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1-6 <chumbo-1> merge de 8 files de 1987-> todos estes files existem individualizados, com títulos de data e alguns com recorte anexo – inéditos ac com anexos
8 CENAS DE CAÇA EM 1987: 3.3.1987 A 1.12.1987 + <87-03-03> 3. Março.1987 Como o uso da gasolina sem chumbo obriga a meter no carro um conversor que custa 100 contos - preços do primeiro semestre - espera-se que milhares, mesmo milhões de portugueses com carro vão já a fugir meter conversor no carro só para proteger o ambiente e para que o ar não seja mais poluído com Chumbo, crime de primeira grandeza contra a Saúde do público (dita Saúde Pública) Pergunta de um "chumbado" entre milhões de chumbados, durante tantos anos pacificamente submetidos à obrigação constitucional de respirar chumbo e todas as doenças que o chumbo provoca, fora o saturnismo propriamente dito: será mesmo como foi dito ou é mais uma forma de gozar ao Carnaval com as vítimas de sempre, os calados e chumbados cidadãos deste País ? Que a notícia veio a saltar, fresquinha, no Sábado Gordo, é verdade. Mas lá que foi gozo, ninguém duvida: pois que mais podia ser? Fazer depender a saúde pública dos contribuintes, de uma despesa de 100 contos a fazer por cidadãos particulares também contribuintes, o que será senão uma bisnagada de Carnaval? Até que ponto a nossa passividade de cidadãos explica que nos vomitem assim em cima? + <87-03-19> «INGERÊNCIA» NOS NEGÓCIOS INTERNOS 19.Março.1987 O famoso princípio do direito internacional chamado «ingerência» nos negócios internos de um País", figura de retórica que se usa por sistema sempre que isso convém ao sistema, deixa literalmente de vigorar quando entram em cena instituições internacionais como a ciência, com poderes soberanos e discricionários para intervir nos negócios internos e na vida de um país com a maior sem-cerimónia. A ciência está de facto entre essas entidades supra-nacionais, que se permitem entrar portas adentro de um País, devassando, investigando, explorando, rotulando, sem pedir licença e sem que ninguém diga basta, ao abrigo não sei de que imunidade parlamentar ou diplomática. O que os cientólogos do Hospital Claude Bernard, de Paris, se permitiram fazer em Cabo Verde, a pretexto de aí pesquisarem, em Março de 1987, os portadores do vírus da sida (como eles dizem) exemplifica o poder que determinadas entidades possuem para, completamente fora de qualquer lei, e provavelmente até ao abrigo de qualquer acordo científico e tecnológico, agirem e devassarem até à vida privada os cidadãos de um país. Não sei se houve colaboração das autoridades de Cabo Verde a esta "ingerência nos negócios internos" do seu país: mas protestos parece que não, devendo o que se passou ficar registado para a história triste desta idade do ferro, deste tempo-e-mundo. Ponto de partida que serviu de pretexto à invasão: rotulado de sida, um doente cabo-verdiano internado em Lisboa, no Hospital Egas Moniz, foi o pretexto para que uma equipa médica do Hospital Claude Bernard caísse em bando nas ilhas do Sal e Santiago, onde recolheram 360 amostras de sangue, em hospitais, cadeias e estabelecimentos militares. + 1-3<abril-1> 25. Abril. 1987 O 25 DE ABRIL 13 ANOS DEPOIS Escritores neo-realistas da década de noventa, vão ter que contar este período fáustico, em que os poderosos ficaram mais poderosos e os miseráveis mais miseráveis. A cada novo governo derrubado, mais uma medalha para quem o derrubou, porque o povo é sereno e nada vingativo. E quando não é, ameaça-se para que seja. Quem saberá, na Europa dos Burocratas, que somos aqui e agora, a resistência clandestina mais antiga e mais mal organizada da Europa? Por isso, no intervalo de dois governos derrubados, há sempre quem nos apanhe desprevenidas, com novos lixos radioactivos, com novos fosgénios, com novas Estarreja, com novos cianetos de vinilo, com novas prospecções petrolíferas, com novas centrais nucleares da Espanha socialista , com novos cargueiros atulhados de produtos tóxicos, com novos petroleiros partidos ao meio, com novos sindicalismos reformistas iguais aos que já tínhamos, com novos verdes à ribatejana, com mais chumbo na gasolina, com mais cancro na carne de vaca, com mais hormonas no leite, com mais pesticidas na sopa, com... Gostará mesmo o povo português