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CONTACTOS VERSOS AC-1 versos ac-2 versos ac-3 versos ac-4
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♥♥♥♥♥ 1-19 - <espaço-he> - quarta-feira, 19 de Outubro de 2005-> merge de 29 files realizado, por ordem de datas, com o texto integral do livro «espaço mortal», edição do autor, 1960, para publicação exclusiva no meu site «o escriba», onde prometo arquivar as minhas selected works, o que foi publicado e o que ficou inédito. Sob a rubrica genérica de «home editions» = he ♥♥♥♥♥
1-1 terça-feira, 14 de Janeiro de 2003 - <54-12-00-vp-em> <1954-b> - versos inéditos de afonso cautela – 1954 – anti-prosas = versículosAPANHEI ESSE MINUTO Dezembro de 1954 Apanhei esse minuto e fiquei com ele. Não quero discutir o direito de propriedade mas esse minuto de que me apoderei pertencia aos que o merecessem; e eu limitei-me a roubá-lo. Por isso mesmo tinha mais direita a ele, ou mesmo por não ter direito nenhum é que é meu, inviolado e seguro. Experimentei a ver o que dava mas dava apenas minuto, aquele, insubstituível e único. Como podia pertencer a outrem, esse que para nada servia e era a existência tapada do vazio? Quero-o, para mim, eternamente, esse minuto que é apenas minuto, que se não pode dilatar para além de si e de mim, que ficou preso à sua própria condição de não ter mais tempo e apenas um minuto, um minuto, um minuto... A brevidade a tomei nos braços e foi ela que tornei fecunda em horas e séculos com o meu desejo vazio de ser, num minuto, a eternização gratuita.
As teclas da máquina de escrever hão-de ditar o que vou escrever. E enquanto o coração delas bater - tac, tac, - eu tenho a certeza de que ainda há uma vida. Mas se pararem é sinal de uma hesitação e da palavra inspirada que não chegou a tempo. O tempo... Foi o que disse, agora, essa tecla e a sua música enlevou-me. Nunca a ouvira assim. Alguém a oleou, pois a sua voz nasce cristalina e diz, ritmadamente, coisas que desconheço. A máquina de escrever... mão de muitos dedos, cada qual com sua cara. E tanta cara na minha frente, que me miram e remiram e que inibem a pobre canção desigualada. Tac, tac, tac... Como é impossível à voz humana de dizer o bater esquemático que tem o coração duma máquina de escrever!
Armámos luta, a indolência e eu. A indolência porque lhe bastava ouvir-me e eu porque já não suporto sempre o mesmo pronome pessoal: eu, eu, eu... Queria coisa que se visse, uma rosa dos ventos com direcções infinitas e não uma palavra que já esgotou o que era. Mas uma rosa dos ventos eram espadas, atravessadas em cruz, um tinir de lâminas facetadas. E a indolência era amarela, dum amarelo doente. E a indolência não dava luta que merecesse a pena. Indolência e eu nos reconciliámos, para continuar o sono interrompido. (In «Espaço Mortal»?) + 1-1 <55-04-26-em>= espaço mortal - versos talvez publicados em jornalA CASA Faro, 26/4/1955 O rosário parou nos dedos e já ninguém pede a Deus por nós. Tudo se apaga, a luz de uns olhos que perderam e tacteiam a linha de uma agulha, tudo se acaba, pela casa toda só o relógio continua a cumprir uma obrigação. A tristeza senta-se nas cadeiras empoeiradas e deixa marca de dedos sobre as mesas. Um dia só, longo, indesfiável, terço que fantasmas rezam, brincando com os olhinhos de sol que brincam, às corridas, no telhado. Já não há contos de fadas mas os contos de fadas acontecem e enlaçam-nos suavemente. As paredes de cal meditam nalguma coisa. + 1-1 <55-09-12-vp-em>= espaço mortal terça-feira, 14 de Janeiro de 2003INDEFINIÇÃO