o relógio português andou, nessa matéria, síncrono com o relógio
europeu. Coisa rara, nunca vista e que deve sublinhar-se por significativa. A
Comissão Nacional de Ambiente nasceu o ano passado, que foi também aquele em que
se realizou a Conferência de Estocolmo. Este acontecimento - se aos
acontecimentos nos ativermos e à face exterior das realidades- marca com efeito
o início de uma nova era planetária e o fim da era nacionalista nas relações
mundiais.
«A Terra é só Uma» concluíram em coro os teóricos e técnicos de várias
procedências. Que a Terra ë só uma - esgotável nos seus cursos e recursos - já o
vinham descobrindo e afirmando, há uns séculos largos, alguns homens, ditos
hereges, loucos e fanáticos mas, no fundo, apenas «contemporâneos do futuro»,
que no entanto ninguém ouvia (todos fingiam não ouvir) porque não dispunham de
amplificado sonora à moderna nem aparelhagem de retroversão em altos simpósios
internacionais e porque, afinal, um S. Francisco de Assis, um Ohsawa ou um Walt
Whitman - apenas alguns dos muitos precursores da Ecologia - não interessavam
nada ao Establishment nem às mentiras de que este se alimenta. E enquanto
puderam abafar a voz dos poetas (dos profetas e utopistas), assim se fez.
Cuidadosamente. Sistematicamente. Acintosamente.
Em 1972, porém, um senhor chamado Sicco Mansholt, de formação agrícola, colocado
num alto posto da Comunidade Europeia, pessoa de confiança dos monopólios
internacionais, sonhou alto, descuidou-se, entrou em transe de confissão íntima,
roeu a corda e deixou a consciência falar mais alto do que a conveniência. Numa
carta ao italiano Malfatti, do Clube de Roma, escrevia o seu «grito de coração»,
o seu requiem (dele e da chamada glória europeia), o seu alarme, o seu aviso
solene à navegação.
Escândalo! Confusão nas hostes reaccionárias de todo o Mundo, incluindo as que
se autocognominam de progressivas. Ninguém queria acreditar no que seus olhos
ouviam e seus ouvidos viam. Um tão solene homem de bem virava «traidor».
Desmanchava o jogo. Denunciava o mito mais incrustado no Sistema e de que todos
os presentes vivem, o mito do futuro e do crescimento económico infinito.
Foi o bom e o bonito. Rebentam as águas da controvérsia. De toda a parte, ordens
e contra-ordens, uns pró outros contra Mansholt, outros nem assim nem assado que
a gente não sabe o que vai ser e há que usar de cautelas. Usou-se de cautela.
Muita cautela: Mansholt ficou no centro das opções, deslocou o centro de
gravidade das zaragatas internacionais ( a dicotomia socialismo-capitalismo)
para humanismo-terrorismo, civilização-barbárie, qualidade-quantidade.
Daqui o Escândalo.
ENTRE A CATÁSTROFE E A UTOPIA
Entre o desespero e a esperança, entre a catástrofe e a Utopia, o ano 1972
colocou a questão mesmo debaixo das barbas dos responsáveis: os cientistas.
Estamos tão acostumados à inércia destas academias encarregadas de promover o
progresso das ciências e arredores, que a velocidade dos acontecimentos começa a
espantar-nos. Há um ano, falar de Ecologia fazia empalidecer de cólera qualquer
adepto do Benfica tecnoburocrático. Hoje já se pára, escuta e olha, ao ouvir a
palavra «Ambiente», não vá o dianho do comboio passar por cima da gente.
