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AINDA O LIXO DA CÉLULA:
ATÉ QUANDO CATILINA?
14-Junho-2007
A notícia veio na revista «Nature» (um grande artigo), na Revista «Genome
Research» (28 artigos) e foi primeira página do jornal «Público» (14.Junho.2007)
com o título «Cientistas provam que o lixo do ADN é fundamental para a vida».
Refere-se, como todos sabem, à zona do ADN molecular que os biólogos oficiais
consideravam, até hoje, «lixo da célula» por não lhe conhecerem a função.
Agora conhecem um pouco melhor, já não consideram lixo (pelo que o jornal não
usa aspas) mas daí até o considerarem um segundo código genético ainda vão ser
necessários mais uns anos, quiçá uns séculos, para que mais 35 grupos de
investigadores de mais 80 instituições espalhadas pelo mundo cheguem a alguma
conclusão.
A questão do segundo código genético foi aqui levantada, como alguns ambionautas
talvez se lembrem, e escandalizou várias pessoas. Mas não o Pedro Martins
Barata, que investigou o caso.
+
De facto e tal como Pedro Martins Barata afirmou na Ambio, em 27 de Abril de
2007, «a teoria da segunda string de ADN é efectivamente uma teoria científica
comprovada e em discussão, embora em moldes completamente diferentes dos que se
encontram em sites esotéricos. Mais uma vez, uma consulta rápida à base Scirus
ou à Web of Knowledge confirma o mesmo.»
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Desta vez o assunto «lixo da célula» não foi encontrado em sites esotéricos,
mas, talvez ainda pior, é notícia de primeira página do jornal «Público», em
texto assinado por Ana Gerschenfeld, em 14 de Junho de 2007.
Está bem que a jornalista – especialista na área científica - se baseia na
revista «Nature» e em mais 28 artigos da revista «Genoma Research», mas não sei
até que ponto o Pedro Martins Barata dará crédito a estas duas revistas: a «Nature»
que é sempre a primeira a dar as últimas e a Genoma Research que, pelo andar da
carruagem e pela quantidade de artigos que publicou sobre o «lixo», deve ser o
porta-voz do célebre consórcio ENCODE , fabricado para comercializar o
mapeamento do Genoma (que parece ter terminado em Abril de 2003) e «para
compilar a lista de todos os elementos - não apenas genes – que dentro da
gigantesca molécula de ADN , possuíssem algum tipo de função biológica».
Mesmo assim – o ENCODE reune apenas 35 grupos de investigação de 80 instituições
espalhadas pelo Mundo – mesmo assim, digo, duvido que a notícia mereça algum
crédito ao Pedro Martins Barata. Já que foi veiculada por uma jornalista e por
um jornal.
Quiçá que seja mesmo e apenas um engano mais. E alguma coisa que nem sequer
exista como aconteceu com a investigação que o Pedro Martins Barata realizou
sobre o nome e a carreira de Etienne Guillé: dissera eu que fora Etienne o
descobridor, pelo menos há vinte anos, do segundo código genético (no tal «lixo
da célula»), para o qual lixo foram precisos agora 35 grupos de investigação de
80 instituições de todo o mundo.
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Pensando no aviso do José Amoreira – nunca falo de ambiente na Ambio e apenas do
meu ego – hesitei em mandar esta mensagem. Mas como o assunto é lixo e
devidamente avalizado por cientistas, penso que se poderá enquadrar, sem
escândalo, nesta lista de assuntos de Ambiente.
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Lendo o artigo, que a seguir retransmito para a Ambio, percebe-se que a grande
descoberta se resume a bem pouco: «nem tudo é lixo, afinal, nessa zona do ADN –
como até agora diziam os cientistas – mas o que é e para que serve continua um
grande, um imenso mistério. Lá vão precisar de mais 4 anos e de mais 35 grupos
de investigadores de 80 instituições mundiais para descobrir o que está
descoberto há um quarto de século. E que no tal lixo da célula esteja afinal a
segunda string a que aludia o Pedro Martins Barata, no dia 27 de Abril de 2007,
aqui na Ambio, iremos precisar mais outros tantos anos de outras tantos
cientistas de outras tantas instituições.