Faro, 12/9/1955 E os poetas cantam o mar cantam o número de ondas que há no mar perdem-se na conta e voltam atrás sempre aos primórdios porque no princípio era o Verbo e o Verbo são eles e o Verbo é Deus. (In «Espaço Mortal» , pg.12) + 1-1 <55-12-02-vp-em> espaço mortal - anti-prosas - terça-feira, 14 de Janeiro de 20032-12-1955 A ponte estreita, a camioneta larga e o chofer a rogar pragas contra a Junta Autónoma das Estradas. * Raio de lua, raio de sol, raio de luz. Raio de vida (In «Espaço Mortal», página?) ■ + <58-07-01-em> versos publicados em «espaço mortal», pg. 69 [sábado, 4 de Dezembro de 2004: das coisinhas mais perfeitinhas que fiz] NO ALENTEJO 1/7/1958 Percorre-lhe as artérias o sol do meio-dia e, de repente, o Alentejo, coração de motores, falha. De braços estendidos o Alentejo espera : ave, história, torpor ou talvez nada. Mas espera : espiga, luar, versos, zumbido ou estrume ou - quem sabe a voz de Deus ? - talvez nada. Há centos de anos um gigante marcou, com passos impressos na lama fresca, a sorte de cada um. E lá ficou, como a dor e os marcos novos das estradas. Árvores doidas de esperar que as ceife o vento, árvores-fantasmas, lume e pensamento de Deus. + <58-07-06-EM > versos publicados em «espaço mortal», pgs 20 e 21 CRUSTÁCEO COM ELECTRICIDADE Ferreira do Alentejo, 6/7/1958 Tenho uma carapaça e quem me olha de fora da carapaça não passa não vê nada e vai-se embora, não passa da carapaça com língua dentro e de fora.
Tenho cara de caraça - nasci com este defeito, por mais trejeitos que faça não me curvo, não me ajeito a ter na cara a caraça e a carapaça no peito. Vou à caça, abriu a caça, Pum, pum: irra! Tanta gente Com olhos de carapaça. Rapazes, abriu a caça, soldados, ide pra frente, com olhos de carapaça.
Vai na rua uma mordaça... Ah ! tanto trapo e trapaça, politico-rno-chalaça, minha vida, minha graça, meu amor, minha desgraça movida a electricidade. + <58-07-08-em> versos publicados em «espaço mortal», pg. 48 - ***** ALMA DE NADA Ferreira do Alentejo, 8/7/1958 Vai, água do mar, como quem sente prender-se um espinho de roseira sem olhar. Vai, noivo das espigas e das madrugadas, vai, espuma de prata e lume, tens capacidade para alterar a morte e às lâminas o gume, vai, toalha e lenço nos olhos mal abertos, vai parar de susto o vento, vai e muda a rota do silêncio, no espaço onde a geometria perde as leis. É no labor seguro e combatente de uma teia que a liberdade cria asas e resiste. + <58-07-24-em> versos publicados em «espaço mortal», pg.47 ALTER EGO Lisboa, 24/7/58
A nossa nave ao vento, amigo, a nossa sorte ao leme, quem não deve não teme e eu estou contigo. Desta janela, desta branca janela onde a noite se senta de mansinho, falo-te noite, falo-te amizade, para não estar sozinho. Da nossa esperança unida aberta aos temporais, do vértice da vida reconhecemo-nos iguais. + <58-08-01-em> - versos publicados em «espaço mortal», pgs 28 e 29 ***** NOITE RECONSTITUÍDA
Ferreira do Alentejo, 1/8/58 Quando a mosca procura quarto mau sinal e a noite nem sim nem não a noite quando a bala se atira mau sinal da janela a ver quem vai quem fica noctívago perfurante nada remedeia come-se aqui onde se come por mau hábito todos os dias Procuro pensar na idade que tenho já vou tendo idade de pensar nisso e a morte a 3 passos o que é pena e vergonhoso num rapaz já homem numa noite de verão dos bicos dos pés à cabeça Ninguém respondeu recapitulo a testa lírica vulgarizada os regularmente anelídeos da fêmea que se desconhecem no macho toda ela amizade e sangue frio