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<canudo-1>
sábado, 14 de Abril de 2007
TER OU NÃO TER CANUDO, EIS A BIG QUESTÃO
O caso dos «canudos» que era suposto o primeiro-ministro ter e afinal não tem, é
não só um caso sério de segurança nacional como um escândalo de primeira ordem
face à consciência do povo português, que se acostumou a reverenciar os senhores
doutores e os senhores engenheiros, enfim, a classe dominante que nos domina e
governa, a «nomenklatura» reinante do aparelho a que chamam democracia, a «intelligentzia»
que nos guia à direita, ao centro e à esquerda.
«Nomenklatura» ou «Intelligentzia» que nem a Tecnocracia soube chegar.
Com tantos estudos, não leram Herbert Marcuse (o do homem unidimensional) e
muito menos Ivan Illich (o que desmontou o governo dos tecnocratas), dois
pioneiros da Ecologia Alargada ou Ecologia da Abjecção.
Vale a pena apontar - antes que perca o rascunho - o que a polémica dos
«canudos» vem ilustrar e confirmar e até que ponto ela é um fenómeno de ecologia
psico-social, onde todos estamos enredados, especialmente os que se dizem
isentos e honestos, os que nunca prevaricam mas que estão sempre à espreita para
descobrir a careca dos prevaricadores.
A careca desta vez é a do Primeiro-Ministro, o que vem mesmo a calhar para
ampliar audiências e vender papel.
Resumindo e concluindo, temos então que:
1.
Somos um país de doutores, os donos da classe dominante e que desempenham também
o patriótico papel de guardas do Gulag: se algum primeiro, segundo ou terceiro
ministro escapar pelas malhas da rede electrificada, há que largar a matilha de
cães de fila em sua perseguição, até que seja apanhado e crucificado.
Assim foi, assim está a ser, assim há-de continuar a ser. Sem volta a dar-lhe,
enquanto for o poder mediático a comandar a agenda ideologicamente correcta.
2.
O jornal «Público» tomou, desta vez, a chefia da matilha (disparou o tiro de
partida) mas qualquer outro dos habituais, à sexta ou ao sábado, o teria feito a
contento de toda a comunidade científica: bastava destacar um jornalista da
redacção para redigir o furo que iria fazer vender mais uns jornais. De
preferência, um jornalista com canudo.
3.
Apanhado nas malhas da surpresa, o 1º Ministro «pressionou» os jornalistas
(impressionáveis mas não pressionáveis), conforme o director o declarou
solenemente em palavras de rei.
Ou seja: os jornalistas são pressionáveis mas os do «Público» nunca.
O comentador Marcelo disse que isso também era grave: o pressionamento de
jornalistas.
Quanto ao resto das acusações públicas, esperava-se uma explicação cabal da
vítima.
O endereço de e-mail que, em roda pé, a RTP 1 faz correr para a gente usar
(pressupõe-se) não funciona: mandei três mails a felicitar o professor Marcelo
(que tem muitos e valiosos canudos), e vieram todos recambiados. Uma outra forma
de censura não prévia mas a posteriori que agora se chama «caixa do correio
cheia» (a transbordar). De certeza que é asescolhasdemarcelo rtp.pt, senhor
Provedor da RTP?
4.
Os guardas do Gulag - todos de canudo - estão, portanto, atentos. Soube-se
mesmo, através do diário «24 horas», que um dos mais grandiloquentes, na AR, era
o ganhão em «estudos» e claro do Bloco de Esquerda, sempre, sempre ao lado dos
oprimidos. Porque não se pode defender o Zé Povinho sem ter canudo.
O deputado Jerónimo é que até agora não lhe ouvi nenhum protesto: nem sequer
apelou à demissão de Sócrates e à queda do Governo.
5.
Só estranhou esta onda de histeria à volta das licenciaturas quem não sabe,
afinal de contas, que o sistema da mediocridade precisa dessas ondas, quem não
percebeu ainda o tipo de ditadura que governa a «nossa» democracia: a tal «nomenklatura»,
a tal «intelligentzia» que além de gerir um povo mal agradecido aos seus
líderes, ainda o manipulam, porque disso se alimentam as audiências, os «share»,
as vendas de papel.
Um círculo que nem sequer é vicioso nem viciado, porque está institucionalizado
e faz parte do jogo de poderes que será utópico querer alterar.
É assim e assim terá que continuar a ser.
O que até é verdade.
Em ecologia da abjecção, causa e efeito perpetuam-se um ao outro, numa escalada
que alguns apelidam de logarítmica. Unidimensional. Como manda e comanda a
unideologia dominante.
6.
Há umas vagas queixas, de vez em quando, de que os diários se encontram em
crise, mas ninguém descortina porquê: depois de absorverem (com polémicas do
estilo ter ou não ter canudo) todo o ar respirável (chamam-lhe às vezes
democracia e liberdade) ficam muito admirados quando se encontram sem ninguém
que lhes compre o produto, e a falar não pró boneco mas uns com os outros da
pleiade dos canudos.
Se o resto do País e da vida não existe para a classe dominante, é bem feito
que, de vez em quando, o resto do País lhes faça um caloroso manguito, não
comprando jornais, ou uma não menos calorosa e maciça abstenção em eventuais
eleições que andem por aí, sempre à espreita de mais uma guerra civil por outros
meios.
E quando falta a guerra do Benfica contra o Sporting.
Aí, chatiados com o fenómeno da abstenção, os guardas vão arranjar mil
explicações para tão estranha escapadela do povo (não diplomado e portanto
inútil) às suas responsabilidades cívicas.
7.
Um pouco mais de bom senso (ou até mesmo de senso comum) e menos poderosos
crânios dotadíssimos de vários diplomas, talvez ajudasse a fazer deste país, em
vez da jaula que é, uma terra um pouco mais habitável, mesmo com os guardas do
gulag todos de espada apontada para os que escapam (ou tentam escapar) à normas
pré-estabelecidas do ideologicamente correcto no sistema que vive de ir matando
os ecossistemas.
8. Ter ou não ter canudo é, portanto, a grande dúvida existencial e hamlética
que se abateu, como um tsunami, sobre o Zé Povinho deste País, manipulado de
manhã à noite (e pela madrugada dentro) por tudo o que é pai da pátria devida e
oficialmente diplomado.
Quem não tem canudo não é gente, nunca foi gente, nem nunca será gente. Não tem
voto em nenhuma matéria, não pode portanto usufruir das regalias e direitos que
só os devidamente licenciados, envernizados e doutorados têm.
9.
Dantes, na outra ditadura, era pão e circo.
Agora é circo sem pão, só circo mediático. E com palhaços mal amestrados.
10.
Quem disse que este caso era mais um caso de Ecologia psico-social?
E quem sugeriu que metessem os canudos num certo sítio que eu cá sei?
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