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PÁGINAS DE ANTOLOGIA

 UM É TUDO, E TUDO É UM (*)

 Cada gotinha de seiva contém a essência da árvore toda.

MAHARISHI MAHESH YOGI

 *

Ver um Mundo num Grão de Areia

E um Paraíso numa Flor Silvestre,

Conter a Infinidade numa mão cheia

E a Eternidade numa hora campestre.

WILLIAM BLAKE

 *

A realidade existe porque você está de acordo com ela. Sempre que a realidade muda, o acordo foi mudado. A História da Ciência chama a isto uma mudança de paradigma. Este conceito foi apresen­tado pela primeira vez pelo notável historiador da ciência Thomas Kuhn, no seu livro The Structure of Scientific Revolutions ( A estrutura das Revoluções Científicas), onde descreve um paradigma como sendo uma estrutura científica que explica a realidade. E como se fosse uma cerca que encerra todos os factos científicos do momento; incorpora a visão que então se tem do mundo. Por exemplo, até 1453, todos concordavam que o Sol nascia no leste e se punha a oeste. Este ponto de vista era atestado pelos sentidos, e todos os acontecimentos que precisa­vam de ser explicados pela ciência estavam de acordo com este facto. Porém, no século XV, houve uma mudança. Os observa­dores começaram a notar novos acontecimentos na natureza. Uma vez que a natureza é infinita e sempre presente, seria mais acer­tado dizer que os homens começaram a reparar em coisas que até então não tinham notado ou não tinham querido ver. Quando Copér­nico levantou a hipótese de que o Sol não se movia no céu, mas, ao contrário, era a Terra que girava à volta do Sol, houve uma revolução — o antigo paradigma foi derrubado.

Revolução é a melhor palavra para esse processo, porque tudo o que a antiga realidade explicava tinha de ser reinterpretado. Quando um carrinho de maçãs se vira, temos que recolher de novo tudo o que estava nele.

O que é importante observarmos aqui é que, na época, ninguém pensou querer que o paradigma mudasse. Vemos hoje que as teorias de Copérnico, Galileu e Newton deram origem a uma realidade incrivelmente interessante e rica. As pessoas naquela altura não pensavam assim; todos os que tinham interesses na opinião ortodoxa, todas as pessoas sérias, que pensavam correctamente, se opuseram sinceramente à «nova ciência».

O paradigma não é um facto em si mesmo, é um conceito. Para que a realidade mude, o conceito deve ser aceite, e isso só pode acontecer ao nível da consciência colectiva. Génios como Newton e Einstein mostram o caminho — podemos dizer que são os primeiros a precipitar a nova realidade —, mas todos têm de ir atrás para que se aceite a mudança como estando a acontecer «realmente». Actualmente, mais de meio século depois da Teoria Geral da Relati­vidade ter sido proposta pela primeira vez, os seus insights ainda não são do conhecimento geral. Há quinze anos atrás, a relatividade era considerada demasiado difícil para que os estudantes do ensino secundário a pudessem entender e, ainda hoje, muitos professores de fisica têm apenas uma vaga ideia do que ela propõe. Mas ela é uma realidade. A realidade é aquilo com que estamos de acordo, e qualquer pessoa que tenha visto a natureza através dos olhos de Einstein, bem como as duas gerações seguintes de novos físicos, compreende que ocorreu uma grande mudança cujas ramificações irão, eventualmente, abalar todos os postos avançados de opinião aceite.

A natureza é infinita; portanto, nenhum paradigma científico pode explicá-la totalmente. Uma vez que mudemos a nossa visão da realidade, a natureza tem muito mais realidade para nos mos­trar. Temos de compreender plenamente que a realidade pode mudar sempre que a nossa visão da natureza e das suas possibilidades infinitas decida que é preciso haver uma mudança. A maioria das pessoas não pensa assim. Pensam, por exemplo, que é verdade que a Terra gira à volta do Sol e não o contrário.

De facto, esta questão é puramente um problema de perspec­tiva. Tanto a Terra como o Sol se encontram suspensos no espaço vazio. Os seus movimentos acompanham o movimento maior de rotação da nossa galáxia, e a própria galáxia está a distanciar-se da fonte do Big Bang a uma velocidade incrível.