sangue suga sangue ou o desgaste das pedras hoje há subsídios e autorização para os suicídios justiça de raiz é justiça falo respiro nossa lei nosso estatuto nosso constitucional modo de não ser e de andar pedindo emprestado aos amigos em vindo a noite perturbadas as pálpebras perfumados os clavicórdios os moucos entalados num nariz sem nariz Camarada solar nosso único vistoso cimo sem nuvens pisou-nos e pertencia por herança ao farol o primeiro e a verdade que se tomou de muitas pernas como um raio de lua. + <58-08-03-em> versos publicados em «espaço mortal», pgs 127, 128, 129 e 130 SÂNSCRITO Ferreira do Alentejo, 3/8/58 «Todo o conhecimento intelectual é falso. Só a vida conhece a vida.» ORÍGENES Com os ceptros na água e um ditador imposto ou que no erradio de uma vida incerta morreu nos areais sem fim de um campo santo com vida imortal de artéria aberta
Sou a noite que é feto e madrugada a larga aba de palha de um chapéu solar Em vindo a morte acolho-me entre a vida e a vida de outra vida que criar
Ventos e suor e névoa da montanha entre as incertas veredas do mistério Companheiros de água com asas de cegonha são cada vez mais sombra em cemitério
A vila adormeceu ninguém- lhe vai tocar com o infusório dedo apodrecido Varrem-se as nucas de um festim antigo levam-se monstros marinhos a nadar
Ninguém as cartas do seu destino deita de si ninguém mais sabe do que o limbo ou que a santidade insatisfeita ou o carácter consumido de um cachimbo
Nem pão na terra nem sal térreo ao mar onde as formas se banham incompletas Só o bico dos astros a mamar nas fecundas de deus maternas tetas Ó nua avena rural do meu solar ó meu dúctil espanto de caverna antiga ó banho túmido de bordel e luar ó montanha cheia e sem cloaca Vivo entre os altares da decadência revivo ao lume vivo da floresta levo comigo um ramo de consciência e ao Olho alfandegário a mala aberta Como na voz de galos irreais afundam-se os meus dedos na manhã escorre-me o cheiro da resina irmã pelo corpo dos meus dedos principais
Estou faminto e como escuridão moitas que o sol a jorros dessedente Esta fome de areia fulva e pão de que reis a herdei e de que mel descende
Entre o funeral dos dias e o passo destas botas conheci o naufrágio em ritual de forca e componho na pauta nota a nota a sinfonia que é só de nome heróica Desço acompanhado de três almas de santos subo entre as esferas componho um ramo de corpos imperfeitos metade flores metade feras Sou a vista ardente de um marinheiro louro o pulso firme do leme que ele guia e a espuma branca que amanhece em oiro e o nascer na sua boca a luz do dia
Solitária cinza entre corcéis de fogo navigabilidade hábil entre espinhos fogos fátuos na noite de um mar morto que é o labirinto interior destes caminhos
Suga-se a dor nas veias da mãe terra informa-se a vigia de que a angústia é finda Mas não há boca de amor que aceite a guerra e rasos de água os olhos meus ainda + <58-08-16-em > - versos publicados em «espaço mortal», pgs 24 e 25INDICATIVO PRESENTE São Luís de Odemira, 1/12/1958 Cá vamos no funeral, lentamente apodrecendo, nos nossos túmulos de cal, com dois olhos por janelas, servem-se os ossos em pratos, coze-se a carne em panelas e se alguém não for feliz aumentam-se-lhe os impostos. Os santos com cara de homens e os homens com ar de santos. Cá vamos no funeral, é preciso não ter alma, é preciso não ter vícios, é preciso ser normal e tapar os orifícios. Pode morrer-se de tédio, com cheiro a mofo e a esturro, não é tarde nem é cedo, é preciso é não ter medo e abrir o caminho a murro.
