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1-4-12032 bytes <antes89> ecologia & perestroika (*) – memórias da frente -  inéditos de 1989 – os dossiês do silêncio  

 A CHATICE DE VIR ANTES DO TEMPO

 Lisboa, 9/5/1989 - É sina minha ver-me plagiado nas ideias que a medo tive, que a medo pensei e que a medo tentei publicar, com todas as censuras e inquisições a censurar.

Ideias que, não sendo totalmente originais, também é verdade que nunca as tinha visto antes publicamente defendidas e/ou acarinhadas.

Agora, no semanário «O Independente» (5/ 5/1989), o articulista desenvolve a ideia de fazer de Portugal uma «colónia de férias». Antes isso, do que a colónia penitenciária que tem sido, antes e depois do 25 de Abril,  ou a colónia de Eucaliptos que, desde Salazar, alguns endiabrados sonham.

(Sobre este assunto da colónia de eucaliptos, ver «Crónica do Planeta Terra» (CPT) , in «A Capital» de 29/Abril/ 1989).

Fazer de Portugal um campo de férias era exactamente o que eu tinha escrito na CPT de 8/2/1986, com o título «O Papel de Portugal no Carnaval Europeu - Povo Amável - País Acolhedor.»

Enfim, as ideias não têm registo de patente. Mas deviam ter. E defender algumas antes do tempo, o maior lucro que pode dar ao idiota é levar cacetada no toutiço.

Além de nunca se estar na moda, claro, o que também é incómodo.  

+

Lisboa, 9/5/1989 - Todas as metáforas servem para a Europa dos 12, para o projecto de dinâmica totalitária que a CEE representa.

Leio hoje (6/5/1989), a «fortaleza» Europa, mas não li ainda a Europa como um novo «cancro» ou a Europa «camião-cisterna» a que me tenho referido em alguns artigos, nomeadamente a CPT a que chamei «A Europa do Camião Cisterna» (in «A Capital», 1/6/1985) ou uma outra CPT, intitulada «E no Entanto Move-se - Morte Itinerante» (in «A Capital», 9/7/1988).

+ 

Lisboa, 17/5/1989 - Os slogans da «Frente Ecológica», nos anos difíceis de 1975 e arredores, sobem de cotação na bolsa das corridas partidárias.

«Dar voz aos que não têm voz» foi uma palavra de ordem que se imprimiu nos cadernos da «Frente Ecológica» com 100 exemplares de tiragem.

Imagine-se que, mesmo assim, foi ouvida e os ecos repercutem agora, 14 anos depois: Francisco Louçã, na campanha do PSR para o Parlamento Europeu, afirma que «o PSR dará voz aos que não têm voz» e o primeiro-Ministro reiterou, no Porto, em sintonia com Louçã e com ecos na televisão, que o Governo «quer ser a voz dos que não reivindicam».

Ora aí está, Maria de Lurdes Pintasilgo, como nós, os antigos dos anos difíceis de 1975/76/77, fomos finalmente ouvidos e reproduzidos, na cassete Louçã, pela voz daqueles que, naqueles anos, talvez nos dessem ordem de prisão por dizermos tais coisas.

E assim vai a Perestroika em Portugal.

+ 

Lisboa, 20 /5/1989 - Vir antes do tempo significa «abortar».

É, pelo menos, o que asseguram os dicionários: «expulsão do feto ainda não apto para viver; monstruosidade» - diz, por exemplo, a 5ª edição do «Dicionário da Língua Portuguesa» de Almeida Costa e Sampaio e Melo.

A palavra «precursor» é, portanto, demasiado bonita, face à evidência de palavras como «aborto» ou «monstruosidade», que estão, aliás, mais adequadas à realidade daquilo que sentem, na prática, esses autores de antecipação, visionários, profetas, utopistas, etc.

Lá se vão os mitos do pioneirismo e o elogio dos que vieram ao mundo com a vocação de o transformar, com a vocação de se anteciparem às grandes reformas e revoluções.