Aqueles que nasceram com a Ecologia - afinal a ciência mais antiga da
Humanidade, com os seus primórdios na Astrologia, depois degradada como tudo o
que o comércio e a pirataria degradaram - os ecomaníacos, durante muitos anos
considerados a perdição subversiva da Magna Ciência, da Sagrada Tecnologia, da
Providencial Indústria e da Sacrossanta Economia, os que romanticamente
insistiram no respeito à vida contra tudo o que, na Abjecção, degradou e aviltou
a Vida, os que teimaram em amar as aves e as árvores, o solo e o sol, a água e o
ar, os animais e as plantas, o cosmos e a célula, porque sempre souberam não
haver diferença entre macro e microcosmos, entre o que está em baixo e o que
está em cima, porque sabiam, inclusive, a sobrevivência da orgulhosa raça humana
intimamente relacionada com a sobrevivência de toda a criatura cósmica, sem
nunca perderem de vista a suprema consciência da Unidade que é a única coisa a
definir-nos como seres humanos - contra a barbárie da Análise, da Dispersão, do
Atomismo - tinham finalmente, os amigos da Natureza, o sorriso condescendente
dos grandes senhores do Mundo, que levaram séculos depredando, estragando,
desperdiçando, etc
Discursos, mesas-redondas e quadradas, artiguinhos na Imprensa, oh!, os
ideólogos olharam então, no intervalo de um colóquio «extremamente importante»,
para o valor da qualidade, eles que se formaram em Quantidade e do Número
fizeram o substituto do Espírito Santo.
A meio de 1973, ano em que a Ecologia irá ser o pão nosso de cada dia, o nosso
trabalho de sobrevivência quotidiana, o ultimatum e a concordata, a esperança e
a alternativa, aqui estamos correspondendo ao desafio, mas honestamente fica
dito: Ecologia, para nós, não é mais uma cienciazinha académica para uns ó-ós
valentes, gáudio e refúgio de senhores académicos bem diplomados e bem
instalados.
Meio ambiente será para nós, nestes «balanços da civilização» ( única que tem a
petulância e a arrogância de se autocognominar a Civilização, por antonomásia)
ponto de partida para reflexões fundamentais sobre o Homem, a Vida, o Cosmos e o
...Resto, que é afinal onde começa a verdadeira história. Bom será que se saiba
o partis-pris aqui assumido. Não se cultiva a demagogia da neutralidade.
NÃO SEI SE JÁ REPARARAM
Os próximos anos, para não dizer os próximos meses, serão decisivos para a
sobrevivência colectiva do planeta Terra - bem pouca coisa, é certo, no meio da
poeira cósmica, mas de qualquer modo berço e túmulo, nossa casinha e amparo.
Tratemo-lo bem. E tratemos da saúde aos que querem destruí-lo.
Não sei se já repararam, mas é nele - planeta - que por enquanto habitamos.
Enquanto os irmãos extraterrestres não nos arranjarem melhor berço; algures numa
outra galáxia, é nele, globo terráqueo, que nascem as crianças, crescem as
flores, correm as águas, os músicos compõem seus cânticos e os poetas se fartam
de avisar, séculos antes, a humanidade das asneiras que a levarão ao suicídio.
Vamos olhar, então, para esta terra que é nossa e é só uma? Vamos fazer aqui um
esforço desesperado ( quando se desespera de tudo é que surge a Esperança) para
acordarmos do letargo chamado Tecnocracia, para vivermos a verdadeira vigília da
sabedoria e da vida?
Quem quiser que venha. Quem não quiser, que fique. De qualquer modo, fica claro
que não fomos nós a contribuir para o lindo funeral disto tudo.
V
HIROXIMA E NAGASAKI
As bombas de Hiroxima e Nagasaki ajudaram a compreender a capacidade
auto-destrutiva desta civilização e a sua indissolúvel unidade. Ajudaram a
definir o território da Abjecção como Sistema, Estrutura, Establishment. Se não
contribuíram imediatamente para uma autocrítica, tornaram óbvio o fim da
História e ao alcance da mão humana a destruição da espécie. Isso ajudou a
tornar o globo uma bola cadavez mais pequena e, nesse globo, a «civilização do
desperdício» como o detonador dessa destruição.
Com o Apocalipse à vista, com um futuro a prazo, com a hipótese cada vez mais
plausível da sua finitude, os mitos do «eterno progresso» e do «eterno
crescimento» sofreram, como tudo o que é eterno, os primeiros safanões com as
bombas de 1945.