Deixou de haver gravidade por decreto siamês, os escarros já não descem à cara dos que os merecem, as mulheres já não menstruam regularmente por mês, os escritores já não escrevem ou escrevem para a gaveta onde a censura não meta o bedelho e a gazua O funeral continua, lentamente apodrecendo cá vamos no funeral do cemitério siamês. Levem-me, levem-me o resto mas levem-me, vivo ou morto, e matem-me de uma vez. Lentamente apodrecendo, cá vamos no funeral do cemitério siamês. + <58-11-20-em> versos publicados em «espaço mortal», pgs 38 e 39***** OMNISCIÊNCIA São Luís de Odemira, 20/11/1958 Soubéssemos nós onde afogar o tédio e onde acabar de rojo e como entrar de gatas à noite num determinado lugar Soubéssemos o que nos sobra para dividir o que sonhamos sem dormir a tranquilidade que nos foge o túmido batráquio que se escapa Soubéssemos nós de uma religião não o que se destina aos homens mas o que dos profetas foi ouvido e conformado aos hábitos dos homens Soubéssemos nós que o medo continua a não surpreender nas camas os doentes e as térmites que escavam até à solidão os ossos ou à espera da noite a mastigar rumores Soubéssemos nós não comer outros frutos mais fáceis frutos de sub-reptação desconhecer o reino e como poderemos usá-lo Soubéssemos nós a dilecta palavra que vence e do labirinto sem regresso a única porta a de um pombo branco assassinado Soubéssemos nós a medida exacta Soubéssemos nós a fé que nos queime e que ilumine de vírus reais a terra onde só a alguns é dado respirar por pulmões naturais Soubéssemos nós a fórmula ou salmo ou pregador que propague a nossa fé a nossa exausta fé que não contamina não infecta e vive dos diários ventos de feição Ah ! soubéssemos nós. + <58-11-20-em> versos publicados em «espaço mortal», pg 38 ARDE A NOSSA FÉ São Luís de Odemira, 20/Novembro/1958 Arde a nossa fé exausta e ainda é cedo a madrugada espreita os estrangeiros e o medo. Há gente a mais dorme estrangeiro na tua pátria de origem dorme até á vista. * São Luís de Odemira, 20/Novembro/58 (In Espaço Mortal, pg - pg 38) Não nunca a alegria que de mim parte e vai a outros pertence. De mim com dor nasce sou unicamente quem a cria. Não nunca a alegria. + <58-11-23-em> versos publicados em «espaço mortal», pg. 49 PAUSA LÍRICA (1)
São Luís de Odemira/Sines, 23/11/1958 Posso perder-te e perder o teu rosto, posso perder-te e à claridade de me teres acordado na minha noite de miséria. Posso perder-te porque fica a indistinta névoa que me ficou de ti, porque fica o teu rosto que reconheceria entre milhares, o teu perfil que nunca vira, que nunca voltarei a ver, porque o teu cabelo o reconheceria entre mil cabelos, posso perder-te porque posso resignar-me a perder-te. + <58-11-25-em> versos publicados em «espaço mortal», pg 26 AEROTÍADE 25/11/1958 Agora somos salvos feitos do sono salvador somos feitos à imagem e semelhança dos senhores do Senhor agora somos soldados poetas aldrabões sub-gente desta sociedade com gente a mais somos feitos de guta-percha (resistente ao minar das térmites) sempre em pé sempre fixes sempre crus estamos há muito tempo em forma de parafuso que nos aperta as brácteas e em forma de forca que enforca em forma de moral e nus vamos ver numa grande tela branca os grandes seios brancos que mantêm abertos muitos olhos com o branco do olho o preto o verde o cinzento o castanho e outras cores de que é costume serem os olhos e o pranto ser a cor falível dos olhos que olham quando não estão fechados e olham para dentro que é lugar seguro. + <58-11-25-em> - versos publicados em «espaço mortal», pgs. 12 e 13***** NÃO, NADA, NUNCA