de viver no chafurdo? Porque não fazem uma sondagem das normais, sobre estes quesitos sem importância (que dizem respeito à vida e à morte da gente)? Ou não chegará ainda o circo de fantasmas chamado política, o pirolito suporífero chamado desporto (a todas as horas do dia e da noite), as fofocas das chamadas artes e letra»? Escândalos que só já escandalizam alguns ou que já não escandalizam (mesmo) ninguém, fariam uma lista interminável, Indicam-se (mais) alguns como contributo ao inventário sempre incompleto do fascismo quotidiano: - A exploração de impostos que sobrecarregam principalmente a classe média; - A diferença abissal de classes que separa os Burocratas dos portugueses em geral que continuarão, no entanto, a suportar, como contribuintes, as farras da Europa e os mitos da adesão; - O lixo nuclear e radioactivo que o socialismo espanhol decidiu reforçar com um cemitério de resíduos radioactivos, depois de nos ter já contemplado com as centrais nucleares de Almaraz, as previstas de Sayago, Valdecaballeros, etc. - As vacinas obrigatórias que, na maioria dos casos, obrigam as vítimas a contrair as doenças de que dizem protegê-las; - A respiração obrigatória do chumbo adicionado à gasolina e que tem sobre a célula nervosa e cerebral efeitos comprovadamente devastadores; - O luxo da classe científica que o país contribuinte não só paga para formar doutores mas também para manter e que regularmente pede mais subsídios para prosseguir as investigações, das quais até hoje não se viu nunca um único resultado prático: ciência que se faça em laboratórios do Estado, aliás, ou é platónica, ou serve exclusivamente os interesses de qualquer indústria estabelecida, que muitas vezes se aproveita do trabalho dos investigadores pagos pelo Estado; o luxo da classe científica é assim o escândalo da classe dita científica; - As proezas contadas pelo jornais sobre os cometimentos de empresas publicas como a EDP, que cobra recibos a dobrar não contente com os recibos que já cobra singelos, ou com os TLP, cujo sistema de cobrança continua perfeitamente incontrolável e sujeito, portanto, a usos e abusos igualmente incontroláveis. Há instituições, cujas proezas os jornais só raramente contam mas que só de ouvirmos pronunciar os seus santos nomes um arrepio de medo e morte nos assalta. Poder político que ignore isto ou finja ignorar, há muitos, muitos anos que se fez cúmplice de abusos quotidianos contra a humanidade. Se quem tem o poder não pode pôr cobro a estas pequenas grandes anomalias, então quem pode? Ou ao poder interessa mesmo que a situação seja socialmente e permanentemente explosiva? Ou ao poder interessa que o cidadão esteja permanentemente pelos cabelos e com vontade de pegar fogo às caras solenes, de gravata e fato inglês, que aparecem na televisão a pedir mais sacrifícios, mais subsídios ou mais adesões à Europa? Se ainda não lavra por este País uma luta munida de escopetas, pronta a beneficiar os possidentes do poder (que vão da direita à esquerda, diga-se) isso só se deve ao bom feitio do português, de brandos e bons costumes, que prefere morrer esmagado do que esmagar uma formiga que seja. Talvez por isso os poderosos tenham adubado bem o terreno de violência, abusos, injustiças, corrupções, prepotências, etc., testando assim a capacidade do português de comer e calar ate ao inverosímil (com desfecho no suicídio, no crime ou na embriaguês). + <87-05-08> 8.Maio.1987 De vez em quando vem a público um caso, como o da senhora vítima de um desastre no autocarro da Carris ( Semanário " Tal & Qual", 8.Maio. 1987), que espera justiça há 19 anos! Não só estes casos fazem qualquer pessoa embasbacar de espanto, não só as intocáveis instituições implicadas, intocáveis continuam, como ficam por revelar os casos intermédios e anónimos que todos os dias ocorrem, sem advogado que os defenda (porque o advogado também leva a dinheiro e só tem advogado quem o pagar). + <87-06-27> EIS O NOVO TESTE PSICOTÉCNICO 27.Junho.1987 A lembrar que a luta de classes não foi uma invenção de Karl Marx mas permanece, como doença incurável, no dia a dia aparentemente pacífico das nossas sociedades-panelas-de-pressão, prontas a explodir, eis o novo teste psicotécnico, com o nome de "Token-Teste", apresentado no Porto, em 26 de Junho de 1987. Segundo a classe