<durand> notas de leitura
METAMORFOSES DO REAL IMAGINÁRIO
TRATADO LÓGICO DO ILÓGICO

17/9/1990 - Com «As Estruturas Antropológicas do Imaginário», cuja primeira
edição aparece em Paris, no ano de 1960, Gilbert Durand escreve não só o
manifesto da criação poética para todos os tempos e lugares, como estabelece a
rampa de lançamento para toda a futura análise do fenómeno criativo, seja qual
for o campo semântico em que aconteça, o tempo da história e o lugar da terra
onde se pratique.
O que se julgava impossível, a ciência da excepção e do único, a lógica do
ilógico, o racional do irracional, realiza-o Durand neste tratado do imaginário,
contributo definitivo e exaustivo a tudo o que se tenha dito ou venha a dizer
sobre o fenómeno da imagem e da imaginação, o mais universal de todos os
fenómenos culturais. Impossível ir mais longe, na pesquisa e recolha de dados,
no número gigantesco de exemplos concretos com que se ilustram as ideias gerais,
os símbolos, os arquétipos, as alegorias, enfim, tudo aquilo que a ciência acaba
por designar como «estruturas» que aparentemente regem o fenómeno humano, tais
como as leis físicas regem o mundo dito, por antinomia, material.
CORRESPONDÊNCIAS MÁGICAS
A riqueza torrencial de formas e correspondências mágicas que, de um lado ao
outro da Terra, de um ponto ao outro do tempo, nos é dado pelo discurso
«oceânico» de Gilbert Durand, coloca-nos, entre outras (entre muitas, muitas
outras) esta questão: perante uma tão avassaladora quermesse de «imagens» e
«símbolos», que a humanidade criou, recriou, acumulou, repetiu, reproduziu, em
lugares geográfica e historicamente os mais afastados, o mundo actual é um
deserto, uma chatíssima e árida vastidão de inutilidades chamadas «gadgets», uma
imensidade de vazio e de ninharias, ainda por cima esteticamente um horror,
ecologicamente um Terror. Horror e Terror a que, depois, o marketing chama
obras-primas do pós-modernismo, ou qualquer chaladice do género «novas
tecnologias».
À luz deste livro feérico e fascinante - que abre, como não podia deixar de ser,
com uma epígrafe de André Breton - é o mundo actual, com a sua quinquilharia
tecnológica, com os seus mitos de pacotilha, com o seu ridículo e pretensioso
ateísmo, que se torna uma vulgaridade ordinária inclassificável.
Face à exuberância «equatorial» e barroca do fértil e fecundo património do
imaginário, voltamos a ter respeito por esta espécie que alguns quiseram e
supunham poder reduzir ao esqueleto irrisório do homo cientificus, do homo
economicus, do homo ludicus, ou do homo parvonius.
O espírito humano não é só maravilhoso, como o demonstra e mostra Durand, nestas
326 páginas da edição portuguesa. O espírito humano é, por antonomásia, o
Maravilhoso,
Ao lado de todos estes mitos ditos «primitivos», a arte actual, os artistas
modernos, a literatura europeia, os cultos da cultura civilizada, os mitos do
espectáculo e da política, os rituais dos «mass media» não passam de uma
pessegada interminável.
Ao lado da fulgurante exuberância que são as páginas descritivas de Durand,
trazendo ao dia de hoje o que já era moderno há dois, três ou quatro mil anos,
tudo o que diz respeito à fase «moderna» aparece pálido, pobre, mesquinho,
chato, rasteiro.
UNIVERSO DA DIVERSIDADE
Logo a seguir, o que impressiona no livro de Durand, é a consciência de unidade
que de toda essa variedade e multiplicidade de formas, emana.
O espírito humano é uno e, por mais que a razão divida, que o racionalismo e o
positivismo dividam, que as ciências se dividam e subdividam, é a unidade
essencial e primordial da imaginação criadora que acaba por vencer, surgindo em
todo o seu esplendor no panorama infinito de formas infinitas, capturadas pelo
pesquisa mágica deste professor de Antropologia e fundador do Centro de
Pesquisas sobre o Imaginário.
Se o próprio Durand recorre a várias ciências para as unificar no que chamou
«estruturas», se para este seu estudo convergem Etnografia, Etnologia, História,
Antropologia, Filologia, Psicanálise, etc., a visão resultante do fenómeno
«imaginário» é sempre global e unificante, o que decorre, aliás, da sua própria
e específica natureza.
Um terceiro ponto e aspecto relevante emerge deste verdadeiro «tratado do
espírito humano e do real» que é o livro de Gilbert Durand. Qualquer análise de
um produto literário ou artístico não poderá fazer-se, a partir de agora, sem
base nestes pressupostos aqui inventariados em astronómica quantidade: não se
trata de mais uma teoria estética, mas dos próprios fundamentos (revelados) em
que assenta o funcionamento do «real imaginário».
Fora disto, destas raízes ancestrais, destes mitos ligados à profundidade do
tempo e à imensidão do espaço, não há hipótese de arte, poesia, literatura. Se
as ciências humanas saem pulverizadas deste tratado «lógico do imaginário» como
disciplinas parcelares, perante a força imponente e persuasiva da unidade assim
revelada, também as artes e letras saem impotentes deste confronto com
antecedentes e antepassados, com tradições, lendas, mitos, deuses, entidades,
epifanias, arquétipos.
É a qualidade tanto como a qualidade de dados acumulados por Durand e a sua
coerente articulação que constroem esta «lógica do ilógico», esta
«racionalização do imaginário», tornando convincente a posição daqueles que
sempre defenderam ser a poesia que está na origem de tudo, e de que todas as
criações do espírito partem da mesma raiz ou matriz poética.