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O NARIZ

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♥♥♥♥♥

1-19 - <espaço-he> - quarta-feira, 19 de Outubro de 2005-> merge de 29 files realizado, por ordem de datas, com o texto integral do livro «espaço mortal», edição do autor, 1960, para publicação exclusiva no meu site «o escriba», onde prometo arquivar as minhas selected works, o que foi publicado e o que ficou inédito. Sob a rubrica genérica de «home editions» = he

♥♥♥♥♥

 

1-1 terça-feira, 14 de Janeiro de 2003 - <54-12-00-vp-em> <1954-b> - versos inéditos de afonso cautela – 1954 – anti-prosas = versículos

APANHEI

ESSE MINUTO

Dezembro de 1954

Apanhei esse minuto e fiquei com ele. Não quero discutir o direito de propriedade mas esse minuto de que me apoderei pertencia aos que o merecessem; e eu limitei-me a roubá-lo. Por isso mesmo tinha mais direita a ele, ou mesmo por não ter direito nenhum é que é meu, inviolado e seguro. Experimentei a ver o que dava mas dava apenas minuto, aquele, insubstituível e único. Como podia pertencer a outrem, esse que para nada servia e era a existência tapada do vazio? Quero-o, para mim, eternamente, esse minuto que é apenas minuto, que se não pode dilatar para além de si e de mim, que ficou preso à sua própria condição de não ter mais tempo e apenas um minuto, um minuto, um minuto... A brevidade a tomei nos braços e foi ela que tornei fecunda em horas e séculos com o meu desejo vazio de ser, num minuto, a eternização gratuita.

 

As teclas da máquina de escrever hão-de ditar o que vou escrever. E enquanto o coração delas bater - tac, tac, - eu tenho a certeza de que ainda há uma vida. Mas se pararem é sinal de uma hesitação e da palavra inspirada que não chegou a tempo. O tempo... Foi o que disse, agora, essa tecla e a sua música enlevou-me. Nunca a ouvira assim. Alguém a oleou, pois a sua voz nasce cristalina e diz, ritmadamente, coisas que desconheço. A máquina de escrever... mão de muitos dedos, cada qual com sua cara. E tanta cara na minha frente, que me miram e remiram e que inibem a pobre canção desigualada. Tac, tac, tac... Como é impossível à voz humana de dizer o bater esquemático que tem o coração duma máquina de escrever!

 

Armámos luta, a indolência e eu. A indolência porque lhe bastava ouvir-me e eu porque já não suporto sempre o mesmo pronome pessoal: eu, eu, eu... Queria coisa que se visse, uma rosa dos ventos com direcções infinitas e não uma palavra que já esgotou o que era. Mas uma rosa dos ventos eram espadas, atravessadas em cruz, um tinir de lâminas facetadas. E a indolência era amarela, dum amarelo doente. E a indolência não dava luta que merecesse a pena. Indolência e eu nos reconciliámos, para continuar o sono interrompido.

(In «Espaço Mortal»?)

+

1-1<55-04-26-em>= espaço mortal - versos talvez publicados em jornal

A CASA

Faro, 26/4/1955

O rosário parou nos dedos

e já ninguém pede a Deus por nós.

Tudo se apaga, a luz de uns olhos

que perderam e tacteiam a linha

de uma agulha, tudo se acaba,

pela casa toda só o relógio continua

a cumprir uma obrigação.

A tristeza senta-se nas cadeiras empoeiradas

e deixa marca de dedos sobre as mesas.

Um dia só, longo, indesfiável,

terço que fantasmas rezam,

brincando com os olhinhos de sol

que brincam, às corridas, no telhado.

Já não há contos de fadas

mas os contos de fadas acontecem

e enlaçam-nos suavemente.

As paredes de cal meditam nalguma coisa.

