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31-3-1991
MECENATO PRÓ-AMBIENTALISTA
CAPITALISTAS VERDES ESTÃO A CHEGAR(1)
(1) http://pwp.netcabo.pt/big-bang/oescriba/diluvio-1-11.htm
Os «capitalistas verdes» estão a chegar até nós, trazidos pela mão do britânico
John Elkington (*), mas também, como é natural e fisiológico, atraídos pelo
cheiro da poluição.
Como dizia, profeticamente, um nosso efémero ministro, Eng. Nobre da Costa, o
cheiro a celuloses, por exemplo, é o cheiro a dinheiro, de que as populações
tanto gostam, até porque significa «postos de trabalho». Mas como já no
princípio da década de 70 fora profetizado por Michel Bosquet/André Gorz (um
fundamentalista do ecologismo político que trabalhou muitos anos em «Le Nouvel
Observateur», quando este ainda era genuinamente pró-socialista), a antipoluição
seria a indústria do século XXI, e, para que ela prosperasse, nada melhor do que
poluir cada vez mais e melhor. Por cada maré negra no Golfo, uma nova indústria
nasce e prospera no horizonte.
Tudo tem sido feito, portanto, nesse sentido, durante estas duas décadas, com
particular carinho e atenção, pelas respectivas indústrias que se preparam para
a grande reconversão do próximo milénio. Negócio a que os fundamentalistas da
ecologia chamam perversão. Ainda o último número da renovada revista «Scala»,
que traduz, em língua portuguesa, as notícias da Alemanha agora unificada,
dedicava várias páginas coloridas ao tema: «A Ecologia pode dar lucros» era o
título. E embora isto já se soubesse desde 1969, quando o mensário «Le Monde
Diplomatique» dedicou à poluição um número em exclusivo, vinte anos bastaram
para que se passasse da teoria à prática. E só os puristas do realismo ecológico
-- uma espécie em vias de extinção -- acham perverso que sejam hoje os maiores
poluidores aqueles que mais fortemente estão apostando não só nas indústrias
despoluentes -- onde ganham por dois carrinhos -- mas, até, nas próprias
energias infinitas e limpas como é o caso da energia solar, na qual uma famosa
multinacional petrolífera(óbvio) tem investido grandemente. Não vejo onde esteja
nisto qualquer perversão, antes pelo contrário: a lógica do lucro é a lógica
capaz de desafiar todas as lógicas aristotélicas do mundo.
WELCOME JOHN ELKINGTON
http://pwp.netcabo.pt/big-bang/oescriba/elkingt.htm
Justifica-se, portanto, o livro do inglês John Elkington, cuja primeira edição
apareceu em Londres, em 1987. Graças ao Círculo de Leitores e à sua preciosa
colecção em defesa do ambiente, temos agora em língua portuguesa, com revisão
técnica do Dr. Nuno Galopim, o panorama completo sobre o que a grande indústria
está a realizar, neste momento, em todo o lado onde há progresso (quer dizer,
poluição) para defender o ambiente e preservar as espécies.
Abespinham-se os radicais livres, os fundamentalistas do ecoanarquismo e do
ecocomunismo, hoje defuntos, com esta recuperação que a indústria faz de si
própria e de que a expressão «produtos de substituição» passasse a ser palavra
de ordem e motor do neocapitalismo galopante. Chamam perversidade ao mecenato
cultural e próambientalista. Repare-se, por exemplo, que os cientistas só
descobriram o buraco do ozono na estratosfera, quando a senhora Thatcher
declarou urbi et orbi que a indústria já estava preparada para lançar o produto
de substituição dos célebres clorofluorcarbonetos.
Uma empresa com um olho no presente e outro no futuro tem agora uma forma
estupenda de melhorar a imagem de marca através dos produtos «verdes» que lançar
ou apoiar, solucionando o grande problema que pode eventualmente ser a saturação
do mercado com determinada linha de produtos. Que melhor pretexto para a
reconversão do que a defesa do ambiente? Uma grande multinacional de
computadores, por exemplo, lançou milhares de monitores com écrãs prejudiciais
às grávidas. Anos após, estava lançando uma nova linha de ordenadores sob o
grito de guerra «estes ecrãs não afectam grávidas», seja de que sexo forem.
E vai daí?
Isto que já foi entendido a nível do neocapitalismo vicejante, esperemos que o
seja também entre nós, onde a social-democracia, enquanto ideologia reformista
do ambiente, continua a deixar o lugar vago para quem o quiser ocupar (atenção
PPM). Toda a gente sabe que a social-democracia foi, exactamente, a política
inventada para salvar in extremis o capitalismo, propincuando a sua reconversão
pacífica através do proteccionismo ambientalista e de uns alegados direitos
ecológicos do consumidor. Assim fez, profeta que foi, o primeiro-ministro Sá
Carneiro. Carlos Pimenta creio que é agora, entre os vivos, o único a
compreendê-lo, mas ficou sózinho e abandonado, no Parlamento europeu, lutando
contra os moinhos de vento das hormonas no gado, sem que ninguém, em Lisboa, lhe
pegasse nas hormonas que, está bem de ver, incutem à política uma inesperada
fertilidade.
Lendo agora, no livro de John Elkington, os magníficos exemplos de mecenato
pró-ambientalista em que as empresas estão a apostar, nomeadamente se entraram
em período de recessão, é provável que se comecem a abrir os olhos socialistas
dos sociais-democratas e os olhos sociais- democratas dos socialistas, em
matéria de ambiente. Acordem, rapazes. A madrugada já vai alta por essa Europa
fora.
Quem irá empalmar o movimento ecológico, perguntava em 1976 um franco-atirador
do dito.
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(*) John Elkington e Tom Burke -- «Os Capitalistas Verdes» -- Ed. Círculo de
Leitores
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