Aliás, se cada geração tem, como tudo, o seu tempo próprio de nascer, crescer e morrer - como naturalmente já o defendi, já o escrevi - qualquer antecipação é «forçada» e, se bem me lembro, um puritano ecologista recusa, por questão de princípio, culturas forçadas (ou) de aviário...

«Dar tempo ao tempo» - diz ele, mas é conversa fiada, é mais teoria do que outra coisa.

Uma «monstruosa» impaciência leva-o a pensar sempre antes do tempo. Leva-o a ser um aborto continuado. Ou, como dizia o outro, um «cadáver adiado que procria». E como ele, o senhor Fernando Pessoa, o sabia bem! Quem morre praticamente inédito com uma arca cheia de inéditos, sente bem o que é ser aborto, uma «monstruosidade», um feto expulso antes do tempo.

Continuará ele, o aborto Fernando Pessoa, a saber o vampirismo tentacular de que a sua arca tem sido alvo? E o espectáculo pornográfico de um bando de corvos a devorarem-lhe continuamente o cadáver?

Testemunho de outro «feto expulso antes do tempo» é a obra de Virgílio Ferreira «Contra-Corrente», diário e memórias de uma existência em pé de guerra com todos os conformismos, imobilismos e situacionismos.

Exemplo de impaciência e de antecipação ao tempo, «Conta-Corrente» transformou-se no protótipo de monstruosidade que é vir antes da hora .

A Perestroika, na URSS, vem agora banalizar o que era um discurso de alto risco quando foi pensado, escrito e publicado nos anos 60 e 70. E, como todo o discurso de antecipação, «Contra-Corrente» transpira «ressaibiamento», a que o escritor famoso e largamente publicado Baptista Bastos chamou, com toda a autoridade moral que lhe assiste, «ódio».

Aí está uma coisa - ódio - que nunca transpirou dos escritos de Baptista Bastos...

Sinto-me acompanhado por  todos os ressaibiados que há por aí: com o poeta que morre praticamente inédito com uma obra de génio na gaveta,

com os 100 concorrentes ao grande prémio que só foi atribuído a um

com todos os filósofos enterrados em estado de desgraça

com todos os visionários queimados nas fogueiras de todas as inquisições

com todos os Giordano Bruno e Galileus, que pagam com a vida, ou com a liberdade, terem olhado as estrelas numa terra de excrementos com figura de gente.

Quando o reconhecimento vem tarde e o poeta ainda mexe, o seu discurso já deixou de ser ressaibiado para  ser venenoso, verrinoso, rancoroso. Enfim, insuportável.

Mas como não?

Quem pode perceber a razão de ter sido escolhido  para ficar só uma vida inteira, a falar pró boneco, a gemer na Travessa do Fala-Só, carpindo-se de amargura e solidão, quando trazia no coração todo o amor do Mundo?

Isto de ser precursor - «aborto» ou «monstro», na outra versão lexical - tem variantes e algumas antagónicas.

Nem sempre se é roubado em glória.

Ver-me repetido por Francisco Louçã - «ser voz dos que não têm voz» assegura ele - até tem piada e a minha costela trotskista fica lisonjeada.

Já o empalmanço que os verdes da APU fizeram do nome próprio Movimento Ecológico Português, nome de baptismo de um movimento que eles, entre outros, incluindo anarquistas e libertários, ajudaram a abortar, dá apenas nojo. Dá apenas para cuspir a sopa que eles cuspiram.

Vir antes do tempo, como dirá Zita Seabra, em uma das 150 entrevistas e meia que tem concedido à Comunicação Social, tem o seu preço. E eu estou a arder com os calotes de uma data de caloteiros que, além das ideias, me levaram também os nomes. Nem as palavras poupam, os marotos.

Quando Miguel Esteves Cardoso fala, em tempo de campanha eleitoral, dos portugueses como uma «espécie em vias de extinção», apenas está a glosar em nacionalista o que na «Frente Ecológica» tantas vezes se glosou em universal e transnacionalista: de facto, não poucas vezes chamara eu a atenção para o «homem como espécie em vias de extinção» e relativamente ao qual não se viam as carinhosas atitudes de apelo que, por exemplo, merece a querida Lontra (por parte da deputada Maria Santos), o querido Lince (por parte do arquitecto paisagista Fernando Pessoa) , a querida Águia.