Depois dessa data, os jornais não deixaram de noticiar os efeitos a longo prazo
das radiações na atmosfera. Não só as que eram sequela das bombas, mas as que em
países «pacíficos» se verificavam. Criou-se mesmo a expressão-slogan «átomos
para a paz»... Em 21 de Abril de 1959, a France Presse anunciava:
«O estrôncio radioactivo nos ossos das crianças americanas duplicou durante o
ano de 1957 ».
O mais curioso é que o uso do chamado «átomo pacífico» passou ao número dos
hábitos ou mitos bons que acalentam o sono desta civilização. E não faltaram
folhetos, reportagens, dossiers recheados de fotografias, a demonstrar que o
átomo serve para tudo.
Para irradiar alimentos, por exemplo. Graças a uma campanha bem orquestrada -
como são sempre as campanhas auto-apologéticas da Indústria - a opinião pública
encontra-se hoje «convencida» dos benefícios que pode colher do tal « átomo
pacífico», mesmo que lho sirvam à mesa. Como se encontra convencida de tantos
outros «benefícios», de tantos e tantos produtos que ( simplesmente ) matam.
Quer dizer, e seguindo o circuito habitual destas coisas: sendo um dos primeiros
alarmes que puseram de sobreaviso os mais prevenidos, o átomo acaba por ser
reabilitado, recuperado, absorvido.
É de supor que o mesmo venha a acontecer com muitos outros malefícios que, pela
magia da publicidade, se transformam em cornucópias de salutares benefícios
atirados, como flores, sobre a cabecinha tonta da humanidade. Cabecinha a que
regularmente se aplica uma salutar lavagem de cérebro.
O uso dos raios X é uma derivante clássica, dessa mentalização ou lavagem de
cérebro e uma coisa que já toda a gente aceita, por muito que os próprios
técnicos da especialidade demonstrem (no papel) a gravidade de tal uso.
A própria O. M. S., sempre na vanguarda dos grandes empreendimentos, já tem dado
a conhecer os inconvenientes do emprego sistemática dos raios X e das
repercussões que podem esperar-se deles sob o ponto de vista genético: as
radiações ionizantes afectam as células reprodutoras.
VI
SMOG LONDRINO
Foi há onze anos, no Inverno de 1962-63, que Londres deu o alarme. 4700 mortos
numa semana devido ao «smog» tiveram o condão de alertar as autoridades e, bem
entendido, a opinião pública.
Os telexs trabalharam anunciando o recorde e, embora os avisos contra os perigos
da contaminação já se ouvissem há bastantes anos, foram precisos para Londres
4700 de uma assentada para se pensar a sério no estado do ar respirável.
Dez anos depois ainda não tivemos em Lisboa um smog animador como o de Londres,
mas vários indícios asseguram que caminhamos alegremente para uma vida melhor,
quer dizer, para a industrialização e portanto para a poluição industrial a tal
nível europeu.
É de 1963 livro The Silent Spring em que a escritora Rachel Carson, falecida um
ano depois sem ter visto a vitória da ideia de que foi a pioneira, ainda teve
tempo de lançar o alarme contra os pesticidas na agricultura. O seu livro, um
dos maiores «best-sellers» do pós guerra, contribuiu decisivamente para um
estado de espírito mundial que desembocaria em 1972 na Conferência de Estocolmo
e ficará como o primeiro despertador que soou para a humanidade adormecida,
avisando-a de que está a suicidar-se.
Seria o primeiro capítulo para a história da chamada «terra queimada» que anos
depois outros cronistas iriam descrever com requintes de pormenor. Clássico da
consciência ecológica, é curioso que o não esqueceu a exaustiva lista
bibliográfica elaborada pela Campanha de Conservação da Natureza e Defesa do
Meio Ambiente, e distribuída aos jornalistas na conferência do dia 14 de
Dezembro de 1972.
Em face do êxito obtido pelo livro da escritora Rachel Carson, lembramos que o
presidente Kennedy ainda teve tempo, antes que o assassinassem, de mandar
organizar uma comissão de inquérito para averiguar se efectivamente a poluição
era assim tanto como os poetas vinham dizendo há anos e os ecomaníacos
assegurando com cada vez maior insistência.
