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DE ABEL CAMPOS ARTIGOT

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1-8- <chernobyl->

ALGUMAS VERDADES SOBRE CHERNOBYL

Segundo informações de José Carlos Marques, que colocou na Ambio Archives o texto a seguir, foi o site do Movimento Partido da Terra (MPT) que originalmente o publicou. Sublinhe-se que o deputado Pedro Quartin Graça, militante do MPT, foi eleito nas listas do PSD e é deputado neste grupo partidário. Anterior a estas versões, existe um texto muito semelhante elaborado no âmbito da Plataforma contra o Nuclear e que a maior parte dos media evitou dar guarida. Os desabafos do sr. Patrick Monteiro de Barros (que nome giro para um empresário de sucesso !) são evidentemente muito mais mediáticos. Este pequeno mundo termina sempre onde começou. Em circuito fechado. Com ou sem Sócrates, em diálogo com Platão, o circo continua.
Eis o texto assinado por Pedro Quartin Graça, deputado do PSD na Assembleia da República .


««1
Senhor Presidente,
Senhores Deputados,
Foi em 26 de Abril de 1986, faz hoje precisamente 20 anos, que
ocorreu o grave acidente nuclear na central de Chernobyl em Kiev,
na Ucrânia.

Tragédia provocada por falha humana e de consequências que
ainda hoje perduram, um estudo publicado no passado dia 21 de
Abril pelo Centro Internacional de Pesquisas sobre o Cancro, da
Organização Mundial de Saúde, estima em 16.000 o número de
cancros da tiróide e 25.000 de outro tipo que irão surgir na Europa
até 2065, sendo que estes darão origem a mais de 20.000 mortes
directamente ligados a Chernobyl ou seja, quatro vezes mais do que
o número de mortes antes calculado para o Velho Continente devido
à nuvem radioactiva.

2
Sendo certo que a maior parte das mortes respeitará às populações
mais directamente expostas, seguro é também que vastas
populações da Ucrânia, da Bielorússia, da Federação Russa foram
afectadas.

Mas também os países da Europa Ocidental, desde a França à
Irlanda, o foram. Na verdade, e de acordo com dados de Abril deste
ano da Agência Internacional para a Pesquisa do Cancro, calcula-se
que sejam 570 milhões os europeus atingidos pela nuvem
radioactiva de Chernobyl.

Ao evocar hoje Chernobyl, pretendemos, antes de mais, prestar
homenagem a todas as vítimas da energia nuclear dita «pacífica».
Mas, ao mesmo tempo, e pensando no futuro de todos nós,
queremos também alertar para a necessidade de contrariar a falsa
propaganda que o lobby pró-nuclear vem ultimamente fazendo com
o objectivo de tentar impor em Portugal a construção de centrais
nucleares.

Dessa propaganda ressalta:
1. O esforço por negar a gravidade do acidente de Chernobyl;

2. A afirmação de que um acidente de gravidade comparável já
não seria possível hoje;

3. A falsa ideia de que um acidente como esse nunca teria sido
sequer possível num país do Ocidente, tentando assim
menorizar a sua importância ao assimilá-lo ao colapso dos
sistemas sociais do Leste Europeu no final da década de 1980.

4. A ideia, igualmente falsa, que as centrais nucleares da
actualidade são seguras e, pasme-se, «amigas do ambiente» e
até cumpridoras dos objectivos de Quioto!

Por último, a tentativa de convencimento dos portugueses de
que a energia nuclear é barata e é a solução única para os
problemas energético do país.

As razões para estas manobras de propaganda são óbvias!

Negar, menorizar ou falsear o que se passou em Chernobyl é uma
peça essencial para tentar que a opinião pública portuguesa diminua
o elevado grau de rejeição que tem em relação às centrais
nucleares, como etapa para as poder impor a seguir.

Senhor Presidente,
Senhores Deputados,

Para além da dificuldade de se obterem dados fiáveis e concretos
sobre o acidente de Chernobyl mas também sobre os demais
acidentes que têm ocorrido, muitas vezes ocultados pelos próprios
Governos, os promotores do nuclear sabem bem que o acidente de
Chernobyl está ainda vivo na memória dos portugueses de então, e
até na mente de muitos jovens de hoje que não eram sequer
nascidos, mas que dele ouviram falar, que o estudaram nas escolas
ou dele se informaram nos jornais, rádios, televisões e internet.

Para os promotores do nuclear vale tudo! Da legítima sensibilização
dos partidos à grosseira manipulação dos órgãos de comunicação
social, da influência junto dos governantes à criação e divulgação de
pretensos estudos de opinião ou pseudo sondagens sem qualquer
base científica, a tudo assistimos nos últimos meses desde que, com
pompa e circunstância, o lobby pró-nuclear, surgiu publicamente.

