CAT BOOKS  

DE ABEL CAMPOS ARTIGOT

[Em construção]

AGENDA AC

ARQUIVOS AC

ECOS

THE WAY

newsletter

lugar aos amigos

regressos ac

MY LIFE

MY SOULS

my work

CONTACTOS

short sTORIES-pasta

dixit-pasta

dixit-files

ESPÓLIO AC

my souls

my life

home links

foreign links

versos 2006

VERSOS AC-1

versos ac-2

versos ac-3

versos ac-4

O NARIZ

VERSOS AC-FILES

                                    

  

1-9 - <zanata-1-BD>= bibliografia doméstica =  hemeroteca pessoal do afonso - sábado, 10 de Maio de 2003-novo word

 

 

 [(*) Esta entrevista feita por Afonso Cautela, foi publicada no semanário «O Século Ilustrado», nos anos 60 (?) ]

 ▼

 

No regresso de Itália, onde actualmente se encontra a dirigir um curso de Macrobiótica Zen (Via Monte de La Farina, 42 - Roma), e de passagem para o Brasil, seu país de origem, o engenheiro Flávio Zanata, discípulo do famoso Jorge Oshawa, ficará, a partir de 25 do corrente, mais alguns dias entre nós, e à disposição de quem o quiser contactar.

Aproveitando a oportunidade, publica-se hoje a entrevista que o apóstolo é iniciado Zanata concedeu a «O Século Ilustrado» há cerca de um mês aquando da sua primeira estadia em Portugal.

 

Nos Estados Unidos talvez se deva aos «beatnicks», primeiro, e, depois, aos «hippies» a voga das práticas budistas no Ocidente. Em França o contributo dos surrealistas foi decisivo e a sua mentalização ajudou a irradiar o conceito da «relatividade cultural» contra o imperialismo do Ocidente. Em outros países a outros canais e veículos se ficará devendo a crescente aceitação que o zen vem tendo de há uns anos a esta parte. Traduzido para a língua portuguesa, com ponto de partida no Brasil, única e exclusivamente a FLÁVIO ZANATA se deve a campanha da prática zen, que já hoje cobre uma grande extensão de território e um crescente número de entusiastas.

 

Pois é ele, Flávio Zanata, que na sua simplicidade de homem sábio mas sem pretensões eruditas, sem nenhum ar professoral embora tudo nele indique tratar-se de um mestre, sem estudadas posições de apóstolo e de profeta, embora a sua acção tenha muito de apostolado e de presciência, sem ares de enviado de uma religião mas como simples homem entre os homens, se encontra ao nosso lado, falando do que o apaixona mas sem paixão: o reencontro do ocidental com toda uma sabedoria que seja totalidade existencial, vivência e equilíbrio, reassunção na imensidade cósmica e, ao mesmo tempo, humilde exercício diário de bom senso, paciência, delicadeza e fraternidade. Atento ao que existe ainda de sinal humano nas estrelas ou no extremo da galáxia mas atento igualmente ao pequeno animal que vive perto, e até a nós próprios que totalmente nos ignoramos no infinito que somos. Do infinitamente grande ao infinitamente pequeno vai a gama deste adepto budista a quem, como a todos os práticos de uma sabedoria esotérica, nada do que existe pode ficar indiferente.

 

 

UM ALQUIMISTA MODERNO

  

Formado em Química Industrial pela Escola de Engenharia do Porto Alegre (Rio Grande do Sul), em Flávio Zanata existe muito mais de alquimista do que propriamente de engenheiro ou de técnico como no Ocidente os entendemos.

 

Tendo abandonado a carreira de químico industrial, ela serviu-lhe, no entanto, para entrar mais à vontade nos segredos do regime zen, que possui muito de experimental e de científico, contra o que se pode supor. Aliás, a prática do princípio único que está no centro desse regime, tem pontos de contacto com os conceitos ocidentais de dialéctica, tal como a vamos por exemplo encontrar entre os filósofos pré-socráticos ou «materialistas da Antiguidade».

 

Durante três anos no Japão (de 1959 a 1962), estudou in loco (praticou como ele gosta de sublinhar) não só a macrobiótica zen mas a acupunctura que com ela tem tão estreitas afinidades, sendo amigo pessoal de um dos melhores acupunctores japoneses, com o qual aprendeu a arte.