+

1-1<55-09-12-vp-em>= espaço mortal terça-feira, 14 de Janeiro de 2003

INDEFINIÇÃO

Faro, 12/9/1955

E os poetas cantam o mar

cantam o número de ondas que há no mar

perdem-se na conta e voltam atrás

sempre aos primórdios

porque no princípio era o Verbo

e o Verbo são eles

e o Verbo é Deus.

(In «Espaço Mortal» , pg.12)

+

1-1<55-12-02-vp-em> espaço mortal - anti-prosas - terça-feira, 14 de Janeiro de 2003

2-12-1955

A ponte estreita, a camioneta larga e o chofer a rogar pragas contra a Junta Autónoma das Estradas.

*

Raio de lua, raio de sol, raio de luz. Raio de vida

(In «Espaço Mortal», página?) ■

+

<58-07-01-em> versos publicados em «espaço mortal», pg. 69

[sábado, 4 de Dezembro de 2004: das coisinhas mais perfeitinhas que fiz]

NO ALENTEJO

1/7/1958

Percorre-lhe as artérias o sol do meio-dia e, de repente, o Alentejo, coração de motores, falha.

De braços estendidos o Alentejo espera : ave, história, torpor ou talvez nada.

Mas espera : espiga, luar, versos, zumbido ou estrume ou - quem sabe a voz de Deus ? - talvez nada.

Há centos de anos um gigante marcou, com passos impressos na lama fresca, a sorte de cada um.

E lá ficou, como a dor e os marcos novos das estradas.

Árvores doidas de esperar que as ceife o vento, árvores-fantasmas, lume e pensamento de Deus.

+

<58-07-06-EM > versos publicados em «espaço mortal», pgs 20 e 21

CRUSTÁCEO COM ELECTRICIDADE

Ferreira do Alentejo, 6/7/1958

Tenho uma carapaça

e quem me olha de fora

da carapaça não passa

não vê nada e vai-se embora,

não passa da carapaça

com língua dentro e de fora.

 

Tenho cara de caraça -

nasci com este defeito,

por mais trejeitos que faça

não me curvo, não me ajeito

a ter na cara a caraça

e a carapaça no peito.

Vou à caça, abriu a caça,

Pum, pum: irra! Tanta gente

Com olhos de carapaça.

Rapazes, abriu a caça,

soldados, ide pra frente,

com olhos de carapaça.

 

Vai na rua uma mordaça...

Ah ! tanto trapo e trapaça,

politico-rno-chalaça,

minha vida, minha graça,

meu amor, minha desgraça

movida a electricidade.

+

<58-07-08-em> versos publicados em «espaço mortal», pg. 48 - *****

ALMA DE NADA

Ferreira do Alentejo, 8/7/1958

Vai, água do mar,

como quem sente prender-se

um espinho de roseira

sem olhar.

Vai, noivo das espigas

e das madrugadas,

vai, espuma de prata e lume,

tens capacidade para alterar a morte

e às lâminas o gume,

vai, toalha e lenço

nos olhos mal abertos,

vai parar de susto o vento,

vai e muda a rota do silêncio,

no espaço onde a geometria perde as leis.

É no labor seguro e combatente

de uma teia

que a liberdade cria asas

e resiste.

+

<58-07-24-em> versos publicados em «espaço mortal», pg.47

ALTER EGO

Lisboa, 24/7/58

 

A nossa nave ao vento, amigo,

a nossa sorte ao leme,

quem não deve não teme

e eu estou contigo.

Desta janela, desta branca janela

onde a noite se senta de mansinho,

falo-te noite, falo-te amizade,

para não estar sozinho.

Da nossa esperança unida

aberta aos temporais,

do vértice da vida

reconhecemo-nos iguais.