São Luís de Odemira, 25/11/1958 Nem um poço sem fundo por nós dentro, nem ser a diagonal de nada e existir, nem esta cabeça pesada, nem esta vontade, que não cuspo nem assoo, de partir, nada me julga, assusta ou cansa, nada me risca do quadro onde estou escrito, nem esta fome, nem este andar, nem o eco do eco do eco deste grito, nenhum ramo, nenhum cheiro, nenhuma sombra foi mais grata ao viajante do que a sombra da árvore que hei-de querer quando noutra vida for a vida que nesta vida levei a vida inteira a ser, nem a morte que me arrefece os dedos, de manhã, nem os dedos frios que me ajudam a estar morto e a ser da morte a morte ou uma forma irregular de aborto, de nó que se não desata, de pesadelo de que se não acorda, de abcesso que não rebenta. + <58-11-28-em> versos publicados em «espaço mortal», pg. RETRATO São Luís de Odemira, 28/11/1958
Como gostei de ti foi de perfil dormindo e era cedo para a noite que descia cansado do trabalho cansado da vida de lidar vi-te e sorrias. Mas não não eras tu a solução que em ti escondias. + <58-11-30-em> versos publicados em «espaço mortal», pgs 36 e 37 MODO DE SER São Luís de Odemira, 30/11/58 Ninguém o conhece mas alguns o procuram poucos o procuraram ontem e muitos o hão-de procurar. Não consta de nenhum exemplar teratológico a linguagem e esqueleto existentes sabe-se apenas que há-de vir que há-de nascer Além dos poucos que dele falam outros para não estarem calados falam de uma para-existência Sabe-se ainda que imita os homens de condição humilde que ama os homens sem história e de incolor destino que assimila facilmente os fácies e os dialectos regionais tem irmãos que ama em silêncio e ama o silêncio Os quatro cantos das figuras quadradas interrogam-se sobre se terá a sua forma ou a de um polígono qualquer ou se no centro o atravessará um número obrigatório de apótemas e diagonais sabendo como se sabe (e isso sabe-se) que há uma explicação cartesiana para tudo o que vibra e uma teoria física o explicará. Perto de mim assusta-se um pequeno pássaro olha-me só pelo rumor que fiz de olhá-lo O pássaro sabe como eu que nada ambos sabemos e no entanto sabe que o mistério terá que desnudar-se antes de amanhã só com o nosso tentar explicá-lo descobri-lo abri-lo de mãos presas Talvez este lugar venha a ser um dia ponto de romagem internacional onde agora é apenas uma curva boreal frustrada e o nosso intenso desejo de olhá-la A humanidade inteira o procura dá-se-lhe em pensamento e ela ou ele cresce oculto vestido de todas as aparências retráctil a todas as essências Cresce a planta onde nunca pés humanos chegaram cresce até o dia em que a coincidência se faça por encontro intuitivo de ser para ser. + <58-12-01-em> versos publicados em «espaço mortal», pgs. 24 e 25 OS CASTORES
São Luís de Odemira, 1/12/1958 Se não furam furassem se não obram obrassem nos olhos vidrados de quem não quer ir de quem não quer ver engolir e ganir com óculos escuros do assim-assim do parece mal do vai-te matar abram-se as páginas venha a morfina tragam os álcoois o emblema a bandeira a vontade o guindaste a caminho do céu com cara de santo com sexo de anjinho entre anjos e arcanjos cultos e orando de pele ao pescoço muito carácter e civilidade se o sémen perderam é já da idade arnica na ferida um borrão na luz parto sem dor dor de barbela Virgem Manuela à minha espera fora de casa com muito dó abri-me os braços cheira-me a flores sabe-me a puz quando acabará esta situação por demais concreta ? sabê-lo-á Jaspers Jaspers foi poeta? + <58-12-01-em> - versos publicados em «espaço mortal», pg.18 O PÃO NOSSO DE CADA DIA
São Luís de Odemira, 1/12/1958
E quando muito católicos muito fraternos da santa comunhão os vemos nos jornais da manhã e nos jornais da tarde voltamos a lê-los. Quando falam de carácter e em rodapé explicam o que é carácter o que é ter carácter comer e dar carácter. Quando falam do fernando pessoa morto para não falarem dos fernando pessoa vivos quando lapidam um e delapidam outros quando no cemitério crescem romãs de cabeceira quando os que estão de bem e na graça do senhor já caducos vão avançando e ninguém os olha e escrevem sonetos e pintam bonecos e britam chavecos e chucham macacos. Badalam crianças no sino do meu peito. + 1-2 <58-12-02-em> versos publicados em pgs 32, 33 e 34 - «espaço mortal»IMPERATIVO CATEGÓRICO 2/12/1958 Enquanto a vida dura antes que o céu desça