 

Bolseiro do Governo francês, da UNESCO e do Conselho Nacional de Pesquisas do Brasil, Fávio Zanata permaneceu também em França e na Alemanha, de 1951 a 1959, onde realizou uma série de pesquisas de laboratório.

 

Representou o Brasil em vários congressos internacionais e desenvolveu uma grande actividade de conferencista, desde 1959, muitas vezes acompanhado do mestre Jorge Oshawa, através de vários países da Europa, do Japão, dos Estados Unidos e do Brasil.

 

Deve-se-lhe a divulgação, no Brasil, da obra escrita de Oshawa, tendo iniciado as bases do movimento em Porto Alegre, onde já existem hoje vários restaurantes especializados e lojas de produtos.

 

Dominando oito idiomas (entre eles o japonês, o chinês e o esperanto), várias das obras de Oshawa editadas são tradução sua. «A princípio, não havia ninguém interessado em lançar no mercado essas obras, foi preciso que a macrobiótica se impusesse na prática - esclarece Zanata - para aparecerem editores em toda a parte. De Porto Alegre o movimento estendeu-se ao Rio de Janeiro, onde temos oito restaurantes, a São Paulo e a vários outros Estados.»

 

[ PS.Ramon: (situado nos antípodas do inglês, o esperanto distingue-se por ser o idioma mais inútil do mundo.)] .

 

Não tendo querido até agora violar um dos princípios da sua coerência ética - a prática dinamizando a teoria - a soberania da prática sobre a teoria, o panorâmico sobre o analítico, o vivo sobre o morto, a vivência sobre a ideia, Flávio Zanata tenciona, em breve, escrever os seus primeiros livros sobre essa «tradicional arte de rejuvenescer». «Não tenho querido transformar - afirma - a coisa viva em coisa morta. Não é que eu pretenda imitar os grandes mestres, que nunca escreveram nada, mas entendo que, para contrabalançar os vícios ocidentais há que dar toda a ênfase à prática, à vivência, à vida, e deixar a teoria aos teóricos.»

 

Réplica do jornalista:

«Dos nossos vícios, até fazemos profissão. Esta de jornalista, por exemplo; que se abeira de tudo com o papel e a caneta nas unhas, para tudo reduzir primeiro à palavra e depois à palavra impressa. Duas mortes numa só. Enfim, é um dos preços que pagamos pela civilização de que tanto nos orgulhamos... em família.»

 

Ponderado nas suas reflexões e na sua maneira de ser - «mastigando sempre bem» -, pausado e sem paroxismos nem precipitações nervosas, Flávio Zanata não é um técnico como numa sociedade de técnicos se entende: um especialista que ignora tudo o que sai do seu campo e que deixa sempre ao especialista do lado o encargo de se preocupar com a finalidade última da sua actividade, com a ética do que faz.

 

Apesar da formação de engenheiro, Flávio Zanata é apenas um homem empenhado em fazer da sua própria experiência a grande lição (para si e para os outros), um caminho e uma dádiva aos que queiram escutá-lo, aceitá-lo e, por isso, com ele aprender. Mas aprender na acepção em que um zenista fala de aprendizagem, lição, ensino, educação e saber.

 

Se o queremos ouvir, se com ele queremos dialogar, teremos de nos colocar no mundo em que ele se coloca e de onde parte.

 

Se lhe fazem perguntas em jeito de exame, tribunal ou inquisição, Zanata, como bom zenista, enrosca-se no silêncio. Começa por responder apenas com os olhos (onde brilha um sorriso entre trocista e provocador), depois com gestos e monossílabos esboçados (na aparência insólitos mas de um curioso sentido ritual e iniciático) e por fim, com uma polida, delicada recusa em participar no «jogo». Nesse jogo, que já era o das sabatinas jesuíticas, é hoje o de qualquer interrogatório e caracteriza o sistema escolar ocidental, feito para a memória e para o exame, sistema que caracteriza logo e portanto toda a nossa mentalidade, toda a nossa conduta.

 

«Se realmente quisermos atingir o âmago da vida, temos de abandonar os nossos queridos silogismos» - escreve Suzuki, professor japonês que se tem esforçado por fazer compreender ao ocidental a sabedoria zen-búdica.

 

Mas quanto a nós e em relação ao nosso entrevistado, afigura-se-nos que não se trata de renunciar aos silogismos (já que Zanata é um impecável lógico, através do seu pitoresco pensamento analógico, polvilhado de constantes metáforas) mas aos preconceitos da lógica, do racionalismo, da análise, preconceitos e seus perigos.

