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<chernobyl-3> os dossiês do
silêncio – eco-ecos –
A SOMBRA DE CHERNOBYL (*)
19/12/1987 - Com o dólar a descer e a Perestroika a conquistar terreno nas
consciências alienadas do burguês ocidental, era urgente encontrar um estampido
de tal modo forte que conseguisse abafar, ainda que por dias, aqueles outros
estoiros.
E o acontecimento foi a cimeira de Washington, com a qual a Comunicação Social,
da China à Patagónia, falou ditirambicamente com todos os super e hiper que é
costume guardar para as grandes ocasiões, os chamados "momentos históricos".
De facto, a história é dos que a escrevem - como dizia o outro - e , neste caso,
a Comunicação Social vai a reboque do que os super-potentes querem que se
escreva deles.
Nunca uma caganifância de 3% foi tão festejada, exaltada, bajulada, amimada.
Houve logo quem visse aí o "novo relâmpago de Damasco" iluminando a humanidade
para os amanhãs que cantam, os futuros que riem.
Quanto ao resto dos armamentos que ficam, tirados os 3%, a ver vamos. As
superpotências são magnânimas quando se trata de defender os interesses da
humanidade e já nos fizeram a esmola destes 3%, convém que não se comece já a
ganir por mais. Cada coisa a seu tempo.
É deslumbrante e piramidal que os super-generosos super-grantes, finalmente,
acordassem, Depois de um sono tão longo e tão profundo de suas altezas, os
súbditos festejam a proeza: suas altezas acordaram e toda a aldeia (planetária),
ajoelhando no adro, repica de contentamento.
Mas enquanto os sinos da aldeia ressoam de contentamento pela vitória conseguida
pelos super-grandes, os sinos de Chernobyl , desta feita, ficaram completamente
abafados.
Tão abafados que, na véspera da Cimeira, uma notícia pequenina e também ela
abafada, conseguiu emergir do oceano de retórica podre pró-paz.
A anedota consiste exactamente nisso. Passou praticamente em branco, talvez a
notícia mais inquietante do ano, ou desde que Chernobyl nos deixou em estado de
choque e de suspense, sem nunca ter ficado esclarecido como é que o problema do
reactor danificado tinha sido solucionado.
Secamente, referiam-se 36 acidentes em Chernobyl nos últimos 10 meses.
Que acidentes?
Como é que se deram 36 acidentes e só agora, ao trigésimo sexto, a URSS decide
anunciá-los na véspera exactamente da barulheira da Cimeira?
Quer dizer que Chernobyl ainda não está sanado, sarado, parado, exconjurado,
controlado? Quer dizer que as radiações, como fonte eterna e inextinguível,
continuam à solta sem se saber porquê ou como controlá-las?
Quer dizer que, mais de ano e meio depois da explosão que tornou Chernobyl
notícia de terror durante vários meses, ainda não se conseguiu dominar o
processo?
Será que a reacção em cadeia ainda não está posta de parte?
Será que ainda não está posta de parte a hipótese novelescamente antecipada dada
pela história e pelo filme com o nome de "síndroma da China"?
De um rastilho destes, será que a humanidade só tem direito a uma notícia de
rodapé com seis linhas?
Ou estarão os super-dirigentes das super-potências a falar tão alto na Cimeira
para, como as crianças, afastar o medo?
Perante a hipótese de Chernobyl ficar como fonte eterna de radiações, talvez
este recuo de 3% se possa afinal entender melhor nos motivos que levaram à sua
assinatura: se temos a guerra eterna aí já, sem hipótese de retorno, em
Chernobyl, porque raio ainda continuariam eles a armazenar arsenais para a
guerra efémera?
Deu-se, com este acordo tão rateado, um motivo para a humanidade respirar fundo
: aparentemente, começou a exconjurar-se o perigo do holocausto. Na realidade,
pode bem ser que ele já se tenha tornado inútil e obsoleto, face ao holocausto
sereno das radiações em débito permanente na fonte de Chernobyl.
A pergunta que faz estremecer de medo os covardes como eu é se estas cedências à
volta da mesa não derivam daquele foco eterno de radiações que, em Chernobyl,
poderá estar a preparar a mortalha definitiva do Planeta e da Humanidade, o
reactor nuclear que desde 25 de Abril de 1986 jamais terá conseguido ser
dominado.
Que há manobra de distracção somos obrigados a pensá-lo, diante desta notícia
que se quis sem importância e diluída no meio da retórica grotesca e brutesca em
torno da retumbante Cimeira do Medo.
Aqui está a notícia do ano 1987:
“Uma série de 36 acidentes, três dos quais provocaram vítimas mortais, ocorreu
nos últimos 10 meses na central nuclear soviética de Chernobyl, onde um reactor
explodiu em Abril último (sic) refere o jornal soviético "Sotsialisticheskaya
Industrya", que não refere o número de mortos provocados pelos acidentes fatais.
As medidas de segurança, implementadas em Chernobyl após o rebentamento de um
dos reactores da central, não conseguiram evitar que as radiações continuassem a
atingir mais pessoas, devido à fraca vigilância e descuidos dos trabalhadores
--explica o jornal.
O "Sotsialisticheskaya Industrya" revela, ainda, que três dirigentes comunistas
e funcionários da central foram punidos recentemente devido a estes acidentes.”
É de notar que a notícia, além de lacónica e enigmática, ainda vinha com a data
do desastre de Chernobyl errada, referindo-a como de Abril último.
Mas isso é de somenos. Pior e para aterrar ainda mais os covardes como eu, uma
semana depois vinha esta outra versão que, ao baralhar os dados da primeira,
suscita ainda mais perguntas e multiplica as suspeitas de super-mistificação que
é de esperar de superpotências em transe nupcial.
Esta a segunda versão da inquietante notícia do ano:
“Cinco acidentes foram registados nos últimos meses na central nuclear de
Chernobyl, afirmou quarta-feira Yuri Filimontsev, do Ministério soviético da
Energia Atómica. Filimontsev disse em conferência de imprensa que nos últimos 10
meses não se registaram prejuízos provocados por radiações nos arredores da
central nuclear, que em 26 de Abril de 1986 sofreu o acidente mais grave da
história do uso pacífico da energia atómica.” (10/12/1987 )
Comentário final deste vosso cronista: ???????????????
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(*) Publicado com o título «A Notícia do ano: Que se passa ainda em Chernobyl?”,
no jornal «A Capital» (Crónica do Planeta Terra) , 19/12/1987
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