dirigente que apresentou mais esta maravilha da técnica, da psicotécnica, temos - sob a capa da ciência avançada - os clássicos ingredientes do ódio de classes, só que já devidamente liofilizado , com os "inferiores" suficientemente neutralizados para não darem problemas aos doutores-manipuladores das inteligências infantis e juvenis. O discurso da classe possidente sublinha, várias vezes, os "mais inferiores", os mais dotados, os mais altos, os mais infelizes, os mais abjectos, os mais menos e os menos mais. Quem estabelece todas estas hierarquias, quem escolhe, quem avalia, quem rejeita, quem elimina, quem aproveita, quem examina, quem decide que alguém é inteligente, estúpido ou assim-assim? É a cena eterna: vencidos e vencedores, frente a frente, no eterno espectáculo do desespero humano. Que hoje chama os jornais e dá proveitosas conferências de Imprensa, em nome da ciência e do progresso. + <87-08-11> INFORMAÇÃO ACESSÓRIA PARA DESINFORMAR 11. Agosto.1987 O diluvio de informação acessória para desinformar ou não informar sobre o essencial, eis uma das constantes do Macro-sistema detectáveis no intervalo dos acontecimentos importantes. Um vespertino, hoje mesmo, 10 de Agosto de 1987, descobre como novidade uma realidade que está mesmo debaixo dos nossos olhos e que topamos na rua sem dar por ela. Independentemente do grau de demagogia que sempre possa haver nestas descobertas de "assuntos escaldantes" por parte de uma Imprensa que se especializou em frivolidades (talvez por exigência do leitorado) e só se ocupa de questões sérias quando falta assunto (Verão ou Natal, por exemplo), independentemente do exagero que haja nesta generalização, o que importa reter desta reportagem sobre as inalação de cola pelos jovens, é isto: - A Informação é hoje, por inchaço inflacionário, uma forma de desinformar - O conhecimento prático dos problemas e dramas é inversamente proporcional a avalanche inflacionaria do chamado conhecimento científico, teórico e abstracto - Estas toneladas de ciência que nos afogam, esta inflação de informação funciona, por esmagamento, como um dos principais factores de não-informação e desinformação - As prioridades na sociedade industrial estão invertidas e o que toca o número, o cifrão, o dólar, o barril de petróleo, o cálculo, a contabilidade, é sempre mais importante do que o que fala dos dramas humanos, das pessoas, do sofrimento dos que sofrem- O sistema, tal como está, mete medo e dá vergonha: se por um lado é desagradável ao jornalista e aos leitores "mexer na porcaria da abjecção", por outro lado também ele será cúmplice da abjecção e da criminalidade quotidiana na medida em que silenciar e sempre que silenciar os grandes crimes da sociedade industrial. + <87-09-09> AVENTURAS DE UMA RETRO-ESCAVADORA 9.Setembro.1987 A eventualidade de Lisboa ficar coberta de gás butano desencadeou, no dia 9 de Setembro de 1987, uma série de mecanismos mentais que me parecem típicos do sistema e a que ele recorre automaticamente para sair ileso e impune (moralmente ileso e impune) dos crimes cometidos. Foi óptimo para a Petrogal, porque foi acidente, foi "asneira" de uma retro-escavadora mecânica (falha humana, leia-se), quando andava, em Beirolas, em operações não se sabe de quê, mas pressupõe-se de construção civil, a febre do século. Mas andaria mesmo a retro-escavadora em andanças de construção civil? Se a área é "vulcânica" e "explosiva" (como se viu posteriormente), que impedirá a Petrogal de ter por sua conta e propriedade toda essa área, cerrando-a, como merece, de arame farpado? Serviço de tanta necessidade e transcendência, é claro que não se pode questionar o facto de haver toneladas de gás butano armazenadas com uma cidade de um milhão de pessoas ao lado. Todos fazemos por esquecer esse tipo de pesadelo, pois já nos bastam outros. E como os órgãos de informação têm que dizer alguma coisa, verberam então a falta de "planos" com a rede de pipelines subterrâneos, de modo a que os construtores civis em acção na respectiva área saibam onde não devem furar. Mas que raio andava a escavadora a escavar numa área minada de canalizações de gás? Mais: Nossa Senhora de Fátima já disse, em entrevista à Agência Lusa, que protegia esta terra portuguesa. Mas não estaremos nós a abusar das boas graças da santa? Porque - note-se - mais uma vez e como é típico da tragédia bufa portuguesa, a grande catástrofe só não aconteceu pela tal unha negra, que começa também a ser uma das nossas instituições mais queridas. Quis Deus, para quem acredita n' Ele, que o gás saído da conduta furada pela escavadora (que raio andava a escavadora ali a fazer?) se incendiasse de imediato. De contrário, ter-se-iam espalhado por Lisboa e arredores as 70 toneladas de gás butano. Dois dias depois do "alarme Beirolas" já tínhamos esquecido o pesadelo, enviado um cartão de felicitações à Petrogal e rezado mais um padre nosso em louvor do Nosso Senhor que nos protege nestas e noutras. Um pirrónico que não acredita em Deus, porém, lançou a hipótese provocatória de que a escavadora era apenas peça num acidente pré-planeado, destinado a dar, exactamente, força moral à Petrogal para reivindicar o muramento com arame farpado de uma área da qual devia ser proprietária indiscutível e exclusiva. Como hipótese de "politic-fiction" até nem é das mais imaginosas e, além disso, estraga o frisson de acreditar que o gás incendiou sozinho, por amor de Deus, porque se não incendiasse, e como sublinhava o "Diário Popular" ( 10/Setembro/1987) em manchete de primeira página, Lisboa teria ficado inundada de gás butano e sujeita a incêndios incontroláveis em cadeia... Esqueçam... + <87-12-01> A OUTRA ORELHA DE VAN GOGH l. Dezembro.1987 "Baixa a bolsa, sobem as cotações na (bolsa da) Arte" - dizia Amaral Pais, no "Jornal das Nove" (e dez) do dia l de Dezembro de 198?. Era a propósito de um Van Gogh "Os Lírios", que atingiu, ao que parece, o valor de sete milhões de contos, quase o Orçamento do Estado português. A relação de vasos comunicantes entre a Bolsa de Valores e a Bolsa das Artes Plásticas é, de há muito, uma evidência mesmo para os mais estúpidos como eu, sem que, no entanto, haja da parte dos espertos um grande interesse em enfatizar essa evidência. Convém que o negócio esteja relativamente resguardado dos curiosos e, principalmente, dessa praga que são os amadores metendo-se ao jogo de mistura com os profissionais, numa promiscuidade repugnante. Uma série da televisão britânica que se chamava "Love Joy", fruto de um tatcherismo atento às pulsões neo-capitalistas que fermentam nos campos concentracionários que são as capitais federais dos Estados, centra-se precisamente nesse "mercado" da Arte, expressão que já nem sequer escandaliza os mais moralistas. Longe vão os tempos em que o Van Gogh escrevia ao seu irmão Lheo pedindo-lhe que lhe valesse num suprimento de comida, longe vai o tempo em que o fisco perseguia como uma sarna os poetas e artistas, longe vai o tempo em que o artista (plástico) comia (quando não comia pau de marmeleiro) o pão que o diabo amassava com vinagre, às segundas, quartas e sextas feiras, guardando aos domingos o santo nome de Deus. Agora, graças à caspa, os artistas ejaculam mais galerias do que quadros, deslumbramento em perfeita sintonia com os empresários. Aliás,quem distingue empresários de críticos, como se interrogava, na entrevista que concedeu a "A Capital", o escritor Vasco Rodrigo Lobo, que se estreou em livro aos 54 anos... Agora e graças à caspa, por trás de cada pintor (salvo seja e sem maldade) há hoje um perito em marketing e atrás de cada galeria um super-mercado (ou vice-versa). Agora e graças à caspa, a lei do mecenato já pertence à nova ordem de coisas em Portugal. Estamos a "tatcherizar-nos" à velocidade da luz. Pelo menos na rua do Século e imediações, onde têm nascido mais galerias de Arte do que cogumelos, estamos já na Europa. Com cheiro a Bairro Alto, mas de qualquer maneira Europa. A tal ponto que passando por lá um dia destes, consegui não reconhecer a velha rua do velho jornal por onde alguns anos andei até ao seu falecimento. A velocidade das "mudanças" só assusta os covardes:cada dia uma nova moda, e agora a moda é o que está a dar. Cada dia a bolsa sobe, cada dia desce, cada dia um artista sobe na girândola da fama, cada dia desce. E nós, os escribas acocorados, cá estamos para o sobe-e-desce de todas as bolsas. Um Van Gogh por sete milhões? "Se lá no assento etéreo onde subiu, memória desta vida se consente, seria que o Van Gogh cortaria, de raiva e de horror, a outra orelha?■ |
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