 

 DIALÉCTICA DA NATUREZA

  

Fazendo finca-pé no chamado princípio único, a macrobiótica zen deduz dele todo o seu sistema filosófico e alimentar.

 

«Como harmonizar esse método puramente dedutivo com os nossos métodos essencialmente indutivos ou experimentais? »

 

De todas as perguntas que tínhamos escrito para que Zanata elegesse a que mais lhe agradasse como princípio de conversa, ele escolheu esta e o seu rosto animou-se como o de uma criança contende:

 

«O princípio único é absolutamente experimental. Temos que compreender o espírito pragmático do chinês, que vive num país muito frio. O hindu gosta do nirvana que descobriu pelo método dedutivo, pela meditação.»

 

«O chinês e o japonês gostam de trabalhar, chegaram ao princípio único pela alquimia e pela química.»

 

Aqui deverá fazer-se apelo às gavetas da memória e da História: os chineses descobriram a pólvora. Mas não descobriram só a pólvora, como Zanata acentua:

 

«Com isso descobriram as relações das coisas no mundo prático da relatividade, elevando-se daí ao DO, o princípio único. Eles verificaram que esse DO ou princípio único era, a dialéctica da Natureza. Princípio tão simples que qualquer criança o pode entender.

 

«I-DO é a aplicação do princípio único à medicina. ISIORI-DO é a aplicação do princípio único à arte de comer. JU-DO é o princípio único no campo da actividade física e muscular, no desporto.

 

«DO ou princípio único significa integração, aplicável onde se queira: depende do modo de viver de cada um, das suas aptidões e da sua vontade.

 

«O objecto do budismo é essa integração ou sintonia com a ordem universal: por isso teórico e prático ao mesmo tempo. Se você os separa, desaparece. Encontram-se em sustentação recíproca. O hinduísmo cai muito mais no teórico e a cultura ocidental também: esta, no extremo do absurdo que é ficar apenas com o simbolismo das coisas - as palavras e só as palavras.

 

«Na prática do judo, por exemplo, encontra sempre os princípios gerais vivendo nele.»

 

«Automatizar teoria e prática seria assim, portanto, o que o zen pretende.»

 

«A palavra automatizar pode gerar enganos, pois tem na terminologia ocidental um outro sentido. Talvez prefira instintivar. Tornar instintivas teoria e prática, eis o que se chama «adaptabilidade instantânea» e eis o que devemos generalizar a todos os campos.

 

«O exemplo do atirador de flecha: quando a adaptabilidade é perfeita, ele, arco, flecha e alvo são uma coisa só por muito longe que esteja o alvo. Até no escuro. Até com os olhos fechados.

 

«Mas dou-lhe outro exemplo: guiar automóvel é uma prática de adaptabilidade. Se você tivesse que raciocionar de cada obstáculo, perigo ou problema que surge, se tivesse que pensar - que desligar a teoria da prática - em cada emergência, nada ou pouco conseguiria. Ou antes: conseguiria estampar-se em poucos instantes. O que permite a um homem guiar toda a vida um automóvel sem se estampar? (Se tiver um pouquinho de sorte, claro). A «adaptabilidade instantânea». Com ela, está a salvo.

 

«Então guiar um automóvel será coisa mais importante do que viver?»

 

(Aqui para nós e muito entre parêntesis, não tivemos coragem de dizer a Zanata que, infelizmente, e aí todo o drama, cá nos hábitos ocidentais guiar automóvel é negócio mais importante do que viver!)

 

E os exemplos acorrem, vivos, coloridos de um inexcedível pitoresco, carregados de uma convicção faiscante:

 

«Isto é o equilíbrio. Veja com o psicossomático: se o ambiente esfria ou aquece, você só terá frio e calor enquanto não for instantânea a sua adaptabilidade.

 

«Outro caso: se o mundo é invadido por micróbios (mas o mundo está invadido por micróbios, não é verdade? ) eles transformam-se em amigos e não em inimigos, se em vez de ripostar (com vacinas, antibióticos, drásticos medicamentos químicos), responder e corresponder, se em vez de entrar em guerra com eles você fizer um pacto de coexistência e boa vizinhança.»