E nada tenho, como é óbvio, contra a Lontra, nem contra o Lince, nem contra a Águia, antes pelo contrário e como está bem de ver. (Ver «Crónica do Planeta Terra», in «A Capital», 24/12/1988, «Bichos & Nichos Ecológicos- Área Protegida»

+ 

Lisboa, 28 /5/1989 - Em textos das edições «Frente  Ecológica» podem encontrar-se referências à «terceira via» que seria a do ecologismo, ou eco-radicalismo, pólo alternativo global ao capitalismo e ao comunismo de Estado estabelecido.

Por exemplo, a CPT de 14/5/1988, intitulava-se «Os Não Alinhados - Definir eco-realismo».

Qual não é o meu espanto quando, talvez sem espanto, vejo hoje (28/5/1988) que um movimento classificado pelo jornal como de «extrema-direita» - Movimento de Acção Nacional - preconiza a «terceira via», «nem capitalismo nem comunismo».

Enquanto vocês adivinham qual é o jornal, consola-me saber que os países não alinhados e que se reclamam também da «terceira via», serão também, segundo esse jornal, de extrema direita.

Já me consola menos que Freitas do Amaral, na campanha para as presidenciais de 1987, tenha igualmente surripiado um slogan que me encarreguei de divulgar nas edições «Frente Ecológica» e que supunha específico do ecologismo ou eco-radicalismo ou realismo ecologista ou eco-realismo:

«Nem esquerda, nem direita».

Volta a consolar-me que a UDP, de inspiração maoísta, em discurso para as eleições do Parlamento Europeu, tenha dificuldades em explicar porque é que o seu nacionalismo e o seu patriotismo não é igual ao nacionalismo e ao patriotismo que outros andam aí a proclamar (piada ao Miguel Esteves Cardoso que, segundo o dirigente da  UDP, teria aprendido  o nacionalismo nas histórias do Astérix).

Volto ainda a sentir-me compensado dos eco-equívocos que sobre os textos da «Frente Ecológica» podem recair, ao ler agora, na revista semanal «Sábado» (10/6/1989), o artigo de Ricardo Leite Pinto, que passa a fio de espada a «adesão dos intelectuais de esquerda ao fascismo e ao nacional-socialismo hitlerista» .

Reacções como as de Ricardo Pinto Leite acho que se devem apenas a um natural espírito de «révanche» de quem sente pesar sobre si o labéu de nacional-socialismo.

Lembram-se quem falava muito de «revanchistas», pronunciado muito à espanhola?

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Lisboa, 9/12/1989 - Só tinha previsto, na  Crónica do Planeta Terra, que se usasse a energia solar para refrigerar reactores de centrais nucleares.

Afinal já está na rua, no mercado, a energia solar para irradiar doentes. Confesso que essa não me tinha passado pela minha mente perversa, sempre à procura de perversidades.

Coloca-se assim, mais uma vez, a questão das ecotácticas desligadas de uma ecoestratégia, questão tantas vezes referida nestas CPT.

A melhor das eco-tecnologias solares pode - desde que utilizada pontual e sectorialmente - ser completa, total e globalmente desvirtuada (pervertida) e posta ao serviço de estratégias e lógicas completamente inversas.

Perversão? Ecoperversão? Fará sentido ser assim tão moralista?...

Uma coisa é certa: sem que se faça a ecorevolução da sociedade «paralela», as tecnologias ecológicas são pervertidas na sua finalidade e, portanto, na sua essência. Na sua natureza, para falar...naturalmente.

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(*) A «Crónica do Planeta Terra», in «A Capital» ( 7/1/1989) intitulava-se «Amnésia Colectiva - Perestroika a granel.»

 

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Última modificação: 22/06/07