Até então, a única arma com poder de destruição planetária era a bomba. Vinte e
cinco anos depois de Hiroxima, depois da Bomba A e da Bomba H, a humanidade
«civilizada» conseguia que mais três entrassem na competição para o titulo de
«arma absoluta»: poluição ou bomba P, Fome ou bomba F, explosão demográfica ou
bomba D, parece não faltarem hoje na bicha várias formas de a humanidade se
auto-exterminar sem deixar sequer vestígios.
Mas a Poluição continua a ser, parece, a predilecta, a mais frequente e a que
consegue per capita mais lindos recordes. Até ver.
VII
VALHA-NOS SÃO PROCÓPIO
O que tem sido, para aí, nos últimos meses, com leões e raposas, ultrapassa o
que qualquer anedotista de vocação poderia inventar. Com o apoio solícito dos «mass
media», sempre na vanguarda das grandes causas, matilhas de caçadores, às
centenas, sob o pretexto de que há raposas maldosas dizimando rebanhos e
criação, afrontando o ridículo tanto como o «perigoso» animal, de mira em riste,
ei-los na sublime missão de efectuar batidas monumentais à bicheza selvagem.
O leão de Rio Maior teve também seus lances épicos e os dias contados em
tribunal mais do que popular. A sorte dele foi não existir.
Episódios estes que ilustram, de maneira inequívoca, o amor que em certos
sectores cinegéticos se vota ao animal. Então, além de paternalista, o adepto
vira racista. Há animais bons e animais maus. Bom é o que se deixa domesticar, é
o que serve os seus desígnios, o que se deixa abater sob o cano da caçadeira.
Mau é o que escapa, o que se está nas tintas para a escravidão doméstica, o que
não consente patas de homem e miudezas de vida calminha, rons-rons perto das
brasas, à imagem e semelhança do homem esse animal que nenhum bicho consciente
da criação desejará imitar.
Temos assim estabelecido o que é bom e o que é mau - a moral que preside a estas
batidas, onde se espera ver surdir, para maior frenesi da matilha, o javali e o
lince. Só que javalis e linces já os devem ter liquidado todos, a esta hora e
graças a Deus.
Notícias como essas, induzem-nos a considerar que o mundo das espécies animais e
vegetais continua a preocupar os humanos, ou porque chegam à conclusão ( óbvia )
de que tudo está interligado e de que a sobrevivência de uma raça está
intimamente relacionada com a das outras que povoam o planeta, ou porque, amigos
ou inimigos, diariamente entram em contacto e, inevitavelmente, em conflito; ou
porque, pela paisagem ou por um resto de afectividade, algo continua a religar
todas as formas de vida, por muito que a «civilização» tenha tentado pulverizar
e dissociar o que era, dantes, o «paraíso da unidade original».
Só que...
Caça, e pesca têm ainda muita força neste tempo e mundo em que se promovem
campanhas de protecção à Natureza, apenas para melhor a destruir, pilhar e
depredar. Mais à vontade e sem nenhuns remorsos. Milhões de adeptos constituem
uma corrente de opinião muito forte e ninguém irá contrariar homens armados até
aos dentes, que se organizam em grupos de centenas...
Proteger a natureza, a fauna principalmente, é tarefa meritória para, depois, os
caçadores terem rezes que lhes permitam a prática do seu desporto favorito.
Mas «protecção» (valha-nos São Procópio, advogado das chinchilas) é palavra de
evidentes conotações paternalistas. Proteger porquê? Proteger de quem? É curioso
assinalar que este homem ocidental e cristão, quando não está a combater
qualquer coisa, está a proteger e quando não está a proteger nem a combater,
está a ressonar das difíceis digestões cinegéticas...
A palavra «protecção», pois, parece-me abusiva por demais. A vida selvagem não
precisa, se vistas bem as coisas ao microscópio, de ser protegida. Precisava e
precisa é de que não a chateiem. E que se suspendessem, por algum tempo, as
alcateias de dizimadores. De resto: quem, senão do homem «civilizado»,
precisamos nós de haver quem nos defenda? E quem nos proteja?
