1-3-<cee-4> os dossiês do
silêncio
OS CANIBAIS DA EUROPA
E O ORGULHO DE SER PORTUGUÊS (*)
(*) Publicado com este título, no semanário algarvio «Barlavento», onde
colaborei a convite do Deodato Santos.
A chamada "Europa do Mercado Comum" é um teste muito curioso para pôr à prova
até onde vai (e terá ido ultimamente) e saloice "provincianista" de alguns
portugueses, o seu incurável anacronismo de pretensos vanguardistas, as suas
serodias e reumáticas reacções de beata fé nos mercados comuns que para a Europa
já são há muito tempo um dos lugares comuns mais gastos das direitas e das
esquerdas civilizadas.
Por culpa destes europeístas de chinelo, mais uma vez a Europa se rirá de nós.
Mais uma vez a Europa civilizada nos considerará os bantos do Continente.
Por culpa deles, a consciência nacional da nossa identidade e da nossa
personalidade, sofrerá rude golpe, como desde os 60 anos dos Filipes, tem
sofrido tantos...
Por causa da sua política de "pobrezinhos" que vão bater à porta do senhor rico,
o povo português é humilhado na sua consciência ancestral e histórica de pobre
talvez (por culpa dos ricos que aqui o têm explorado) mas honrado. E, acima de
tudo, inteligente. Pelo que não suportará, uma vez mais, estes inteligentes
todos de cócoras para a Europa.
Os europeístas envergonham-nos: porque é a Europa, a melhor Europa, a nata da
sua cultura, da sua ciência, da sua Universidade (instituição sempre tão pronta
a fazer os fretes ao Poder) a rir-se das megalomanias que fingiram ser os
mercados comuns.
O senhor Sicco Mansholt, que em 1968 decretara para a Europa agrícola a sua
certidão de óbito - até 1980 um agricultor em cada dois deveria deixar o campo
-, quando chegou a 1972, bateu com a mão no peito e disse "Arrependido, estou
arrependido". Entretanto o seu Plano Monstro continuou a rolar, e rolando está
ainda para ver se atinge em força países como o nosso. O que tinha a fazer em
países como a Itália já fez: e a vaga vertical de desemprego no actual mundo
industrializado é, em boa parte, efeito dessa "magnífica" política Mansholt de
suicídio euroagrícola, de despovoamento do campo.
Mansholt demitiu-se de presidente do Mercado Comum. A sua política continua,
pois a inércia da asneira é como um petroleiro a grande velocidade: não pode
parar. Mas em Portugal, suplica-se de mãos postas para que Nossa Senhora nos
traga as benfeitorias que o seu preconizador já amaldiçoou.
Se isto não fosse caricato, seria trágico. Se isto não fosse trágico, seria
caricato.
Mas é pela menos ridículo. E humilhante dos portugueses.
Porque ridículo e humilhante é que os portugueses continuem de joelhos (ou de
cócoras) à porta de uma Europa que é a primeira a reconhecer a pobreza das suas
riquezas (ver os indicadores da qualidade de vida emanados da O.C.D.E.)
II - Quando Fernando Pessoa diagnosticou o "provincianismo" como doença crónica
da inteligência portuguesa (pouco inteligente e nada portuguesa) acertou.
De facto, o que é, se não crasso "provincianismo", a euforia verdadeiramente
apoplética que varre as elites e luminárias deste País quanto à nossa pressurosa
integração?
Empresários, engenheiros, políticos de grande peso regorgitam de dossiês sobre
todos os interstícios do processo - a arte da ser europeu e deixar de ser
português em toda a sela - acumulam-se. Quem mais patriótico do que eles?
Com o risco de, por asfixia, acabar tudo ainda pior informado sobre as
indesmentíveis vantagens de Portugal se acabar de vender à Europa.
Mas se é indiscutível tal rol de vantagens, porque se finge discutir?
Oh Democracia, Oh Liberdade, que a tanta obrigam, os prelos rangentes...
Esta euforia europeizante recruta, evidentemente, o melhor das inteligências
técnicas.
Há, por vezes, demarcando campos, piadas nas discursos aos intelectuais que, por
exemplo, criticam a sociedade de consumo.
É a denúncia da "seita": basta colar o rótulo, deprimente, de "intelectual” ,
para toda a gente perceber como esta seita, esta minoria rácica, este tumor
maligno, está fora do grande corpo nacional, ou seja, das grandes maiorias que
alimentam as orgias parlamentares.