+

<58-08-01-em> - versos publicados em «espaço mortal», pgs 28 e 29 *****

NOITE RECONSTITUÍDA

 

Ferreira do Alentejo, 1/8/58

Quando a mosca procura quarto mau sinal

e a noite nem sim nem não a noite

quando a bala se atira mau sinal da janela

a ver quem vai quem fica noctívago perfurante

nada remedeia come-se

aqui onde se come por mau hábito todos os dias

Procuro pensar na idade que tenho

já vou tendo idade de pensar nisso e a morte

a 3 passos o que é pena e vergonhoso

num rapaz já homem numa noite de verão

dos bicos dos pés à cabeça

Ninguém respondeu recapitulo a testa lírica

vulgarizada os regularmente anelídeos da fêmea

que se desconhecem no macho toda ela amizade

e sangue frio sangue suga sangue

ou o desgaste das pedras hoje há subsídios

e autorização para os suicídios

justiça de raiz é justiça falo respiro

nossa lei nosso estatuto

nosso constitucional modo de não ser

e de andar pedindo emprestado aos amigos

em vindo a noite perturbadas as pálpebras

perfumados os clavicórdios os moucos entalados

num nariz sem nariz

Camarada solar nosso único vistoso cimo sem nuvens

pisou-nos e pertencia por herança ao farol

o primeiro e a verdade que se tomou de muitas pernas

como um raio de lua.

+

<58-08-03-em> versos publicados em «espaço mortal», pgs 127, 128, 129 e 130

SÂNSCRITO

Ferreira do Alentejo, 3/8/58

«Todo o conhecimento intelectual é falso. Só a vida conhece a vida.»

ORÍGENES

Com os ceptros na água e um ditador imposto

ou que no erradio de uma vida incerta

morreu nos areais sem fim de um campo santo

com vida imortal de artéria aberta

 

Sou a noite que é feto e madrugada

a larga aba de palha de um chapéu solar

Em vindo a morte acolho-me entre a vida

e a vida de outra vida que criar

 

Ventos e suor e névoa da montanha

entre as incertas veredas do mistério

Companheiros de água com asas de cegonha

são cada vez mais sombra em cemitério

 

A vila adormeceu ninguém- lhe vai tocar

com o infusório dedo apodrecido

Varrem-se as nucas de um festim antigo

levam-se monstros marinhos a nadar

 

Ninguém as cartas do seu destino deita

de si ninguém mais sabe do que o limbo

ou que a santidade insatisfeita

ou o carácter consumido de um cachimbo

 

Nem pão na terra nem sal térreo ao mar

onde as formas se banham incompletas

Só o bico dos astros a mamar

nas fecundas de deus maternas tetas

Ó nua avena rural do meu solar

ó meu dúctil espanto de caverna antiga

ó banho túmido de bordel e luar

ó montanha cheia e sem cloaca

Vivo entre os altares da decadência

revivo ao lume vivo da floresta

levo comigo um ramo de consciência

e ao Olho alfandegário a mala aberta

Como na voz de galos irreais

afundam-se os meus dedos na manhã

escorre-me o cheiro da resina irmã

pelo corpo dos meus dedos principais

 

Estou faminto e como escuridão

moitas que o sol a jorros dessedente

Esta fome de areia fulva e pão

de que reis a herdei e de que mel descende

 

Entre o funeral dos dias e o passo destas botas

conheci o naufrágio em ritual de forca

e componho na pauta nota a nota

a sinfonia que é só de nome heróica

Desço acompanhado de três almas de santos

subo entre as esferas

componho um ramo de corpos imperfeitos

metade flores metade feras

Sou a vista ardente de um marinheiro louro

o pulso firme do leme que ele guia

e a espuma branca que amanhece em oiro

e o nascer na sua boca a luz do dia

 

Solitária cinza entre corcéis de fogo

navigabilidade hábil entre espinhos

fogos fátuos na noite de um mar morto

que é o labirinto interior destes caminhos

 

Suga-se a dor nas veias da mãe terra

informa-se a vigia de que a angústia é finda

Mas não há boca de amor que aceite a guerra

e rasos de água os olhos meus ainda

+

<58-08-16-em> - versos publicados em «espaço mortal», pgs 24 e 25

INDICATIVO PRESENTE

São Luís de Odemira, 1/12/1958

Cá vamos no funeral,

lentamente apodrecendo,

nos nossos túmulos de cal,

com dois olhos por janelas,

servem-se os ossos em pratos,

coze-se a carne em panelas

e se alguém não for feliz

aumentam-se-lhe os impostos.