De pilhagens se entreteve o homem através das eras e não era agora, in extremis,
em que a sobrevivência da humanidade está por um fio e directamente na
dependência dessas pilhagens, que ele irá desistir de tais hábitos ancestrais.
Já os nossos bisavós diziam: «Depois de mim o Dilúvio», estado de espirito este
generalizado entre todos os que se dizem optimistas, por oposição aos «
pessimistas», - diz-se - desses que não fazem outra coisa do que anunciar o
Apocalipse, e escrever a sua reportagem.
Ora o que efectivamente acontece é o contrário: pessimistas raiando o pirronismo
são os que fazem do Apocalipse e sua inevitabilidade o supremo alibi para as
suas últimas pilhagens sem punição nem remorsos.
Optimista é o que, apesar da inenarrável estupidez humana, apesar da casmurrice
- única doença incurável -, apesar das burocracias e dos imobilismos, apesar das
delinquências senis que dominam o globo, apesar das chacinas e das torturas, dos
homicídios e dos biocídios, dos etnocídios e dos ecocídios, apesar de todo esse
panorama efectivamente pouco encorajante -diremos, se nos permitem,
desmoralizaste - e efectivamente apocalíptico, guardam uma reserva, um potencial
de Esperança nas minorias que modificarão por completo a face deste globo
agonizante e em processo acelerado de erosão.
Optimista não é o que fecha os olhos e consuma o suicídio, não é o que mete o
bico debaixo da areia para não ouvir a tempestade, mas o que abre olhos e
ouvidos, inteligência e imaginação, amor e lucidez, e enfrenta o desafio do fim
com igual serenidade, e consegue superar o desespero. A Esperança - em sentido
litúrgico - surge quando já se perderam todas as esperanças.
O amigo da vida selvagem e da Natureza, o maníaco do ambiente, o inimigo da
Engrenagem suicida, o resistente ao Ecocídio não é pessimista. Pessimista é o
que afirma: «Como não há nada a fazer, vamos rir e folgar para acabar em
beleza.» Pessimista é o que continua a querer convencer-se de que vive num mundo
idílico, pressentindo embora e cada vez mais inevitavelmente que vive num mundo
em acelerada decomposição.
Acabar intoxicado é a filosofia do novo Pírron, a que se opõe o Ecologista com
um optimismo crítico e lúcido, com uma visão panorâmica e absoluta da Abjecção
na sua totalidade, no seu totalitarismo global ( relativo a globo terrestre).
VIII
JOHN MADDOX CONTRA-ATACA
As acusações ao famoso relatório do M. I. T. e, de uma maneira geral, a todos os
que, pelo número ou pela profecia, pela teoria ou pela prática, pela intuição ou
pela dedução, pela imaginação ou pela inteligência, anunciam o Apocalipse e a
catástrofe, têm pelo menos uma virtude: obrigam a definir-se os verdadeiros
inimigos da humanidade, aqueles que a humanidade deve pôr definitivamente no
tribunal da história.
O Apocalipse foi profetizado em todas as épocas por quantos perceberam no
«sistema que rege a economia mundial» a sua raiz fundamentalmente homicida e
violenta, suicida o autodestrutiva. Nada de humano e de capaz poderia criar-se
num ambiente definido pelo gosto sádico da (auto-)destruição. Não faltaram os
poetas, que ao longo dos séculos representaram a Resistência ao Sistema,
anunciando o fim da história e do mundo.
A novidade consiste só em que hoje os profetas do Apocalipse e da Utopia se
servem dos computadores para comprovar com números os factos e pressentimentos
de até agora. Isto tem o condão de impressionar os funcionários do Sistema, para
quem a linguagem do Número é sagrada e de cujo prestígio vivem, em grande parte,
seus negócios.
Num dos órgãos mais distintos da cerebração mundial - Selecções do Reader's
Digest, na sua edição em língua portuguesa de Abril de 1973 pode ler-se o artigo
onde John Maddox retoma o freio nos dentes para contra-atacar as profecias do
Apocalipse.