O rótulo de "ecologista” tem efeito e conotações idênticas: fica logo cingido à
seita, à insignificância da sua gropuscularidade insular. Ecologistas seriam uns
tontos que ainda estrebucham, no mar de porcaria.
Sabem os partidos que têm as massas maciça e suficientemente
controladas/manipuladas para se auto-afirmaram seus representantes e
porta-vozes. As minorias não são, em democracia, relevantes, nem consideráveis,
nem legais. As minorias não existem. É o pluralismo democrático que a tanto
obriga.
Espécie de sífilis vergonhosa, quando se fala de minorias - intelectual, jovem,
ecologista, desempregado, lumpen-proletariado - pede-se desculpa. A senhora
viscondessa pode ouvir.
Nisto, todos os grandes partidos nacionais estão de acordo: primeiro, eles
monopolizam o sentimento patriótico da Pátria, depois, estão de acordo e suas
respectivas estruturas bem pensantes, que entregar Portugal ao estrangeiro é,
afinal, imperativo democrático: se eles o fazem é porque "para tal os mandatou o
povo português". (sic)
A tudo isto chamou Fernanda Pessoa "provincianismo".
No contexto europeu onde querem meter o País (para que a Europa cá meta toda a
indústria venenosa e hiperpoluente), esse estilo de euforia, de argumento, de
linguagem, de desprezo já nem sequer está guardado em museu. Caiu de velho.
Movimentos dos mais representativos da Europa fazem, até, gala em estar à moda e
servem-se abundantemente do prato ecológica para captar votos nas aflições
eleitorais. Como foi o caso nas eleições europeias de 1979.
Mais uma vez, os pacóvios pró-europeus cá da aldeia, além de anacrónicos, provam
o seu incurável "provincianismo", gritando no entanto que estão na vanguarda.
IV - Já o noticiámos em primeira mão (A Capital, 2. Dezembro. 1979): 15 nações
europeias estão envolvidas no projecto ECOROPA, concebido em França em 1976 e
que se encontra agora, em 1980, na fase de intervenção activa.
Não é para a Europa dos monopólios e do suicídio nuclear que esta ECOROPA se
volta.
É para a Europa dos jovens e desempregados, dos homens inteligentes e lúcidos,
para a Europa eterna das regiões e das tradições ancestrais, para a Europa dos
povos espoliados (por governos megalómanos) da sua identidade nacional, para a
Europa dos países fartos do monolitismo arrasador do desenvolvimento e do
crescimento sem alma, sem qualidade, sem quid, sem nível até.
É para a Europa concreta dos idiomas, das culturas, dos valores, das raízes
reveladas ou esotéricas que esta ECOROPA se mobiliza e mobilizará milhões.
Entretanto, titubeando o calão tecnocrático internacionalista, os arcaicos
europeístas querem convencer-nos de que é preciso imitar os buracos e erros que
a Europa há 10 ou 15 anos cometeu, para estarmos na vanguarda.
Na vanguarda da estupidez e da poluição, talvez.
Porque vanguarda, lá na Europa, já em 1968 demonstrou ser a nova juventude, a
nova cultura, a nova força e até a nova tecnocracia (que a há, sem que espante
nada os tecnocratas ultrapassados daqui).
É bairrista que os empresários tentem a chance do seu negociozinho. Mas que não
chamem a esses desejos tão eroticamente corporativistas "europeizar Portugal",
espectáculo que ameaça ser só para maiores de 18 anos. Mão estendida à caridade
do dólar, do marco, do franco - que cena intencionalmente chocante, oh Fernando
Pessoa.
Aos poderosas senhores dos partidos (que já se permitem desafiar o mais alto
magistrado da Nação) os portugueses educados terão de pedir moderação no gesto e
na palavra.
É obsceno continuar tal orgia: espoliar-nos do que resta desta Pátria, o orgulho
de ser homem e homem português.
Esta é a Europa onde o povo português é o que resta e restará sempre ao povo
português.
Que tenham os eurovanguardistas, ao menos, a certeza de que são os incuráveis
saloios da provincianite crónica, face ao despertar desta ecovanguarda
planetária e universal da humanidade.
Sem ofensa para os saloios.
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(*) Publicado com este título, no semanário algarvio «Barlavento», onde
colaborei a convite do Deodato Santos.