Os santos com cara de homens

e os homens com ar de santos.

Cá vamos no funeral,

é preciso não ter alma,

é preciso não ter vícios,

é preciso ser normal

e tapar os orifícios.

Pode morrer-se de tédio,

com cheiro a mofo e a esturro,

não é tarde nem é cedo,

é preciso é não ter medo e abrir o caminho a murro.

 

Deixou de haver gravidade

por decreto siamês,

os escarros já não descem

à cara dos que os merecem,

as mulheres já não menstruam

regularmente por mês,

os escritores já não escrevem

ou escrevem para a gaveta

onde a censura não meta

o bedelho e a gazua

O funeral continua,

lentamente apodrecendo

cá vamos no funeral

do cemitério siamês.

Levem-me, levem-me o resto

mas levem-me, vivo ou morto,

e matem-me de uma vez.

Lentamente apodrecendo,

cá vamos no funeral

do cemitério siamês.

+

<58-11-20-em> versos publicados em «espaço mortal», pgs 38 e 39*****

OMNISCIÊNCIA

São Luís de Odemira, 20/11/1958

Soubéssemos nós onde afogar o tédio

e onde acabar de rojo

e como entrar de gatas

à noite num determinado lugar

Soubéssemos o que nos sobra para dividir

o que sonhamos sem dormir

a tranquilidade que nos foge

o túmido batráquio que se escapa

Soubéssemos nós de uma religião

não o que se destina aos homens

mas o que dos profetas foi ouvido

e conformado aos hábitos dos homens

Soubéssemos nós que o medo continua

a não surpreender nas camas os doentes

e as térmites que escavam até à solidão os ossos

ou à espera da noite a mastigar rumores

Soubéssemos nós não comer outros frutos

mais fáceis frutos de sub-reptação

desconhecer o reino

e como poderemos usá-lo

Soubéssemos nós a dilecta palavra que vence

e do labirinto sem regresso a única porta

a de um pombo branco assassinado

Soubéssemos nós a medida exacta

Soubéssemos nós a fé que nos queime

e que ilumine de vírus reais

a terra onde só a alguns é dado

respirar por pulmões naturais

Soubéssemos nós a fórmula ou salmo ou pregador

que propague a nossa fé a nossa exausta fé

que não contamina não infecta

e vive dos diários ventos de feição

Ah ! soubéssemos nós.

+

<58-11-20-em> versos publicados em «espaço mortal», pg 38

ARDE A NOSSA FÉ

São Luís de Odemira, 20/Novembro/1958

Arde a nossa fé exausta

e ainda é cedo

a madrugada espreita

os estrangeiros e o medo.

Há gente a mais

dorme estrangeiro

na tua pátria de origem

dorme até á vista.

*

São Luís de Odemira, 20/Novembro/58

(In Espaço Mortal, pg - pg 38)

Não nunca a alegria

que de mim parte e vai

a outros pertence.

De mim com dor nasce

sou unicamente quem a cria.

Não nunca a alegria.

+

<58-11-23-em> versos publicados em «espaço mortal», pg. 49

PAUSA LÍRICA (1)

 

São Luís de Odemira/Sines, 23/11/1958

Posso perder-te

e perder o teu rosto,

posso perder-te e à claridade

de me teres acordado

na minha noite de miséria.

Posso perder-te

porque fica a indistinta névoa

que me ficou de ti,

porque fica o teu rosto

que reconheceria entre milhares,

o teu perfil que nunca vira,

que nunca voltarei a ver,

porque o teu cabelo

o reconheceria entre mil cabelos,

posso perder-te

porque posso resignar-me

a perder-te.