Os argumentos são conhecidos; em todo 0 caso, vale a pena analisá-los, trabalho
que permite uma retrospectiva útil do nosso trabalho, marcar o ponto em que se
encontra a resistência ao ecocídio e tomar o pulso aos porta-vozes mundiais da
Reacção, aos panglosses dos anos setenta.
Antes do famoso relatório do M. I. T., um senhor chamado Louis Pauwels causou
surpresa aos seus admiradores, proclamando um «optimismo» que, como todos os
optimismos sem consciência ecológica, sem noção da catástrofe, sem dimensão
abjeccionista, é uma razão mais, e a mais forte, para o pessimismo dos
resistentes, que em princípio não são nem uma nem outra coisa, nem optimistas
nem pessimistas.
Por muito que se acredite numa viragem de última hora, numa mutação brusca, é
desencorajante ver os que, como Louis Pauwels, John Maddox, Norman Borlaug,
Suvana Puma e alguns outros ilustres ideólogos, em nome do optimismo o que
apenas pretendem é deitar poeira nos olhos da humanidade e obrigá-la a manter,
como eles, o pescoço debaixo da areia, à espera que a tormenta passe.
Quem ilude, quem pretende iludir o povo e a humanidade não são os que,
conscientes do ecocídio, profetas do Apocalipse, construtores da utopia como
única alternativa para a catástrofe, cumprem o estrito dever de humanidade,
pensando.
Feita a síntese de factos, movimentos e fluxos contraditórios do nosso tempo, a
evidência manifesta-se aos olhos de todos. Delinquentes de delito comum contra a
humanidade são os que se voltam contra os profetas do novo Apocalipse, como faz
John Maddox no artigo já referido, com argumentos ainda por cima suspeitos, o
que só nos obriga a acreditar que o fazem não por exigência intelectual e de
coerência ideológica, não por disponibilidade e honestidade de carácter e por um
propósito crítico límpido, isento, mas obedecendo a inconfessáveis interesses.
Analisemos esta 1ª parte. Até que ponto e a quem servem os artigos como o do sr.
Maddox? Ricardo G. Zaldivar, na revista espanhola Triunfo ( 11 de Novembro de
1972 ) tentava provar ( e não serei eu a contestar a tese), todo apoiado em
números, que a campanha contra a poluição comandada pelo capitalismo vai
redundar a favor dos grandes monopólios e acelerar a tendência para a
concentração, visto que só os colossos da indústria estão aptos a investir em
antipoluentes. E visto que os fabricantes de antipoluentes são eles próprios,
através de sucursais, filiadas ou associadas, os maiores poluidores mundiais do
planeta.
É uma tese.
Porque surge então, em artigo de fundo dum órgão defensor de capitais como é o
Reader's Digest, um senhor John Maddox nada interessado em fazer o jogo dos
antipoluentes e do relatório do M. I. T. que é deles a cobertura
pseudocientífica, estatística, informática?
O artigo do Reader's Digest - eis a hipótese de trabalho que proponho - serve um
capitalismo (ainda) não monopolista, serve os milhares de empresas que não têm
dimensão, ainda, nem lucros para entrar na maratona dos antipoluentes, para
aceitar o desafio da concentração. Agrada, portanto, aos menos poderosos mas a
maior número deles.
À parte os argumentos anémicos de certa esquerda academizada, cuja esclerose se
irmana na necrose dos seus métodos e da sua problemática ( essa esquerda domina
ainda o panorama português da «crítica» à Ecologia), à parte os
franco-atiradores, demasiado líricos para poderem ser críticos e que, sem se
darem conta, alinham (por essa ausência crítica) na mesma
esclerose pseudo-esquerdizante (profundamente reaccionária), as únicas acusações
que aparecem no mercado contra as preocupações do ecologista, cifram-se nessa
guerra civil entre capitalismos: a pequena burguesia arrivista, liberalesca e do
médio capital não gosta quando lhe anunciam o apocalipse ecológico, a
catástrofe, o fim do ciclo e a explosiva madrugada da Utopia, mas os porta-vozes
ou ideólogos do grande capital, no fundo, também não, porque sabem que a
ecologia é problema bem mais duro de resolver do que as poluições e respectivos
slogans; simplesmente finge ignorar e procura recuperar, no que pode, a acção do
verdadeiro ecologista para servir os seus propósitos exclusivos de vendas de
antipoluentes ao mundo.
