|
|
|
CONTACTOS VERSOS AC-1 versos ac-2 versos ac-3 versos ac-4
|
1-2 - <88-10-15-di-ie> ÚLTIMO GRITO DA MODA «IMPIEDADE» DIZ O PAPA (*) (*) Este texto de Afonso Cautela, nada por aí além, foi publicado com este título no jornal «A Capital», 15-10-1988, «Crónica do Planeta Terra» [15-10-1988, in «A Capital] - Ao traçar, em Estrasburgo, no Parlamento Europeu, aquilo que Fernando Balsinha (Telejornal, 10-10-1988) considerou um «retrato pouco lisonjeiro do europeu», o Papa notou com certeza a contradição do seu discurso e assumiu-a, já que a Europa - segundo dizem as estatísticas - se gaba de conter 54% de católicos no seu bojo... Se a Europa é esse monstro de «impiedade» que o Papa sugeriu, resta saber se é por ter catolicismo a mais ou cristianismo a menos. Budistas, por enquanto, não chegam a 1 %, pelo que estão isentos de responsabilidades no Mercado Europeu. Nas palavras do Papa, o direito à vida e à sobrevivência (os direitos ecológicas do cidadão à saúde, à segurança, ao silêncio) completam os direitos de ordem política, económica e social, mas são algo de novo, algo de tão novo na nomenclatura tecnocrática de todas as ideologias desenvolvimentistas, que também ele, Sua Santidade, se arrisca a não ser ouvido. Quanto mais nós, franco-atiradores, para aqui ladrando no deserto, à espera de melhores dias. A velocidade a que se propaga a destruição ecológica dos recursos naturais e dos ecossistemas organizados do Planeta Terra, faz pensar com pessimismo em qualquer hipótese de retrocesso ou de estabilização. Se eles já nem ouvem o Papa, quem vão ouvir? A Crónica do Planeta Terra? O mundo está a desfazer--se - dizem as estatísticas - -e nada indica que possa inverter a marcha para o abismo, com as medidas pontuais, casuísticas, que a chamada política do ambiente põe em prática, quando põe. Há 15 anos, o alerta já era este e desde então nada mudou para o lado da esperança, antes pelo contrário: acumularam-se os sinais de apocalipse e desespero Hoje, a morte dos mares tornou-se rotina dos noticiários internacionais: fala-se na morte do Adriático, do Mediterrâneo, do Báltico e do Mar do Norte, com a mesma naturalidade, e a mesma resignação, a mesma indiferença e o mesmo cinismo com que, há 15 anos, se falava no biocídio de várias espécies animais. Hoje, a ciência diz ter demonstrado a existência de um buraco na camada de ozono que protege a Terra das radiações ultravioletas, e ainda não chegaram à estratosfera os clorofluorcarbonetos que os aerossóis têm vindo a debitar nos últimos 10 anos. Quando ao buraco, que já está, se juntar o efeito dos gases que irão chegando entretanto à estratosfera, haverá ainda ozono ou será tudo buraco? A "inércia da asneira", que é também uma "inércia da escalada", não permite paragens rápidas no crescimento industrial, mesmo que surgisse algum governo, alucinado de bom senso, com a vontade política suficiente para suster a catástrofe e desmantelar, uma por uma, as centrais nucleares e outros sarcófagos da chamada civilização ocidental. O "crescimento zero", preconizado no início dos anos 70, caiu em descrédito pelo carácter utópico da proposta: aliás, era essa a intenção de quem lançou o slogan. Todos sabiam impossível travar o crescimento industrial, pelo que a melhor maneira de ridicularizar e desacreditar os movimentos ecologistas era atribuir-lhes uma proposta que eles nunca fizeram, era propor o impossível, a que se chamou "crescimento zero". Se a inércia existe nas estruturas industriais, incapazes de se reconverter ou auto-suspender, se o sistema é um todo e não dispensa nenhuma das partes, se só os «travões naturais» podem fazer ranger os freios da desenfreada sociedade de consumo, cada vez mais histérica a leste e a oeste, aos gritos de «mercado único», como um D. Sebastião que viesse salvar-nos numa manhã de nevoeiro, se nenhuma esperança brilha ao fim do túnel da engrenagem triunfalista, que só vê cifrões atados em cifrões, enquanto continua esmagando, com números, objectos ou mercadorias, as pessoas, e embalando os cadáveres em celofane, é ao nível dos conceitos e nomenclaturas que se verificam ainda os maiores bloqueios. Já ninguém ouve ideias, só se repetem slogans. E os poucos que ainda pensam, acabam por desistir, com as ideias a desceram de cotação na bolsa das prioridades. O pensamento enferrujou e substituiu-se por uma ladainha de lugares-comuns, repetidos pelos lideres dos lugares-comuns (os demagogos), e depois pelos heróis do lugar-comum que são, por obrigação, os jornalistas. Em vez de ideias, produzem-se slogans. Não se trata já de viver ou de saber como orientar os países, ou mesmo de planear, quinquenalmente, para construir um futuro qualquer. Como já ninguém, verdadeiramente, acredita na futuro, trata-se só de "queimar os últimos cartuxos", no crepúsculo da 25.ªhora que passa, que vem aí. Mesmo nos países do colectivismo económico, a palavra «planeamento» deixou de se ouvir. Consome-se o presente e é tudo. Enverniza-se a angústia, como as novas tecnologias gráficas da cor e do papel couché o sabem fazer de maneira habilidosa e sedutora. O mundo é que continua, para milhões de pessoas, cada vez mais a preto e branco, mesmo com televisão a cores . Afinal, basta salvar as aparências: a ruína ecológica e a sociedade de consumo (que é também a do luxo, do lixo e do desperdício) têm bom aspecto, vestem-se bem, sintonizam o último grito da moda, nesta Europa, mítica terra de Promissão, que, feita em cacos, exalando o último suspiro, se oferece ainda assim como paraíso a conquistar pelos portugueses. ---- (*) Este texto de Afonso Cautela, nada por aí além, foi publicado com este título no jornal «A Capital», 15-10-1988, «Crónica do Planeta Terra» |
deste web site.
|