+

<58-11-25-em> versos publicados em «espaço mortal», pg 26

AEROTÍADE

25/11/1958

Agora somos salvos feitos do sono salvador

somos feitos à imagem e semelhança dos senhores

do Senhor

agora somos soldados poetas aldrabões sub-gente

desta sociedade com gente a mais

somos feitos de guta-percha

(resistente ao minar das térmites)

sempre em pé sempre fixes sempre crus

estamos há muito tempo em forma de parafuso

que nos aperta as brácteas

e em forma de forca que enforca

em forma de moral

e nus

vamos ver numa grande tela branca

os grandes seios brancos

que mantêm abertos muitos olhos com o branco do olho

o preto o verde o cinzento o castanho

e outras cores de que é costume serem os olhos

e o pranto ser a cor falível dos olhos que olham

quando não estão fechados

e olham para dentro que é lugar seguro.

+

<58-11-25-em> - versos publicados em «espaço mortal», pgs. 12 e 13*****

NÃO, NADA, NUNCA

 

São Luís de Odemira, 25/11/1958

Nem um poço sem fundo

por nós dentro,

nem ser a diagonal de nada

e existir,

nem esta cabeça pesada,

nem esta vontade, que não cuspo

nem assoo,

de partir, nada me julga, assusta ou cansa,

nada me risca do quadro

onde estou escrito,

nem esta fome, nem este andar,

nem o eco do eco

do eco deste grito,

nenhum ramo, nenhum cheiro,

nenhuma sombra foi mais grata

ao viajante

do que a sombra da árvore

que hei-de querer

quando noutra vida for a vida

que nesta vida levei a vida inteira

a ser,

nem a morte que me arrefece

os dedos, de manhã,

nem os dedos frios

que me ajudam a estar morto

e a ser da morte a morte

ou uma forma irregular de aborto,

de nó que se não desata,

de pesadelo de que se não acorda,

de abcesso que não rebenta.

+

<58-11-28-em> versos publicados em «espaço mortal», pg.

RETRATO

São Luís de Odemira, 28/11/1958

 

Como gostei de ti foi de perfil dormindo

e era cedo para a noite que descia

cansado do trabalho cansado da vida

de lidar vi-te e sorrias.

Mas não

não eras tu a solução

que em ti escondias.

+

<58-11-30-em> versos publicados em «espaço mortal», pgs 36 e 37

MODO DE SER

São Luís de Odemira, 30/11/58

Ninguém o conhece mas alguns o procuram

poucos o procuraram ontem e muitos o hão-de procurar.

Não consta de nenhum exemplar teratológico

a linguagem e esqueleto existentes

sabe-se apenas que há-de vir que há-de nascer

Além dos poucos que dele falam

outros para não estarem calados

falam de uma para-existência

Sabe-se ainda que imita os homens de condição humilde

que ama os homens sem história e de incolor destino

que assimila facilmente os fácies e os dialectos regionais

tem irmãos que ama em silêncio

e ama o silêncio

Os quatro cantos das figuras quadradas interrogam-se

sobre se terá a sua forma ou a de um polígono qualquer

ou se no centro o atravessará um número obrigatório de apótemas e diagonais

sabendo como se sabe (e isso sabe-se)

que há uma explicação cartesiana

para tudo o que vibra

e uma teoria física o explicará.

Perto de mim assusta-se um pequeno pássaro

olha-me só pelo rumor que fiz de olhá-lo

O pássaro sabe como eu

que nada ambos sabemos

e no entanto sabe que o mistério

terá que desnudar-se antes de amanhã

só com o nosso tentar explicá-lo

descobri-lo abri-lo de mãos presas

Talvez este lugar venha a ser um dia

ponto de romagem internacional

onde agora é apenas uma curva boreal frustrada

e o nosso intenso desejo de olhá-la

A humanidade inteira o procura

dá-se-lhe em pensamento

e ela ou ele cresce oculto

vestido de todas as aparências

retráctil a todas as essências

Cresce a planta onde nunca pés humanos chegaram

cresce até o dia

em que a coincidência se faça

por encontro intuitivo de ser para ser.