No fundo, necrose esquerdista, reacção direitista, ou ingenuidade, ignorância,
bluff lírico do centro, encontram-se todos num ponto: a recusa de radicalizar a
situação mundial em termos de utopia revolucionária. Unem-se todos no
reformismo: quer o dos antipoluentes, quer o reformismo que pura e simplesmente
recusa o facto ecológico e julga poder ir melhorando o mal.
A recusa a radicalizar o sistema é que os distingue ( optimistas e pessimistas
num molho só) dos que, nem optimistas nem pessimistas, são apenas lúcidos e
conscientes. Todos os reformistas preconizam, como o sr. Maddox, o mesmo tipo de
remendagem in extremis: «estes problemas» (refere-se Maddox à poluição, claro),
«são passíveis de solução, num futuro previsível, se forem gastos com eles tempo
e dinheiro suficientes.»
«O perigo», mastiga ainda Maddox - «é que o síndroma do Dia do Juízo provoque o
contrário das suas intenções. Em vez de nos alertar para os problemas, ele
dispersa a nossa atenção do trabalho que poderia ser realizado agora.»
O perigo que o sr. Maddox não diz mas em que está a pensar é que o síndroma do
juízo final radicalize as atitudes e os comportamentos, é que faça desencadear
uma greve geral ao sistema, é que os grupos minoritários deixem de ir ao
super-mercado e num relâmpago se tornem maioritários nessa atitude de irrespeito
básico contra a segurança do Sistema...
O perigo é que as alternativas ao totalitarismo do sistema abram, neste, brechas
insanáveis de contestação.
O perigo é que a civilização plural dê lugar ao monopólio da verdade única.
O perigo é que a qualidade da existência seja reivindicada e que o Sistema -
todo ele baseado no aviltamento quantitativo da existência humana - fique
denunciado e de tripas à mostra.
O perigo de radicalizar, de insistir no Apocalipse é, de facto, que as
indústrias fiquem um bocado às moscas porque as pessoas decidiram ir viver um
bocadinho a ver como era e gostaram e decidem abandonar as cidades e decidem
emigrar desses lugares comuns do suplício colectivista, ideais para concentrar a
repressão de toda a ordem e voltam às comunas rurais, à experiência do
individualismo comunitário, às soluções da variedade e da metamorfose, à
agricultura biológica porque a química matou os solos e ameaça matar-nos a
todos. Esse o perigo que o sr. Maddox teme e não explicita.
De notar em cientistas tão solenes é como rapidamente perdem a compostura e
entram no palavrão.
Ficou famosa a intervenção do sr. Borlaug, prémio Nobel da «Revolução» verde,
quando chamou histéricos aos defensores da Natureza e aos que defendem a
humanização do ambiente contra a histeria dos DDT. O sr. Maddox não é menos
delicado de gesto.
Referindo-se a Paul Ehrlich, considera-lhe a obra «The Population Bomb» uma
«retórico furiosa». Nem mais nem menos.
Aliás, os Ehrlich não deixam de servir também ao primeiro tipo de propaganda
(pró antipoluente e pró grande capital) a que aludi acima. São aliás os desta
facção - meia dúzia de guardas do mundo - os mais interessados no
neo-maltusianismo de que Ehrlich é expressão bastante conveniente. Para cada
General Motors ou cada ITT há sempre um Ehrlich de serviço.
Lisboa, Maio/1973
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado , com o pseudónimo de A. Mendes
Pereira, no livro «Os Últimos Dias da Terra», nº 2 da colecção Dossier Zero,
Editora Arcádia (Lisboa), Junho de 1973, data da tipografia