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AGROINDÚSTRIAS & AGROCRATAS
11-5-2007
1. O prefixo «bio» ligado à palavra combustível forma uma mistura
verdadeiramente explosiva. E excitante, pelo que se está vendo: raro o dia que
os jornais e telejornais não debitam mais uma notícia sobre os ditos
combustíveis. Até parece ter poderes afrodisíacos.
Mas não é de agora. Já em 30 de Agosto de 2003 (há já 4 anos) um notável
ex-Comissário Europeu da Energia, António Cardoso e Cunha, falava em êxtase do
Bioetanol - «um poço de Petróleo no Alentejo» dizia o retumbante título do
artigo que exumei hoje mesmo na minha biopapelada. E o êxtase revela-se em
palavras lapidares de introdução à biomassa:
«Ao passo que tanto a gasolina como o gasóleo são derivados do petróleo
importado, o etanol pode ser obtido a partir de matérias-primas agrícolas
nacionais com elevados teores de amido ou açúcar, cuja tecnologia de produção
está completamente dominada – cereais, beterraba, batata, uva, entre outras.
[...] O etanol, de origem agrícola é correntemente denominado bioetanol e cai
dentro da classe dos biocombustíveis – combustíveis derivados de produções
agrícolas. [...] Outro biocombustível importante é o biodiesel, obtido a partir
de óleos vegetais. O processo produtivo é diferente e a sua utilização é
restrita como aditivo de óleo diesel, ou gasóleo.»
Mais claro do que isto, nem por música. O manifesto do Etanol ficou
definitivamente escrito por um notável da nossa Pátria.
2.Não é que faltem, em 2007, notícias sobre bioexplorações e biomanipulações mas
um certo recuo no tempo talvez nos diga como andamos distraídos do que se vai
tramando nos bastidores da Pátria pelos verdadeiros patriotas, até irromper à
luz do dia, às primeiras páginas dos jornais e telejornais.
Os que se julgam ambientalistas militantes andam mesmo na Lua: se o ilustre
notável, com inegável peso político, António Cardoso e Cunha, foi precursor do
Bioetanol, o que Eurico da Fonseca (já falecido) escreveu em favor do Álcool
Combustível parece apenas uma fantasia de escritor deslumbrado pelas viagens
espaciais e pela NASA.
Que o assunto da Biomassa tem vindo a ser acalentado com desvelos maternais no
seio de muito boa gente, não há dúvida. Está agora em boas mãos (na mão dos
«empresários verdes») e o Governo só vai às inaugurações cortar a fita, fazendo
assim a sua política energética, sem esquecer a presença tutelar do PR que
lembrou outro dia aquilo de que já todos estavam esquecidos: é preciso pensar
muito a sério o Nuclear. E de certeza que não foi distracção.
3.Ao trazer aqui à lista «Ambio» o nome de um ex-comissário Europeu da Energia
(perito também em engenharia financeira quando à testa da Expo 98) quero apenas
ser útil e prestadio a alguns entusiastas do Biocombustível que por aqui navegam
e que aqui marcam regularmente presença.
É sempre bom ter bons aliados da causa, embora esta dos biocombustíveis já nem
precise de aliados, pois adquiriu a inércia suficiente (a inércia da asneira)
para ganhar velocidade e tornar-se imparável. Com os ambientalistas a ver o
espectáculo num lugar do segundo balcão, muitos a aplaudir e nenhum a patear.
4. Só mais duas citações do Manifesto do Etanol:
«Em Espanha o programa «bioetanol» está em pleno desenvolvimento, estando
concretizadas três grandes unidades (Cartagena, Corunha e Salamanca), já com uma
produção anual de 400.000.000 litros. Todos os eventuais problemas técnicos,
políticos ou fiscais estão resolvidos aqui ao lado, com os mesmos instrumentos
comunitários que existem em Portugal. Se funciona em Espanha e motivou lá o
interesse dos agentes económicos, o mesmo se dará em Portugal.»
5. Lamento ter de resumir o melhor do manifesto que é sobre Alqueva
(lembram-se?) e o Alentejo:
«O programa bioetanol corresponde a uma oportunidade ímpar, podendo dizer-se que
é «feito à medida» para Alqueva [...] Mas nada obriga o programa a deter-se no
Alqueva. Ele poderá dar vida a outros regadios existentes e não aproveitados, em
particular no Alentejo. Recorde-se que 100.000 hectares com agro-indústria
criarão 20.000 postos de trabalho directos e terão impacte significativo no PIB
regional.»
6. A quem tiver a assinatura do jornal «Público» on line, tente que vale a pena:
Título: «Bioetanol – um poço de petróleo no Alentejo».
Autor: António Cardoso e Cunha, ex-comissário europeu da energia
Data: Sábado, 30 de Agosto de 2003.
Ou talvez a Hemeroteca Nacional, ali ao Bairro Alto.
Mas não percam, por amor de Deus e dos agro-cratas.
Links assustadores encontrados pelo Google na Net:
http://www.agroportal.pt/x/agronoticias/2006/10/30g.htm
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