Mas, para levarem os seus objectivos até final, os pró-nuclearistas
têm de manipular e falsear de forma grosseira a realidade, na
esperança de que se cumpra o velho ditado segundo o qual uma
falsidade muitas vezes repetida passa a ser considerada como
verdade.

Os factos são, porém, indesmentíveis.

Em primeiro lugar: Chernobyl foi e continua a ser o maior acidente
tecnológico da história da humanidade, de consequências mais
devastadoras e de envergadura sem comum em comparação com
qualquer outro. Não ³apenas² e simplesmente o maior acidente
nuclear, como alguns dizem, mas o maior acidente tecnológico de
sempre.

Em segundo lugar: continua a não ser possível eliminar a
eventualidade de um acidente grave numa central nuclear, por mais
baixa que seja em teoria a respectiva probabilidade. Ora, em que
consiste um acidente grave numa central nuclear? Simplesmente, na
libertação maciça de radioactividade sem controlo, nos solos, nas
águas, no ar, na fauna, na flora, nas pessoas, no ambiente.

Embora em todas as tecnologias se façam esforços e se tenda para
um aumento da segurança, e o mesmo aconteça na indústria
nuclear, a gravidade da libertação maciça de radioactividade não
tem termo de comparação possível. É por isso que a opção nuclear
é social e eticamente inaceitável. Existe apenas uma maneira de
garantir que jamais se produzirá, com origem em determinado
território, um acidente dessa gravidade: é não construir nele
qualquer central nuclear.

Em terceiro lugar o facto de, apenas por um triz, e isso está bem
documentado, um acidente de gravidade comparável ao de
Chernobyl, ou mesmo superior, não ter acontecido no Ocidente.

Foi o caso de Windscale, em Inglaterra, nos anos 50 (local este que
viria a ser rebaptizado Sellafield para efeitos de cosmética); e nos
Estados Unidos da América, em 1979, em Harrisburg, Three Mile
Island.

Para sermos rigorosos, e desde que se iniciou a actividade nuclear
nos anos 50 do passado século, houve incidentes anuais em
praticamente todas as centrais de produção de electricidade e em
unidades de processamento de combustível e tratamento de
resíduos.

Vejamos mais alguns exemplos:
- Chalk River (Canadá, 1952), fusão parcial do núcleo com
contaminação radioactiva da água de refrigeração;

- Hanford (EUA, 1970), fuga radioactiva no tanque de armazenagem
de resíduos;

- Greifswald (RFA, 1976), fusão parcial do núcleo com incêndio
grave e falha dos circuitos de segurança;

- Tokay-Mura (Japão, 1999), grave acidente na unidade de
processamento de combustível;

- Mihama (Japão, 2004), fuga no circuito de vapor.

A ideia, hoje ventilada, de que existiriam centrais nucleares ditas de
«nova geração» que não estariam sujeitas à eventualidade de um
acidente grave, não passa, ela também, de uma arma de
propaganda. Certamente que tem sido possível melhorar os
sistemas de segurança na indústria nuclear. Mas nenhuma
tecnologia pode atingir uma segurança perfeita, quer por motivos
técnicos na concepção e construção, quer por eventual erro humano
quando em funcionamento. Só por arrogância, ingenuidade ou má fé
se poderá afirmar o contrário. Ora, se nesta ou naquela tecnologia o
risco pode ser corrido, no caso da indústria nuclear o que está em
causa são os efeitos devastadores e longamente perduráveis da
radioactividade maciça incontrolada que não consentem qualquer
ligeireza na abordagem.

A maioria clara das pessoas que em Portugal prezam a vida e a
segurança, as suas e as dos seus filhos e netos, rejeita essa
pretensa solução.

Em Inglaterra, o Sustainable Devellopment Council, órgão oficial de
consulta do Primeiro-Ministro, num relatório de 2006, rejeita com
base em extensa e indiscutível documentação o recurso ao nuclear
mesmo só para substituir o existente.

Segundo informações dadas pelo governo na Câmara dos Comuns,
em Fevereiro passado, 311 explorações agrícolas na Escócia
continuam sujeitas a medidas de segurança devido a Chernobyl, e
isto a quase 3000 km de distância.

Temos pois de perguntar, e esta pergunta destina-se,
evidentemente, aos defensores do nuclear: que planos de
evacuação praticáveis em Portugal em caso de acidente grave
seriam postos em prática? Quem seria responsável por eles e pela
sua execução? Quem pagaria os custos da elaboração desses
planos e da sua manutenção em prontidão permanente? Quem
seguraria e resseguraria essas centrais e com que limites? Quem
pagaria e até que montante os prejuízos decorrentes em pessoas e
bens? Quem repararia os danos ambientais, de que modo, e por
quanto tempo? Quais os cálculos que, incluindo todos esses custos,
permitiriam uma estimativa realista do custo do kw/hora produzido
nessas centrais?