+
Esotéricos ou não esotéricos, seres humanos que apenas têm de gramar tudo isto,
a pergunta continuará a ser a mesma: por quantos anos ainda iremos ter de os
gramar sem sequer os poder mandar àquela parte?
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Sem mais comentários, a notícia do «Público», 14 de Junho de 2007:
««ESTUDO PÕE EM CAUSA VISÃO TRADICIONAL
PARTES DO ADN HUMANO QUE SE JULGAVAM ADORMECIDAS AFINAL ESTÃO ACTIVAS
14.06.2007 - 09h36
Por Ana Gerschenfeld
Quando, em Abril 2003, ficou concluída a leitura da totalidade do genoma humano,
os cientistas tinham perante os seus olhos um gigantesco livro de instruções
(com três mil milhões de "caracteres") para a construção do corpo dos homens e
das mulheres. Mas ainda estavam longe da meta: conseguir decifrar a língua em
que esse livro está escrito para perceber exactamente como é que as diversas
partes do corpo são fabricadas - e como, por vezes, as coisas correm mal, dando
origem a doenças.
A visão convencional do ADN é que ele contém cerca de 30 mil genes cuja
sequência serve para fabricar as proteínas, que são os tijolos de base das
células vivas. O resto - 98 por cento do património genético - era considerado
"lixo" desprovido de função biológica. Daí que os esforços dos geneticistas
tenham ido, em geral, no sentido de identificar e estudar exclusivamente os
genes que codificam proteínas, à procura das causas das doenças que assolam a
humanidade.
Contudo, tudo indicava que o "lixo" do ADN continha outros elementos importantes
para a construção do organismo - sem ir mais longe, elementos que regulavam a
expressão dos próprios genes. Foi por isso que, logo a seguir à sequenciação do
genoma, foi lançado um consórcio (ENCODE) com o objectivo de compilar pela
primeira vez a lista de todos os elementos - não apenas os genes - que, dentro
da gigantesca molécula de ADN, possuíssem algum tipo de função biológica.
Numa primeira fase, os 35 grupos de investigadores de 80 instituições espalhadas
pelo mundo que integram o consórcio - liderado pelos National Institute of
Health (NIH) norte-americanos -, decidiram olhar para apenas um por cento do
ADN, escolhendo cuidadosamente as partes que iriam analisar mais a fundo, para
testar estratégias que permitissem identificar outros elementos funcionais do
genoma. O objectivo pode parecer modesto, mas não é: a prova disso é que o
batalhão de cientistas envolvidos demorou quatro anos a completar o trabalho,
que hoje culmina com a publicação de um grande artigo na revista "Nature" e mais
28 "artigos companheiros" na revista "Genome Research".
Mais: as surpresas que o estudo desta pequena fracção do genoma já revelou
deixam vislumbrar que, para além de algumas respostas, irão sobretudo surgir
muitas novas perguntas, cuja resposta irá pôr em causa a visão convencional do
ADN.
Para já, há "a descoberta de que a esmagadora maioria do ADN no genoma humano é
transcrito para moléculas funcionais, chamadas ARN, e que estas transcrições
apresentam grandes zonas de sobreposição em relação umas as outras", explica um
comunicado dos NIH. Ou seja, grandes zonas que repetem as mesmas sequências
genéticas. "Os novos dados indicam que o genoma contém muito poucas sequências
inutilizadas", diz o mesmo documento. Porquê? Mistério. Mas o certo é que, de
uma penada, morre assim o conceito de "lixo" no ADN.
"Tornou-se claro", diz John Greally, do Einstein College of Medicine, num artigo
de comentário na "Nature", "que existe uma organização em grande escala do
genoma". O genoma não é apenas uma colecção de genes independentes, mas uma rede
complexa, dentro da qual os genes são apenas uma categoria de actores.
Os novos resultados poderão ter profundas implicações para a maneira como se
estuda a origem genética das doenças humanas. "Para perceber as causas das
doenças, temos de perceber qual é a função desta maioria de não-genes", diz
Greally.»»