+

<58-12-01-em> versos publicados em «espaço mortal», pgs. 24 e 25

OS CASTORES

 

São Luís de Odemira, 1/12/1958

Se não furam furassem

se não obram obrassem

nos olhos vidrados

de quem não quer ir

de quem não quer ver

engolir e ganir

com óculos escuros

do assim-assim

do parece mal

do vai-te matar

abram-se as páginas

venha a morfina

tragam os álcoois

o emblema a bandeira

a vontade o guindaste

a caminho do céu

com cara de santo

com sexo de anjinho

entre anjos e arcanjos

cultos e orando

de pele ao pescoço

muito carácter e civilidade

se o sémen perderam

é já da idade

arnica na ferida

um borrão na luz

parto sem dor

dor de barbela

Virgem Manuela

à minha espera

fora de casa

com muito dó

abri-me os braços

cheira-me a flores

sabe-me a puz

quando acabará

esta situação

por demais concreta ?

sabê-lo-á Jaspers

Jaspers foi poeta?

+

<58-12-01-em> - versos publicados em «espaço mortal», pg.18

O PÃO NOSSO DE CADA DIA

 

São Luís de Odemira, 1/12/1958

 

E quando muito católicos

muito fraternos da santa comunhão

os vemos nos jornais da manhã

e nos jornais da tarde voltamos a lê-los.

Quando falam de carácter

e em rodapé explicam o que é carácter

o que é ter carácter

comer e dar carácter.

Quando falam do fernando pessoa morto

para não falarem dos fernando pessoa vivos

quando lapidam um e delapidam outros

quando no cemitério crescem romãs de cabeceira

quando os que estão de bem

e na graça do senhor

já caducos vão avançando e ninguém os olha

e escrevem sonetos

e pintam bonecos

e britam chavecos

e chucham macacos.

Badalam crianças no sino do meu peito.

+

1-2<58-12-02-em> versos publicados em pgs 32, 33 e 34 - «espaço mortal»

IMPERATIVO CATEGÓRICO

2/12/1958

Enquanto a vida dura

antes que o céu desça

e os homens subam

dispensa os livros

as fórmulas as mentiras

enquanto não fores cinza

atira contra a morte a tua vida

vive como quem escreve

grama respira

não aspires a muito

não partas a cabeça

livra-te das leis

das sessões com nome de solenes

cura-te e anda em frente

porque derrubar sempre derruba

quem sente o que sente e o diz.

Matar não mates senão em legítima defesa

viver não vivas senão por legítimos ataques.

Atira contra a vida a tua vida

atira contra a morte a tua morte

não frites os miolos

com maiores culturas

delas te livre a sorte.

A cabeça só dói aos parvos com moral.

Realiza o bem

só quando não puderes

realizar o mal

desflora virgens

só quando não puderes o contrário

ou reciprocamente

como uma flor sem haste aguenta-te.

Deus te salvará que salvador é ele

dos aflitos

e à falta de alimentos

atira-te maná

quando não tiveres pão

lembra-te que já ganhaste o dia

aguentando com temperança

a fome.

E quando em vez de amor

te derem ou pedirem outra coisa

quando te doer grita

quando vires o caso mal parado e não vires a olho nu

diz que um olho é cego e és poeta

veste o outro de vidro e serás tu

Em terra de cegos

serás rei

com um olho

a mais dos habituais.

+

<58-12-03-em> - versos publicados em «espaço mortal», pgs 75 e 76 *****

CRÓNICA FAMILIAR

 

São Luís de Odemira, 3/12/1958

O rosário parou nos dedos

e já ninguém pede a Deus por nós.