 

«Mas, engenheiro, o nosso problema de espécie humana é que perdeu exactamente o instinto do animal e ficou à mercê do circuito cultural. Como readquirir o instinto sem renunciar à cultura? »

 

«Pois o que o zen oferece à cultura ocidental é a redução desse circuito: torna as coisas muito mais rápidas. Não deixa o homem dependente de todo um processo que (está visto) deverá chegar ao homem mas nunca mais chega. As técnicas de que ele dispõe (parece um arsenal, o que aí vai!) não são as suas técnicas, nem, principalmente, a técnica relativa à sua actividade de homem: o homem hoje tem técnicas para tudo mas ignora a simplicíssima técnica de se alimentar. Eis o que se lamenta. Eis para o que se propõe uma saída.

 

«Claro que no começo temos que raciocinar. Mas quem disse o contrário? Há que estudar, para saber quais os alimentos equilibrados e equilibrantes. É, no zen, a fase analítica. Chegaram os zenistas à conclusão de que, entre os alimentos, são os cereais, e entre eles o arroz integral, os mais equilibrantes. Através de uma mastigação perfeita, o arroz é completo, um verdadeiro plasma da natureza.

 

«Excepto se o homem, na sua ganância de economista barato, não decidir estragar tudo lançando-lhe, para desequilibrar a natureza, toda a sorte de produtos químicos que, cancerigenamente, alteram todo o equilíbrio interno do cereal, obrigando-o a crescer mais depressa, a desenvolver-se mais, a hipertrofiar-se. Objecto do dinheiro: fazer dinheiro. Mas digamos nós qual o objecto do alimento: dar saúde, coisa esquecida, se só se procura facturar. Se para economizar é preciso armazenar, adicionam-se aos venenos que faziam crescer os venenos de conservação, corantes, plasticizantes, o diabo: toda uma química que intenciona tornar o produto bonitão, cheiroso, brilhante, à custa de o desvirtuar e desvirtuar o próprio objecto do alimento que - já disse - é equilibrar.»

 

Ocorreu-nos aqui a vaga de pesquisas em torno do problema do cancro, todas viradas para a procura do vírus. Lamentável - à luz de sábios higienistas como Zanata - é que não se ataque em outra frente: o desequilíbrio que a indústria química imprimiu, de raiz, nos alimentos. No entanto, talvez seja a própria ciência (?) ocidental que classificará de impertinência esta denúncia empreendida por Zanata e outros que, como ele, vêem no desequilíbrio a origem de muitas doenças endémicas ou doenças de civilização.

 

 

O QUE SE NEGA É O EXCESSO

 

 

«Uma das acusações feitas à macrobiótica é a falta de alimentos crus que preconiza nas suas dietas.»

 

Resposta de Zanata:

 

«O crudivorismo não leva em conta o princípio do equilíbrio, e, como tal, erra. Não se pode pedir ao esquimó que coma frutas e verduras. Precisa de lhe dar gordura animal e alimentos ricos em proteínas, senão mata-o.

 

«Mas a macrobiótica não deixa de aconselhar coisas cruas. Na devida moderação e em função da época, da estação, da actividade do indivíduo.»

 

«Porque negam o açúcar? »

 

«O que se nega, ainda e sempre, é o excesso. O excesso de açúcar. Do industrial, todo e qualquer. Mas da frutose ou açúcar dos frutos, só o excesso prejudica. Se não se gasta ou queima a glicose ingerida, o excesso vai acidificar o sangue. Se você fosse um pássaro, andando e voando, gastando açúcar em actividade física e muscular, então sim, devia ingerir muito.»

 

«Pois é, infelizmente não sou pássaro, engenheiro... »

 

«Com a actividade intelectual intensa, não se gasta o excesso de glicose.. Não esquecer que os cereais têm já e também açúcar. O próprio arroz, quando em excesso, deixa de ser o mais maravilhoso dos alimentos para se transformar numa maldição. Basta que após o processo da insulina, no pâncreas, deixe resíduos que vão tornar-se corpo estranho no organismo.»

 

«Porque aconselham uma mastigação tão intensiva? »

 

«Para extrairmos a vida dos alimentos é como o pesquisador de ouro que o queira extrair da ganga: temos que mover os alimentos, ensalivar, pois ensalivação e desintegração andam conjuntos. Quem come rápido, deixa o ouro todo na pepita. Come muito e tira pouco. Paga a pressa com úlceras, queda do cabelo, doenças do aparelho digestivo.»

