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O UNIVERSO DOS "HIPPIES"
NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (*)


(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «O Século Ilustrado», 3/Abril/1971

3-4-1971

Dos Estados Unidos estão a chegar insistentes notícias de uma contra-cultura que, nascida há pouco mais de 4 anos, cresce e floresce sob a forma de comunas das mais diversas orientações e ideologias, à margem do Sistema, do Establishment, da Sociedade Produtiva.
L'Univers des Hippies (1) é um dos livros mais recentes que falam desse surto a que importa estar atento, ao menos para o criticar, e se não queremos ignorar um dos mais importantes movimentos humanos do pós-guerra.
Jean-Pierre Cartier e Mitsou Naslednikev escrevem essa reportagem através do universo "hippy" e concluem positivamente o seu balanço. Deslumbrados, sem dúvida, mas também compreensivelmente perturbados e até um pouco aterrorizados, com a extensão e importância do fenómeno. Embora a contra-cultura seja avessa a estatísticas, como os dois autores não se esquecem de sublinhar, eles, como representantes ainda da sociedade estabelecida da cultura vigente, deram-se ao trabalho de calcular entre várias centenas de milhar e dois milhões, nos Estados Unidos, os que pertencem hoje à grande comunidade das comunidades, aos gropúsculos de jovens dissidentes, de marginais e (auto-) marginais.
A imprensa “underground” ou «free press», documenta esse movimento de maneira brilhante. Edgar Morin, que viajou pela Califórnia a convite da Fundação Salk (um viveiro de prémios Nobel!), de Setembro de 1969 a Junho de 1970, anota, nessa imprensa, uma combinação de hippismo e de marxismo, «associação de termos que de ordinário se repelem», diz ele.
A propósito, Edgar Morin, o famoso sociologista e filósofo do aggiornamento entre culturas (pensador de uma antropolítica), propõe-se estudar este neo-tribalismo que, dentro do território norte-¬americano, está fazendo carreira pacífica ao lado das comunidades minoritárias de índios, porto-riquenhos ou negros. Só que, a contra-cultura juvenil é em sentido inverso ao dessas minorias: enquanto os índios, os negros e os porto-riquenhos reclamam o poder, a integração na sociedade de consumo que os segregou, e aspiram também aos benefícios da Tecnocracia e do Desenvolvimento, os jovens dissidentes despedem-se dessa abundância, fogem ao conforto dos lares burgueses, auto-segregam-se e desejam viver, tribalmente, como dantes, antes da colonização tecno-capitalista, viviam na sua cultura peculiar os índios americanos. Como eles eram, antes de o gringo chegar.
Os que se interessam por este curioso movimento de emancipação juvenil - a que alguns, pessimistas ou funcionários zelosos do Establishment, profetizam pouco tempo de vida - indicamos um dossiê muito documentado sobre o "underground press", na revista Le Nouveau Planète, nº 20, Janeiro de 1971, Estados Unidos, Inglaterra, França e URSS são os países aí estudados.
Cito ainda Edgar Morin, no seu «Journal de Californie»: "A free press é, em suma, o reflexo e o porta-voz deste movimento fervilhante, sem forma e de mil formas, que passa do psicadélico ao político, do sexual ao místico, que se procura na revolução quer social quer individual (ou ao mesmo tempo em uma e outra), que vai do «hippy» ao militante esquerdista dos campus.
São jornais (semanais, bi-mensais, mensais) que têm o seu circuito de distribuição próprio, além dos postos de venda normais. Há dois jornais free press em San Diego, creio que um pouco mais em Los Angeles e vários na baía de S. Francisco, dos quais Berkeley Tribe e Berkeley Barb.
«O aspecto teórico é, a meu ver", - sublinha Edgar Morin - "muito mais rico, no seu sincretismo indiscriminado, onde se misturam e justapõem elementos tirados diversamente da experiência psicadélica das grandes viagens interiores, das vulgatas extremo-orientais, da vulgata marxista e dos diferentes profetas que são Mac Luhan, Herbert Marcuse, Buckminster Fuller, William Burroughs, Timothy Leary, etc. (que são, não teóricos no sentido político-social do termo, nem pensadores no sentido universitário mas verdadeiros profetas de uma procura prospectiva). Há qualquer coisa em movimento, em procura, de cândido, de intuitivo, confundindo materialismo e misticismo, hedonismo e ascetismo, que me toca e interessa muito», acrescenta o autor.
Edgar Morin encontra na contra-cultura a ilustração quase perfeita de uma teoria que, um pouco a medo, foi congeminando sob a designação de “antropolítica”. Ele encontra aqui a grande síntese que, pela teoria dialéctica, outros se empenham a conseguir através da cultura e da sociedade estabelecidas. Mas há quem diga que tudo será reformismo dentro do Sistema. Só a contra-cultura aponta para a Revolução. A Revolução do Amor, como os "hippies" gostam de dizer, abrindo as portas a toda a Humanidade para a prevista Idade do Aquário. Enfim, profecias...

Nova Iorque, Los Angeles, S. Francisco, foram as cidades visitadas pelos dois repórteres franceses. Desde a concentração nos «ghettos» urbanos até à explosão nas comunas rurais, eles seguiram todas as metamorfoses da aventura "hippy": nova utopia, novo misticismo, novo romantismo.
Sobre a valorização do amor empreendida por esses jovens dissidentes, Edgar Morin comenta no seu «Journal de Californie»:
«Todo este maravilhoso apelo ao amor, à alegria, este anúncio messiânico do Aquário, tudo isto pode muito rapidamente azedar-se e virar puritanismo (ao qual o marxismo-leninismo assentará como uma luva) ou então dissolver-se numa prostituição frenética".
Para descobrir o que havia de verdade nestes iniciados da Nova Era - estamos entrando no Aquário, segundo informa a astrologia - os repórteres privaram com eles durante dois anos, de um extremo ao outro dos Estados Unidos, vivendo com toda a espécie de comunas: onde não se faz nada e onde só se tomam drogas; onde se passa o tempo a orar, a meditar, a jejuar; onde se cultiva a terra; onde se faz teatro, onde se compartilha a vida dos índios, onde se vive em casal a dois e onde se preferem os casamentos de grupo, vivendo e dormindo vinte ou trinta na mesma casa.
Os dois repórteres franceses entrevistaram Joan Baez na sua romântica fortaleza de Palo Alto e seguiram todos os caminhos da droga, abeirando-se de Timothy Leary, apóstolo do LSD assistindo a fantásticas experiências no domínio do real fantástico.
Viveram a aventura dos adolescentes que deixam as famílias para se internarem nas florestas «hippie». Andaram com todas as seitas, das mais satânicas às mais angelicais, encontraram os Swanis, os Gurus e outros mestres que levam uma parte crescente da juventude, ou os que, arrancando raízes, decidiram praticá-la vivendo fora das contradições do Sistema, da Tecnocracia, da Ordem.
Difícil aprendizagem em que todos estamos, sem querer, embarcados. E que Buda nos proteja, já agora.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «O Século Ilustrado», 3/Abril/1971
(1) L’Univers des Hippies, Ed. Fayard, Paris, 1970.
 

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Última modificação: 22/06/07