Tudo se apaga, a luz de uns olhos

que perderam e tacteiam a linha

de uma agulha, tudo se acaba,

pela casa só o relógio continua a

cumprir uma obrigação. A tristeza

senta-se nas cadeiras empoeiradas

e deixa marca de dedos sobre as mesas.

Um dia só, longo, indesfiável,

terço que fantasmas rezam

brincando com os olhinhos de sol

que brincam, às escondidas, no telhado.

Já não há contos de fadas mas enlaçam-nos ainda suavemente.

As paredes de cal meditam nalguma coisa.

No meu quarto não dorme ninguém,

chia a água a ferver de uma cafeteira velha.

Correm ratos, ouço-os ou são passos na rua?

Ou é a chuva a cair lá fora ?

Ninguém anda a esta hora pelas ruas,

todos dormem, porque podem dormir.

No meu telhado há os passos de um gato

e nas outras casas há pessoas

que sonham sonhos verdadeiros.

Dói-me o corpo

porque estive mal deitado, sobre o coração.

Na rua não passa ninguém.

+

<58-12-03-EM>*****

[ de facto, estes versos ( Crónica familiar) pertencem ao file ¡!!!!!!! E portanto a 1958, não 66 : repetido ou não, vale 5 estrelas]]

CRÓNICA FAMILIAR

(páginas 75-76)

O rosário parou nos dedos

e já ninguém pede a deus por nós

Tudo se apaga

a luz de uns olhos

que perderam e tacteiam a linha

de uma agulha, tudo se acaba,

pela casa só o relógio continua a

cumprir uma obrigação

A tristeza

senta-se nas cadeiras empoeiradas

e deixa marca de dedos sobre as mesas.

Um dia só, longo, indesfiável,

terço que fantasmas rezam

brincando com os olhinhos de sol

que brincam às escondidas no telhado

Já não há contos de fadas

mas enlaçam-nos ainda suavemente.

As paredes de cal meditam nalguma coisa.

*

O tempo

essa gripe ou asma da alma

esse gato enroscado num sofá antigo

e debaixo do aparador

sujando com as patas as revistas já antigas

o tempo

o retrato na parede que me olha desconhecido

e tem a cor verde da morte

dos retratos de El Greco

o tempo

um arame de palavras

um jornal amarrotado onde há muitos crimes

títulos tinta rótulos triunfos

o tempo

esse desgaste lento de lugres

avançando a medo na noite

em vão avançando para um lugar

que não existe

O tempo.

+

<58-12-16-em> versos publicados em «espaço mortal», pgs. 30 e 31

MENÓQUENUS

São Luís, 16/12/1958

Fuzilem-me estou vivo

nu das maiores e pequenas vinganças

nu de raiva e de ciúmes

nu de ingratidões

nu de armas

nu de respostas

nu de remorsos nu de insultos.

Fuzilem-me assim

estou pronto

estou seguro

estou firme

no meu posto.

Já levei os pontapés regulamentares

já ensinei cantigas e obscenidades

já experimentei no corpo

as nódoas roxas que me sobraram da alma

já conheci a lei

e as sanções da lei

e a lei da lei

e a falta de lei da lei.

Estou vivo

não vão é dizer que me matei

não vão é desculpar-se com as hierarquias

as altas a desculparem-se com as baixas

as baixas a desculparem-se com as altas

não vão é dizer que colaborei

que morri camonianamente devagar

de fome e chatice.

Fuzilem-me com pulgas familiares

no refego dos mantos

na bainha das calças

na ponta dos cabelos

fuzilem-me com cuidado

com fúria

com amor

com vontade

sem vontade.

Estou vivo

não vão é dizer que me matei.

+

<59-05-16-em> - versos publicados no livro «espaço mortal», pg 11 -

SEXTO SENTIDO

Paço de Arcos,16/Maio/59

Somos nós o lixo da cidade ?

Por motivo de força maior, por motivos de segurança e negócio,

« que as pessoas têm quando são sociais e relacionadas»,

nem sempre está alguém que nos responda.