 

«Existe escravização ao regime do arroz? »

 

«Há doze anos que pratico arroz. A princípio, saía fora, sentia imediatamente consequências. Há que passar o período de gestação. A libélula é escrava do casulo até sair. Quem estuda violino, é escravo das regras da sua arte. Se guia automóvel, idem.

 

«É esse período até à adaptabilidade que os detractores chamam escravização.»

 

«Que vantagens encontra no jejum? »

 

«Não pode nem deve ser praticado ao acaso. Tem, porém, vantagens enormes.

 

«Quando sinto que vou constipar-me, paro de beber e de comer. Ponho em funcionamento todo o meu organismo para reagir e combater o agente patogénico. A digestão ocupa e gasta grande soma de fluxo energético e vital. A própria macrobiótica é um jejum, porque que não dá trabalho de digestão ao organismo. Pela mastigação perfeita, tudo já vai no estado de plasma.»

 

«Toda a tragédia da cultura ocidental seria, portanto, a mastigação? »

 

«Parece blague mas é mais verdadeiro do que parece tal afirmação.

 

«Sim, mentalmente o ocidental também sofre da preguiça de mastigar: esse o erro de toda a sua educação. Como ensiná-lo a pensar? Como evitar que se continuem a fabricar fonógrafos em vez de homens e que o nosso cérebro esteja transformado numa fita de registo magnético?

 

«O oriental zenista mastiga antes de ingerir e por isso assimila: mastiga como pensa, digere como assimila, pensa como digere.

 

«O primeiro regime alimentar faz imitadores, macaquinhos de feira. O segundo faz criadores.»

 

 

 

A ESCALA YIN-YANG DOS ALIMENTOS

 

 

«Precisamos de açúcar como de ar. Mas, ingerido em grande quantidade, vai mobilizar toda a insulina e a parte que não entrou na reacção fica a acidificar, como corpo estranho.»

 

«Porque recusam os zenistas a batata e o tomate?»

 

«Além do potássio em dose industrial, outros alcalóides: solamina, nicotina, estricnina, abundam nisso. Veja os insectos. As formigas nem se chegam ao tomate e à batata.»

 

«Há maneira de estabelecer uma hierarquia de alimentos?»

 

«O pêndulo radiestésico é uma maneira de os avaliar e portanto, classificar na ordem do equilíbrio químico, quanto à sua ordem na escala inn-iann, do mais negativo ao mais positivo. Análise química é outra maneira, mas talvez mais lenta.

 

«Parente meu é engenheiro bioquímico, e sabe de tabelas de elementos que é um negócio sério. Mas já fez duas operações cirúrgicas e tem uma filhinha com anemia perniciosa. Sabe de todos os alimentos sua composição, mas não pratica o que sabe.

 

«Eis o mal de toda a ciência ocidental, e nunca é sabedoria.»

 

«Qual a importância da acupunctura em que é mestre prático?»

 

«Terapêutica paleativa, acupunctura ajuda a acelerar a cura. A alimentação de regime limpa o terreno, mas a acupunctura equilibra o sistema energético, já que doença é também desequilíbrio energético.

 

«A propósito, escreva no seu jornal: o médico chinês tradicional só ganhava honorários quando o paciente readquiria a saúde. Parece-lhe uma medida civilizada, não?»

 

O conceito de adaptabilidade instantânea é tão importante na dietética de Flávio Zanata como o de intoxicação no pensamento neovegetariano de José de Castro e Indíveri Collucci.

 

Trata-se de pôr o acento tónico na possibilidade de resposta que o organismo possui - ou deve possuir - a toda a agressão externa.

 

«Um adepto do regime alimentar zen sabe que faz frio e calor porque ouve dizer aos outros. Pois ele nunca sente frio ou calor.»

 

Esta afirmação, com algum exagero e seu quê de boutade ilustra, no tanto, perfeitamente o que deve entender-se por «adaptabilidade instantânea».

 

O complexo psicossomático deverá encontrar-se de tal modo euilibrado e treinado - o relógio individual certinho com o relógio cósmico que a uma agressão externa as defesas individuais sejam automaticamente mobilizadas.

 

(Repare-se, aqui, na importância da palavra automatização, conceito desvirtuado também pelos hábitos ocidentais que a confundem com desumanização.)

 

Mais: indivíduo e meio, homem e cosmos devem constituir unidade indissolúvel: não só dialéctica, mas material.

