<agosto19-fi>
19/Agosto/1990
CARTA DA MORTAL CRIATURA (DO DILIGENTE TRABALHADOR)AO SENHOR DEUS TODO PODEROSO
Grato Te estou, Senhor Todo Poderoso, dono do Céu e da Terra, por todos os
benefícios recebidos, hoje, ontem e sempre, pelas inúmeras bênçãos derramadas
sobre a minha humilde cabeça e que da tua omnipresente e omnisciente vontade
tive a sublime graça de usufruir.
Grato, Senhor de todos os tempos e de todos os lugares, me sinto eternamente
pelas atenções de que rodeastes a minha tão baixa, rasteira e humílima pessoa,
rojada a Teus pés perfumados de sândalo e mirra, olhos míopes postos na tua
infinita e clara Bondade que não tem comparação em qualquer outra bondade do
Orbe Terrestre.
Grato sou e serei , Senhor de todos os mares e oceanos e lagos e rios e
ribeiros, afluentes e subafluentes, grato por não ter transpirado de Ti, Pulmão
do Universo, do teu Adorado Corpo Místico e do divino Espírito Santo que
materialmente incarnas, o mínimo sinal de corrupção, mentira, piedade,
perseguição, tortura, encarniçamento terapêutico(+), hipocrisia, dualismo,
ambiguidade, roubo, anestesia geral, inicuidade, mau cheiro, androginia; grato
por ter escapado com vida aos mil e um atentados, alçapões, armadilhas das
forças do mal que sobre mim, como bênçãos, se têm diariamente abatido; grato por
a inflação ter subido apenas 12 por cento ao (meio) ano, quando era suposto e os
profetas previam que subisse onze e meio; grato por haver ainda dois milímetros
de costa portuguesa onde tomar banho sem risco de hepatite B, por haver ainda
dois milímetros de solo não ardido na terra bendita de Nossa Senhora que é a
Terra Bendita de Portugal; por estarmos destinados, como povo, a cometimentos de
grande vulto; pela predestinação de ti emanada que permite ao meu vizinho
caminhar só com uma perna quando podia perfeitamente caminhar sem nenhuma, se
tivesse perdido as duas no atropelamento providencial e municipal nas Avenidas
Novas; pela comiseração dos senhores que permitem a 50% da população viver em
bairros-da-lata, quando podiam perfeitamente dormir dabaixo das pontes; pela
defesa maternal que o Ministério da Saúde empreende dos nossos interesses e
apetites sexuais, gastando num mês em propaganda a preservativos, pró menino e
prá menina, a verba oficial destinada a um ano de propaganda com educação
alimentar, descontada a que se destina a papel higiénico para os lavabos do
Ministério.
Grato te estou, Senhor de todas as plenitudes, Mago de todos os desejos,
Feiticeiro de todas as orgias, grato te estou e sempre te ficarei, pelos séculos
dos séculos, eras atrás de eras, porque ainda não foi hoje que morri de tédio,
minado, mirrado de stress, esgotamento nervoso, calamidade privada, depressão
endógena, estenunço puro e simples, excesso de trabalho, abuso de teína, cefeína
e carência de + coisas em ina), porque ainda não foi hoje que me suicidei,
contrariando todas as previsões e futurologias do meu astrólogo favorito, ainda
não foi hoje que arranjei coragem para me suicidar; porque tudo corre sobre
rodas, porque nunca a fome foi tão sinceramente fome, o terror tão crua e
cruelmente terror, porque nunca a paz armada esteve tão bem armada até aos
dentes, porque nunca desanuviamentos e «guerra fria» se envolveram connosco em
cópula tão feliz, contraditória e explosiva.
Obrigado, Senhor das Águias e Falcões, Senhor de todos os animais nobres e
altaneiros, Senhor de todas as altitudes e vertigens, abismos e planícies,
florestas tropicais e estrelas candentes, almas, cânticos, púlpitos, anémonas,
virtudes, pérolas, ancinhos, cadeias, morbos, searas, entidades alienígenas,
vírus mutantes, embriagamentos por alucinogénicos, obrigado, Senhor, pelos
desportos de Inverno na neve da Serra da Estrela, pelos desportos de Verão,
pelos desportos de Outono, mas, principalmente, pelos desportos de Primavera,
estação dos suicídios, fase da lua propícia à nostalgia dos estrangulamentos,
capítulo solar de um romance de cobras e ábsides, obrigado pela ternura dos
pássaros em flor, pelas flores rodeadas de pássaros, pela esperança dos colibris
e das anémonas, dos pobres, humilhados e ofendidos em melhores dias, pela
algazarra das mulheres na lota da Ribeira, pelo superior conceito de Tecnocracia
reinante, pela religião dos narcodólares, dos petrodólares, dos sidodólares, (+
compostos de dólares).
Obrigado, Senhor de todos os exércitos, pela guerra fria e quente, pelas
radiações pacíficas dos computadores, pelos terremotos suplementares que foram
acrescentados pelos militares aos que tinhas programado desde o princípio dos
tempos; obrigado pela autorização que nos concedestes, miseráveis propagandistas
do Ócio, das Tenebrosas trevas, dos arrestos sem razão, das canalhices sem
remissão, das algemas sem chave nem fechadura, de mais um dia, uma hora, um
minuto, um segundo de vida desta vida de plenitude num mundo conturbado como
este em que vivemos, vale de lágrimas com poucas zonas verdes, sítio de calor e
febres palustres, inolvidável cansaço de areias e areias sem fim.
Obrigado, Senhor da História e do destino, por todos os D. Sebastião que se
perderam em trágicas empresas de profética brandura.
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agosto19><diario91> [Eu-espectador]
19/Agosto/1991
A falta que faz Deus, meu deus!, a falta que faz a religião! Como pode um ser
humano carregar sózinho tamanho pesadelo como é a existência! Como pode alguém
matar alguém e continuar a viver? O que se passa na alma de um homem assassino?
É preciso ter compaixão de quem praticou violência, crime, tortura, de quem
feriu outra energia, de quem magoou, de quem provocou sofrimento, de quem odiou,
de quem queimou, de quem destruiu. É preciso ter pena de uma alma que, por força
física do equilíbrio natural, pagará as penas eternas do inferno. É isso a
eternidade! O cinema incita à violência, a sociedade incita à violência, a
violência incita à violência. Círculo infernal! Como sair deste círculo? Como
parar, suspender a vida, para viver a morte? Como se abre um parêntesis na
eternidade do sofrimento e do horror?
[Foi escrito quando via «Um Longo Verão», baseado no livro «The Hamlet» de
William Faulkner]