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1-3 < 72-08-19-ie> ideia ecológica - sábado, 19 de Abril de 2003- <abjecção-2-ie>

 

UM MÍNIMO

DE CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA (*)

 

[(*) Este texto de Afonso Cautela, quase 5 estrelas, atendendo à data, foi publicado no jornal «Diário do Alentejo», 4-10-1972 ]

 19-8-1972

    Terrível, no meio disto tudo que ao meio ambiente diz respeito, é que um mínimo de consciência ecológica é logo tachado de alarmismo pessimista pelos funcionários da Inconsciência, da frivolidade e da Ignorância, o que, tudo somado, dá igual a funcionários do Crime.

Terrível é que o maior crime, o maior pecado cometido hoje contra e  humanidade, chama-se exactamente inconsciência ecológica.

Este ciclo vicioso é, creio, o que mais pessimista torna as visões mesmo optimistas sobre o próximo futuro: o ciclo vicioso de serem as massas maioritárias que contribuem pela sua irresponsabilidade, para efectivamente o meio natural se ver destruído dentro de poucos anos.

Já não se trata de uma possibilidade remota., que nos deixe dormir descansadinhos esta noite, porque o "terremoto” está só marcado para amanhã às dez; já não se trata de continuar consumindo nossos gadgets ( para prosperidade da sociedade consumista),  porque o incêndio só nos devorará a casa amanhã às onze: trata-se de já estar a ruir a casa e das chamas já nos entrarem pelas janelas.

A humanidade já hoje se auto-devora numa manifestação colossal de super-canibalismo.

O homem lobo do homem tem sido, infelizmente, ao nível da exploração económica, o leit-motiv deste curto e chato período da humanidade chamado "civilização" ; em sentido mais ou menos figurado, o canibalismo sempre tem existido: ele será, no entanto, um facto generalizado quando a fome endémica do Terceiro Mundo chegar às sociedades armadas e organizadas da abundância capitalista, que de sugar o Terceiro Mundo têm vindo a viver há séculos.

O ciclo fecha-se antes que o mundo subdesenvolvido da miséria absoluta possa reconquistar a terra que lhe roubaram ( e a cultura de que dispunha, a civilização de que desfrutava).

Porque a estas horas a lógica irrefreável do capitalismo galopante já depredou todos os recursos, instaurando a miséria e a fome nos próprios territórios que até agora tinham sido os da super-abundância consumista.

Terrível, também, e sintoma que não deixa lugar a esperanças, é que a lei da quantidade ameaça asfixiar cada vez mais a qualidade, em tudo. E a qualidade ( a vida) desta vez, é não já um caso de luxo ou de requinte, é não já um supérfluo consumista mas um caso de sobrevivência da espécie e das espécies.

Se o maior crime é a inconsciência ecológica e a frivolidade, então nós vemos, diariamente, a esmagadora maioria (precisamente porque o é) cometer esse crime contra si própria: este o ciclo vicioso, este o sintoma de maior pessimismo, esta a contradição que nos estrangula.

É em nome da maioria que os canais de informação e formação pública distraem essa mesma maioria, levando a roda do ano ocupando o tempo e o espaço ora com a histeria das Olimpíadas, ora com a das voltas à França, ora, ora, ora....

A tudo isto - diz-se - a Imprensa, a Rádio,  a TV não podem fugir porque servem o público e o público lho exige. Ciclo vicioso. Os "mass media" jogam na frivolidade e cometem contra a humanidade o crime da Frivolidade em nome da própria humanidade.

Porque é em nome da maioria (da quantidade) que se descartam os problemas considerados pruridos de minorias sem representação estatística, minorias de sensibilidade que nada tem a ver com as maiorias insensíveis a variações de qualidade da existência. Consomem e é tudo.

Este desprezo pela qualidade da existência é perfilhado tanto pelas ideologias reaccionárias como pelas ideologias ditas progressivas (progressistas) mas que só às curvas de rendimento e produtividade atendem,  alegando que urgente e prioritário é

o económico,  deste dependendo o resto.

Eis onde o ciclo se torna vicioso e ameaça estrangular tudo. No desprezo pela qualidade da existência começam todos os fascismos, venham em nome das direitas ou das esquerdas.

Verifica-se esse desprezo,  por exemplo, no caso concreto da poluição pelos ruídos. Qualquer protesto contra a inflação de ruídos e contra a peste que ameaça de colapso nervoso milhões de pessoas, é olhado com um sorriso de desdém, pois há sempre problemas muito mais importantes do que o ruído, algo que nem sequer se vê...Nem mede, nem pesa. Algo que não se traduz estatisticamente. O ruído - argumentam técnicos daqui e dali - não é problema que afecte maiorias, só as sensibilidades mais irritadiças se sentem afectadas.

Tratando-se, com efeito, de um factor qualitativo da existência ( afectando o psíquico e não o material), ao qual a lei da quantidade praticada por todas as entidades não reconhece vigência neva importância, não há funcionário nenhum do Crime Organizado que é a civilização tecno-burocrática que lhe dedique mais do que um sorriso de complacente desprezo.

Em nome dos problemas prementes, de relevância  quantitativa), ou das diversões maioritárias, nega-se pura e simplesmente o direito de publicar uma simples carta ao director, apelando para que as autoridades ponham cobro à vaga de poluição pelo ruído.

No fundo, talvez esse desprezo pela qualidade da  existência se compreenda: é que quanto mais aviltado estiver o cidadão consumidor ( e o ruído é uma fonte inenarrável de aviltamento) mais submisso fica à lei da quantidade que rege a psicose consumista. Um bornal recusará, portanto, publicar uma carta protestando contra o ruído, mas talvez publique outra queixando-se do lixo nas ruas e até dos bilhetes espalhados no chão do metro...

Quer dizer: O lixo é concreto, material, pesável, ocupa espaço, logo é reconhecível e permite protestos. O ruído ainda não é considerado um lixo,  porque só afecta o sistema nervoso e o sistema nervoso da pessoa humana, quem se ocupa ou preocupa disso: é qualquer coisa de que os jornais só se lembram que (não) existe quando noticiam crimes, suicídios, alcoolismo, surménage, neuroses, a verdadeira loucura colectiva de que se encontram possessas populações inteiras no pesadelo das populosas cidades. Das populosas, «progressistas» e «civilizadas» cidades.

Até onde pode ir o desprezo que esta sociedade tecnoburocrática nutre pela vida? Quer dizer: pela existência? Quer dizer: pela qualidade?

Até onde?

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(*) Este texto de Afonso Cautela, quase 5 estrelas, atendendo à data, foi publicado no jornal «Diário do Alentejo», 4-10-1972

 

 

 

 

 

 

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Última modificação: 22/06/07