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AMBIENTE: O QUE É E O QUE NÃO É MODA

Voltando à matéria da revista «Pública», em 1 de Julho de 2007, com os artigos de Clara Barata e Joana Amaral Cardoso, é o momento de passar em revista a segunda alínea da questão proposta: será o Ambiente uma moda?
No 1º episódio, tentei opinar que sim, que é uma moda e aleguei razões de fundo.
O que não é moda, porém, e tal como então argumentei, é a ideia ecológica que vem desde o princípio do mundo e tem passado por várias vicissitudes, desde a idade de Ouro da Humanidade (MU e depois Atlântida) em que integrava a consciência de culturas superiores como a egípcia, a maya e a taoísta.
Claro: é preciso repetir que a ideia ecológica tem que ver com o padrão cultural e portanto com a ideia de civilização.
Relativamente a esta ideia ecológica – de ontem, de hoje e de sempre – a civilização ocidental, antes de mais nada, terá de usar aspas, já que não se pode chamar civilização à Abjecção contemporânea e seus mais próximos antecedentes.
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Viriato Soromenho Marques à revista «Pública» (1 de Julho de 2007) considera que o interesse pelas questões ambientais é cíclico e que desde 1962 já se registaram quatro ciclos:
«O primeiro, em 1962, iniciou-se com o livro «Primavera Silenciosa» (...) Seguiu-se-lhe um contraciclo, de 1973 a 1983, que coincidiu com o choque petrolífero, em que a economia tinha mais valor na sociedade do que a defesa ambiental. Em 1983 Os Verdes entraram no Parlamento Alemão e inicia-se novo período de alta dos valores ambientais, até1997, quando foi assinado o Protocolo de Quioto.»
É uma maneira de entender o ambientalismo mas, julgo, não tem muito ou nada a ver com a ideia ecológica ou consciência ecológica de fundo: essa foi alimentada, desde o movimento anti-nuclear, pelos eco-alternativistas e depois tem vindo gradualmente a ser omitida, ignorada, subliminarmente combatida, não pelos tecnocratas puros e duros – como aconteceu nos anos 70 – mas por estes recuperada sob a forma de «sustentabilidade» ou «desenvolvimento sustentável»: a utopia ecológica não morreu, está apenas recolhida em meditação à espera do momento próprio para eclodir.
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O Maio 1968 e a contestação estudantil é uma data de referência, a partir da qual se podem considerar três fases:
a) 1968-1973, o ano da guerra do Kipur (a guerra dos 7 dias) a que também se chama erradamente «crise petrolífera» e/ou «choque petrolífero»:
b) 1973-1989 - os tempos heróicos dos movimentos ecologista, eco-anarquista e antinuclear, e que foram também os anos bombásticos da Guerra Fria e da famosa e famigerada «coexistência pacífica» ;
c) 1989-2007- Com a queda do muro de Berlim (em 9 de Novembro de 1989) e o fim (?) da Guerra Fria poderá considerar-se uma terceira fase de grande sincretismo, mimetismo e confusão de narizes, com travestis por todo o lado, verdes e verdismos, e que ainda se encontra sob análise na mesa de observações.
Se o senhor Al Gore e o Óscar que deram ao seu filme – 2007 - pode ser uma referência, mediaticamente útil, para uma nova quarta fase, a verdade é que ele vinha preparando o salto desde há 20 anos, como assinala a revista «Pública» no artigo de Clara Barata que venho comentando.
O que eu quero dizer é que há duas formas de entender a palavra Ambiente e a política de Ambiente:
1.O ambientalismo, cuja data de referência não é Quioto mas Estocolmo 1972 (ainda o Viriato não era nascido)
2.A ideia ecológica, a que se pode chamar ecologismo, eco-realismo ou realismo ecológico, igual a utopia ecológica;
A principal e conveniente confusão reside precisamente em misturar as duas e agitar antes de usar.
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No terreno e evocando ecos da nossa capoeira doméstica, naquilo a que chamo a fase heróica das movimentações ecologistas, para todos os partidos éramos obscurantistas, alarmistas e, claro, fascistas, porque Hitler defendera princípios de higiene e limpeza ambiental e ...racial (!!!).
Com a entrada em cena do Partido «Os Verdes» passámos a ser apenas alarmistas e cépticos dos «amanhãs que cantam».
Os anos de guerra fria (até 1989) foram assim de zig-zag:
Ora vinham os filósofos da corte, mais ou menos marxizantes, como Edgar Morin, Henri Lefèbvre, Herbert Marcuse, Bertrand Russell, Roger Garaudy, a dizer que sim senhor, éramos uns gajos porreiros;
Ora vinham outros a dizer que, sim senhor, estes gajos têm razão mas a verdade é que a tecnologia está muito avançada e tudo poderá resolver e, portanto, vamos lá poluir e destruir, que a tecnologia um dia limpará tudo isso. (Os chamados resíduos perigosos, por exemplo, ainda andam com eles ao colo).
Ora vinha um senhor Sicco Mansholt a defender que se acabasse com tudo o que era pequeno agricultor (e quase acabaram);
Ora começava a dar-se nas escolas maneiras de bom comportamento ambiental;
Ora tínhamos à cabeceira para nos dar alento «companheiros de jornada» como Josué de Castro, E.F. Schumacher, Raquel Carson, Ivan Illich, Michel Bosquet, Michio Kushi e, já nos anos 90, Etienne Guillé.
Simpatizantes da causa não faltavam: José de Almeida Fernandes, Prof. Gomes Guerreiro, Prof. Delgado Domingos, R. Ribeiro Teles.
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Por outro lado, os economistas, na altura, ainda não tinham descoberto as indústrias verdes (o livro de Elkington também ainda não saíra) e estavam mais interessados nas indústria pesadas e no crescimento industrial acelerado a todo e qualquer preço (morresse quem morresse) .
De um lado da esfera terrestre, os lucros tout d’abord;
Do outro lado da esfera, o Estado tout d’Abord .
Para o caso tanto fazia: Russos e norte-americanos disputavam-se em várias frentes (ou fingiam que sim) mas a nível espacial, por exemplo, era a convivência pacífica ou coexistência pacífica e o que gastavam em combustível (ainda não havia CO2 e aquecimento global) dava para alimentar, durante décadas, os esfomeados da terra (a propósito de esfomeados, houve um marginal, Franz Fanon, que lhes escreveu o Manifesto com um nome: «Os Condenados da Terra»).
Como ainda não havia CO2, as centrais nucleares, depois de instaladas, ficaram praticamente indestrutíveis como praticamente indestrutíveis são os resíduos.
O Plutónio, subproduto das ditas, anda a navegar em cargueiros bastante seguros que atravessam os oceanos de antípoda a antípoda.
Uma bola de plutónio – dizem-me e eu acredito – com a dimensão de uma laranja dava para envenenar toda a vida marinha.
A propósito de vida marinha, a moda dos petroleiros gigantes que se partem ao meio parece não ter passado.
O «Prestige» ainda está na memória e nas praias dos galegos, os outros «Prestige» já foram esquecidos, as baleias é que de vez em quando dão à costa em manifestações de «suicídio colectivo» como dizem os especialistas.
Uma das invariáveis desta «civilização» entre aspas é que esquece rapidamente o que não lhe convém: e não é por mal, coitada. De amnésias parciais me queixo eu e é da idade.

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Última modificação: 22/06/07