 

«Um atirador de flecha dispõe do arco e treina-se, durante semanas, num alvo próximo. À medida que automatiza ou instintiva esses movimentos, ele pode apontar o alvo e afastá-lo, fechar mesmo os olhos ou atirar às escuras, que tem 99 probabilidades contra uma de acertar. Homem, flecha, arco e alvo são um todo indissolúvel.»

 

Estas palavras de Flávio Zanata ilustram o valor da automatização no trabalho de libertar o homem. Ele deve e pode adquirir todas as técnicas, qualquer técnica - atirar a flecha, escrever a máquina, dominar o alfabeto, tocar piano, etc.. - Não para se escravizar a elas mas para se realizarem mais completamente.

 

As mesmas palavras ilustram também o valor e soberania da experiência ou vivência em face da pura teoria, da pura análise. Qualquer técnica só tem interesse quando integrada na tal indissolúvel unidade.

 

«Senhor engenheiro Zanata: os detractores do regime alimentar zen falam de uma escravização. Quem adopta o regime - dizem - dificilmente pode retroceder e só através de perturbações graves o consegue. Que existe de verdade nesta acusação? »

 

«O que se designa de escravização é o período de subordinação à técnica de qualquer arte. Quem se treina para pianista, fica escravo das regras do solfejo e de todas as leis que regem essa técnica, necessárias para a fase da arte, para a fase da execução ou criação.

 

«Qualquer arte impõe uma disciplina prévia e só depois o artista ficará livre para criar.

 

«Ora a arte de comer é tão importante como outra qualquer. E quem, a propósito do pianista ou do atirador da flecha, irá falar de escravização?»

 

Flávio Zanata completa a sua ideia:

 

«Na macrobiótica zen há, de facto, um período em que o organismo parece ficar escravizado ao regime do arroz. Mas é apenas enquanto não readquire o treino das suas leis, o equilíbrio automatizado da sua técnica de comer.

 

Quando consegue o estado de «adaptabilidade instantânea», encontra-se ele no mesmo ponto em que se encontra o pianista quando executa Beethoven - já nem olha para a pauta ou para as teclas, nem se importa já com as cansativas regras do solfejo -, ou do atirador da flecha, capaz de, mesmo no escuro, acertar na muge.

 

«Embora automatizando todos os movimentos, reeducar o organismo para a técnica elementar, eis o que se pretende.»

 

Desejar atingir este ápice de equilíbrio não quer dizer que se atinja mesmo, ou que os métodos preconizados sirvam.

 

Mas propô-lo como objectivo a atingir, parece um sinal que abona como de algum senso e bom senso o regime alimentar de que Jorge Oshawa foi modernamente o mais activo divulgador.

 

 

SABER «ENCAIXAR»

 

 

Ponto fascinante que relaciona a prática de Flávio Zanata com certos pacifistas e defensores da não violência, é a aplicação que ele faz do princípio único à actividade física em geral e aos desportos em particular.

 

«Violência contra violência é própria dos ocidentais extrovertidos, da sua cultura analítica, voltada para a guerra das ideias tanto como para a guerra física.

 

«O prático do princípio único - Yin e Yang - sabe que a um ataque (Yin) não se deve ripostar com outro ataque mas corresponder com delicadeza...

 

«Cristo mandava que à bofetada na direita, o cristão oferecesse a esquerda... E a cruz de Cristo representa o princípio vertical, negativo, dinâmico, expansivo, corrigido pelo princípio horizontal, positivo, centrípeto, yang.

 

«O judo é a arte de aparar os golpes e não a arte de lançar os golpes sobre o adversário. Toda a técnica do judo reside no «encaixe», não na agressão. Ou antes: reside em saber efectivar a síntese de ambos.»

 

Não se pode, pelo menos, negar pitoresco a estas metáforas de Flávio Zanata que não deixa de lamentar a cultura ocidental pelo seu apego mórbido ao símbolo desligado da coisa. Semelhante acusação vamos encontrar, por exemplo, em Michel Foucault e, no entanto, é quase garantido que se ignoram um ao outro. Apesar do caos, uma certa ordem parece pois reinar no universo, para que se verifiquem estas e outras curiosas coincidências. É ainda Flávio Zanata que nos alerta para as coincidências, raíz como se sabe de toda a prática mágica, de que a técnica moderna não seria mais do que uma variante.

 

(*) Esta entrevista feita por Afonso Cautela, foi publicada no semanário «O Século Ilustrado» , nos anos 60 (?) ☺

 

 deste web site.
Última modificação: 22/06/07