Não nos queixamos, não, diluímo-nos na cidade,

somos uma molécula deste corpo de água,

somos a nódoa, o escarro deste linho branco.

Fazemos por continuar sérios, membros da sociedade,

participantes no esforço comum, no bem comum

e, de certeza, na vala também comum.

Que diferença pode haver entre o princípio e o fim ?

Em nós tudo acaba e tudo recomeça.

A manhã, quase sempre nossa amiga, traz um lenço

para limpar as lágrimas ou o sangue de um joelho.

Foi irmos sozinhos, manhã dentro, nossa amiga,

foi irmos sem dar por nada que tudo secou.

Quantas palavras não continuam a arder nas casas vazias ?

Quem nos socorre hoje, aqui, esta manhã ?

P., 16/5/59

+

<59-10-25-vp-on> terça-feira, 14 de Janeiro de 2003

Lisboa, 25/10/1959

O meu coração parou à tua espera

(O Nariz, pg 17 )

*

Talvez as horas que dormimos a mais

sejam horas a menos no nosso sofrimento.

(O Nariz, pg 17 )

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<versículo2-vp-em> terça-feira, 14 de Janeiro de 2003

3 VERSÍCULOS

3 VERSÍCULOS DE QUE NÃO SEI A DATA MAS QUE DEVEM PERTENCER AO LIVRO «ESPAÇO MORTAL» DE QUE TAMBÉM NÃO SEI A PÁGINA

NÃO FORAM INSERIDOS EM «A ARTE DE BEM CAVALGAR TODA A SELA » < 1956-ABCTS-vp>

Vem, coração armado e livre ! Declara a guerra. Confundida a beleza com a liberdade, a doutrina é clara.

Vem, coração! É preciso partir urgentemente as armadilhas propostas à educação dos homens.

*

Longe das bocas de fogo, das bocas que bocejam, das bocas que amaldiçoam e golpeiam, das bocas que mordem e envenenam, das bocas dos vulcões, longe, há com certeza um mundo desigual deste.

*

Há quem passe fome de propósito para os novelistas terem a guita dos seus novelos o que, sendo uma fonte de inspiração, é simultaneamente uma fonte de receita.

*

Porque é que eu tenho ódio a homens com os pés iguais aos meus?

*

Um espinho rola pela neve e fere a neve. Um fio de sangue brota dos teus dedos. É o sangue no linho branco dos teus dedos. ■

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<versículo1-vp-em> terça-feira, 14 de Janeiro de 2003

OS FOTÓGRAFOS FOTOGRAFAM

Os fotógrafos fotografam. Para os outros é que a história é um automóvel em bom estado. Para eles, para o repórter, a questão não é tanto a das filosofias mas a da rapidez nos reflexos.

O universo assiste nesta altura ao lançamento de uma bola de quinhentos quilos destinada à translação terráquea. Os psicólogos estão confiantes no futuro.

Ora aí está uma coisa que é bonita: o futuro.

Quando os cavalos puxam , o cocheiro obedece.

*

A História , segundo os filólogos, acabará como começou: em fogo. Sempre ouvi dizer que o fogo purifica e nada mais a propósito do que a purificação deste meu (deste nosso) tão pecaminoso natural. Venha o fogo!

Mas o que dizeis vós, apóstolos da Esperança? Vós, cantores da épica cristã? Vós, autores de gramáticas para a escola primária?

No fundo, desejais como nós o sossego, o bem-estar, o não intervir. Que nos (vos) importa que a História dê dois berros e expluda? Que importa que os poderes se esmurrem pelo Poder?

Mas o que dizeis vós, catedráticos? Vós, os sábios? Os sábios? Os sábios? É – por Deus! – grave a vossa negligência. Cuidado com as correntes de ar. As tosses convulsas, apesar dos preventivos que usais. São particularmente perigosos neste períodos de transição.

(In «Espaço Mortal», página 122) ■♥♥♥♥♥

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Última modificação: 22/06/07