e os homens subam dispensa os livros as fórmulas as mentiras enquanto não fores cinza atira contra a morte a tua vida vive como quem escreve grama respira não aspires a muito não partas a cabeça livra-te das leis das sessões com nome de solenes cura-te e anda em frente porque derrubar sempre derruba quem sente o que sente e o diz. Matar não mates senão em legítima defesa viver não vivas senão por legítimos ataques. Atira contra a vida a tua vida atira contra a morte a tua morte não frites os miolos com maiores culturas delas te livre a sorte. A cabeça só dói aos parvos com moral. Realiza o bem só quando não puderes realizar o mal desflora virgens só quando não puderes o contrário ou reciprocamente como uma flor sem haste aguenta-te. Deus te salvará que salvador é ele dos aflitos e à falta de alimentos atira-te maná quando não tiveres pão lembra-te que já ganhaste o dia aguentando com temperança a fome. E quando em vez de amor te derem ou pedirem outra coisa quando te doer grita quando vires o caso mal parado e não vires a olho nu diz que um olho é cego e és poeta veste o outro de vidro e serás tu Em terra de cegos serás rei com um olho a mais dos habituais. + <58-12-03-em> - versos publicados em «espaço mortal», pgs 75 e 76 ***** CRÓNICA FAMILIAR
São Luís de Odemira, 3/12/1958 O rosário parou nos dedos e já ninguém pede a Deus por nós. Tudo se apaga, a luz de uns olhos que perderam e tacteiam a linha de uma agulha, tudo se acaba, pela casa só o relógio continua a cumprir uma obrigação. A tristeza senta-se nas cadeiras empoeiradas e deixa marca de dedos sobre as mesas. Um dia só, longo, indesfiável, terço que fantasmas rezam brincando com os olhinhos de sol que brincam, às escondidas, no telhado. Já não há contos de fadas mas enlaçam-nos ainda suavemente. As paredes de cal meditam nalguma coisa. No meu quarto não dorme ninguém, chia a água a ferver de uma cafeteira velha. Correm ratos, ouço-os ou são passos na rua? Ou é a chuva a cair lá fora ? Ninguém anda a esta hora pelas ruas, todos dormem, porque podem dormir. No meu telhado há os passos de um gato e nas outras casas há pessoas que sonham sonhos verdadeiros. Dói-me o corpo porque estive mal deitado, sobre o coração. Na rua não passa ninguém. + <58-12-03-EM>***** [ de facto, estes versos ( Crónica familiar) pertencem ao file ¡!!!!!!! E portanto a 1958, não 66 : repetido ou não, vale 5 estrelas]] CRÓNICA FAMILIAR (páginas 75-76) O rosário parou nos dedos e já ninguém pede a deus por nós Tudo se apaga a luz de uns olhos que perderam e tacteiam a linha de uma agulha, tudo se acaba, pela casa só o relógio continua a cumprir uma obrigação A tristeza senta-se nas cadeiras empoeiradas e deixa marca de dedos sobre as mesas. Um dia só, longo, indesfiável, terço que fantasmas rezam brincando com os olhinhos de sol que brincam às escondidas no telhado Já não há contos de fadas mas enlaçam-nos ainda suavemente. As paredes de cal meditam nalguma coisa. * O tempo essa gripe ou asma da alma esse gato enroscado num sofá antigo e debaixo do aparador sujando com as patas as revistas já antigas o tempo o retrato na parede que me olha desconhecido e tem a cor verde da morte dos retratos de El Greco o tempo um arame de palavras um jornal amarrotado onde há muitos crimes títulos tinta rótulos triunfos o tempo esse desgaste lento de lugres avançando a medo na noite em vão avançando para um lugar que não existe O tempo. + <58-12-16-em> versos publicados em «espaço mortal», pgs. 30 e 31 MENÓQUENUS São Luís, 16/12/1958 Fuzilem-me estou vivo nu das maiores e pequenas vinganças nu de raiva e de ciúmes nu de ingratidões nu de armas nu de respostas nu de remorsos nu de insultos. Fuzilem-me assim estou pronto estou seguro estou firme no meu posto. Já levei os pontapés regulamentares já ensinei cantigas e obscenidades já experimentei no corpo as nódoas roxas que me sobraram da alma já conheci a lei e as sanções da lei e a lei da lei e a falta de lei da lei. Estou vivo não vão é dizer que me