Aos problemas relativos à possibilidade de existências de acidentes
graves acrescem os resultantes do verdadeiro quebra-cabeças e
que não tem solução que é o problema dos resíduos altamente
radioactivos por centenas de milhares de anos e a radioactividade
de baixas doses libertada em laboração normal. Esses problemas
existem em toda e qualquer central nuclear, quer haja ou não haja
acidente grave.

Há pois numerosas razões para rejeitar a opção nuclear. E a menor
delas não é certamente o obstáculo que a energia nuclear
constituiria para que o esforço da sociedade se concentre
verdadeiramente na promoção do combate ao desperdício
energético, no aumento da eficiência energética e no aumento das
energias renováveis de baixo impacto ambiental.

Mas ainda que não existissem essas razões, bastaria a
eventualidade de acidente grave para a humanidade, possibilidade
sempre presente, para fundamentar a sua rejeição.

Analisemos agora o último argumento esgrimido pelo lobby nuclear:
o económico, a alegação de que a energia nuclear é a resposta para
a crise provocada pelo aumento do preço do barril do petróleo.
Trata-se, uma vez mais, de um argumento falso. A energia nuclear é
a forma mais cara de se produzir electricidade quando se considera
o ciclo completo.

A indústria nuclear é um autêntico fiasco já que apenas sobrevive
com base em subsídios públicos, directos ou indirectos, como em
França. Nos últimos 50 anos, os subsídios públicos à energia
nuclear foram na ordem dos 145 biliões de dólares sendo que, em
contraste, os subsídios às energias renováveis se cifraram em
apenas 5 biliões.

Senhor Presidente,
Senhores Deputados,

Em Fevereiro deste ano, o Primeiro-ministro, José Sócrates, afirmou
publicamente que o nuclear não estava na agenda deste Governo.
Os portugueses não se sentiram sossegados com esta afirmação. E
tinham razões para isso. Na passada semana, apenas escassos
dois meses depois, foram os mesmos portugueses surpreendidos
pelo mesmo Eng. José Sócrates quando este afirmou que «Portugal
deveria desencadear um "debate racional" sobre a energia nuclear,
à semelhança do que ocorre em vários países europeus».

Mas disse mais. Citando a imprensa, para o Eng.º José Sócrates,
verifica-se uma "mudança de contexto" e ainda uma « elevação dos
níveis de segurança nas centrais nucleares nas últimas duas
décadas, após o acidente de Chernobyl».

O Primeiro - Ministro referiu ainda que, alegadamente, países como
a Grã-Bretanha relançaram o debate público sobre a energia
atómica e que um outro país europeu, a Finlândia, está neste
momento a construir uma central nuclear. Mas convém lembrar que
para além desta desonrosa excepção, não se constroem centrais
nucleares na Europa Comunitária e nos Estados Unidos desde
Chernobyl.

Tudo isto para quê?

Para, no nosso entender, e cedendo às evidentes pressões do lobby
nuclear, tentar preparar mentalmente os portugueses para a alegada
inevitabilidade de existência de centrais nucleares em Portugal.

Ocorre perguntar ao Senhor Primeiro ­ Ministro se não estará já em
preparação uma nova Comissão Científica para o nuclear,
pretensamente independente, a exemplo da malfadada comissão da
co-incineração. Mas também porque não falou o Senhor Primeiro ­
Ministro do que se passa em Espanha, aqui mesmo e lado e país
repetidamente referido por este nosso governante, noutras áreas,
como exemplo a seguir?

A resposta é simples. O Sr. Eng.º José Sócrates sabe bem, mas faz
de conta que não sabe que, em Espanha, o Governo socialista do
PSOE se comprometeu ainda este mês a ratificar a moratória
nuclear e reiterou a promessa da substituição progressiva da energia
nuclear por outras formas de energia, mais seguras, mais limpas e
menos custosas.

Espera-se, aliás, para breve o início do programa de fecho e
desmantelamento em Espanha das centrais nucleares existentes,
até ao ano de 2015.

Em Portugal, qualquer decisão política que possa ser tomada nesta
matéria, nunca o poderá ser sem a clara, inequívoca e directa
participação da população, através da figura do referendo nacional.
Até lá, é a memória e o empenho daqueles que, há 30 anos, lutaram
contra o nuclear em Ferrel que nos permite hoje, como no passado,
continuar a afirmar com redobrada convicção:

NUCLEAR DE NOVO, NÃO OBRIGADO !

Assembleia da República, 26 de Abril de 2006

O DEPUTADO
Pedro Quartin Graça»»

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Última modificação: 22/06/07