matei não vão é desculpar-se com as hierarquias as altas a desculparem-se com as baixas as baixas a desculparem-se com as altas não vão é dizer que colaborei que morri camonianamente devagar de fome e chatice. Fuzilem-me com pulgas familiares no refego dos mantos na bainha das calças na ponta dos cabelos fuzilem-me com cuidado com fúria com amor com vontade sem vontade. Estou vivo não vão é dizer que me matei. + <59-05-16-em> - versos publicados no livro «espaço mortal», pg 11 - SEXTO SENTIDO Paço de Arcos,16/Maio/59 Somos nós o lixo da cidade ? Por motivo de força maior, por motivos de segurança e negócio, « que as pessoas têm quando são sociais e relacionadas», nem sempre está alguém que nos responda. Não nos queixamos, não, diluímo-nos na cidade, somos uma molécula deste corpo de água, somos a nódoa, o escarro deste linho branco. Fazemos por continuar sérios, membros da sociedade, participantes no esforço comum, no bem comum e, de certeza, na vala também comum. Que diferença pode haver entre o princípio e o fim ? Em nós tudo acaba e tudo recomeça. A manhã, quase sempre nossa amiga, traz um lenço para limpar as lágrimas ou o sangue de um joelho. Foi irmos sozinhos, manhã dentro, nossa amiga, foi irmos sem dar por nada que tudo secou. Quantas palavras não continuam a arder nas casas vazias ? Quem nos socorre hoje, aqui, esta manhã ? P., 16/5/59 + <59-10-25-vp-on> terça-feira, 14 de Janeiro de 2003 Lisboa, 25/10/1959 O meu coração parou à tua espera (O Nariz, pg 17 ) * Talvez as horas que dormimos a mais sejam horas a menos no nosso sofrimento. (O Nariz, pg 17 ) + <versículo2-vp-em> terça-feira, 14 de Janeiro de 2003 3 VERSÍCULOS 3 VERSÍCULOS DE QUE NÃO SEI A DATA MAS QUE DEVEM PERTENCER AO LIVRO «ESPAÇO MORTAL» DE QUE TAMBÉM NÃO SEI A PÁGINA NÃO FORAM INSERIDOS EM «A ARTE DE BEM CAVALGAR TODA A SELA » < 1956-ABCTS-vp> Vem, coração armado e livre ! Declara a guerra. Confundida a beleza com a liberdade, a doutrina é clara. Vem, coração! É preciso partir urgentemente as armadilhas propostas à educação dos homens. * Longe das bocas de fogo, das bocas que bocejam, das bocas que amaldiçoam e golpeiam, das bocas que mordem e envenenam, das bocas dos vulcões, longe, há com certeza um mundo desigual deste. * Há quem passe fome de propósito para os novelistas terem a guita dos seus novelos o que, sendo uma fonte de inspiração, é simultaneamente uma fonte de receita. * Porque é que eu tenho ódio a homens com os pés iguais aos meus? * Um espinho rola pela neve e fere a neve. Um fio de sangue brota dos teus dedos. É o sangue no linho branco dos teus dedos. ■ + <versículo1-vp-em> terça-feira, 14 de Janeiro de 2003 OS FOTÓGRAFOS FOTOGRAFAM Os fotógrafos fotografam. Para os outros é que a história é um automóvel em bom estado. Para eles, para o repórter, a questão não é tanto a das filosofias mas a da rapidez nos reflexos. O universo assiste nesta altura ao lançamento de uma bola de quinhentos quilos destinada à translação terráquea. Os psicólogos estão confiantes no futuro. Ora aí está uma coisa que é bonita: o futuro. Quando os cavalos puxam , o cocheiro obedece. * A História , segundo os filólogos, acabará como começou: em fogo. Sempre ouvi dizer que o fogo purifica e nada mais a propósito do que a purificação deste meu (deste nosso) tão pecaminoso natural. Venha o fogo! Mas o que dizeis vós, apóstolos da Esperança? Vós, cantores da épica cristã? Vós, autores de gramáticas para a escola primária? No fundo, desejais como nós o sossego, o bem-estar, o não intervir. Que nos (vos) importa que a História dê dois berros e expluda? Que importa que os poderes se esmurrem pelo Poder? Mas o que dizeis vós, catedráticos? Vós, os sábios? Os sábios? Os sábios? É – por Deus! – grave a vossa negligência. Cuidado com as correntes de ar. As tosses convulsas, apesar dos preventivos que usais. São particularmente perigosos neste períodos de transição. (In «Espaço Mortal», página 122) ■♥♥♥♥♥ |
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