Aceitar que a Terra gira em torno do Sol ou que o Sol gira à volta da Terra depende da posição em que se está, daquilo que se quer saber e de como pensamos lá chegar. Os astrólogos medie­vais estavam principalmente interessados em assuntos que podiam ser bem compreendidos se a Terra fosse colocada no centro das suas cartas astrológicas. No entanto, se você quiser ser rigorosamente exacto, será melhor e mais simples conceber um sistema solar onde o Sol está no centro, porque então todos os planetas giram em torno dele em elipses simples e regulares. No modelo antigo, os planetas tinham que recuar e fazer o chamado «movimento retrógrado». Ao observarmos o céu nocturno, veremos exactamente esse movimento aparente dos planetas. A realidade dos antigos era essa e, portanto, manteve-se nas cartas astrológicas até aos nossos dias.

Normalmente, as pessoas não aceitam factos que não se encaixem na sua visão do mundo. Se lhes for dito ou mesmo se virem com os próprios olhos que o cancro se pode curar espon­taneamente, que se podem remover porções do cérebro sem pre­juízo da mente, que um atrasado mental pode tocar um concerto de Tchaikovsky sem nunca ter tido lições de piano, que idiotas congénitos podem fazer cálculos matemáticos complicados num instante ou que seres humanos podem andar sobre brasas quentes (para citar apenas alguns dos temas da actualidade acerca dos quais possam ter lido nos últimos dois anos), ainda assim estes acontecimentos não têm qualquer realidade até que algo mais básico aconteça. As coisas mais básicas que fazem falta são: primeiro, uma nova explicação que funcione melhor do que a velha e, segundo, uma mudança na consciência colectiva para criar plenamente a nova realidade.

Tenho vindo a propor que a saúde perfeita é uma realidade para qualquer pessoa e que cada um pode expandir o seu quinhão de inteligência infinita. Seja o que for que a mente do homem possa conceber, a mente do homem pode realizar. Uma enorme extensão da natureza, não explicada pela visão actual do mundo nem pela ciência moderna, está prestes a revelar-se. À medida que isso for acontecendo, a consciência colectiva descobrirá uma rea­lidade humana muito mais rica do que a que conhecia antes. Na verdade, esta é a única razão para a humanidade — uma colecção de mentes individuais — mudar a sua visão da realidade; a possibilidade de crescimento está inerente em nós. As nossas mentes são uma parte e uma parcela da natureza e, por isso, compartilhamos da força da evolução que faz com que tudo na natu­reza progrida, para revelar mais e mais das possibilidades da inteligência.

É compreensível que qualquer novo paradigma encontre resis­tência. Cada paradigma explica tudo. O nosso actual paradigma, que afirma que é «impossível» que a realidade interior de uma pes­soa se harmonize plenamente com a realidade exterior do mundo, é agora aceite como correcto. O novo paradigma também irá explicar tudo, porém explicará muito mais. Eis alguns sinais da mudança e das coisas que estão prestes a ser explicadas: 

1. Quando ratos de laboratório são treinados para realizar uma nova tarefa, como aprender a correr através de um labirinto complicado, alguns pesquisadores descobriram que ratos noutras par­tes do mundo são capazes de levar a efeito a mesma tarefa mais facilmente. Estes ratos não estão relacionados geneticamente com o primeiro grupo; são simplesmente ratos. Não têm qualquer comu­nicação ou conexão física com o grupo inicial. Parecem aprender mais rapidamente só porque o primeiro grupo já aprendeu a realizar a tarefa.

2. Ainda mais fascinante é a história de alguns macacos japo­neses que vivem em estado selvagem na ilha de Koshima, fora das ilhas japonesas principais. Este caso científico tornou-se bastante famoso por causa de Lyal Watson, biólogo inglês, que relatou o incidente no seu livro Lifetide( A Tendência da Vida) . (Watson escreveu uma série de livros fascinantes sobre acontecimentos da natureza que desafiam a actual linha de pensamento nas fronteiras da ciência.)

Logo após a Segunda Guerra Mundial, cientistas japoneses que estavam a estudar essas tribos de macacos deixavam batatas-doces na praia, comida que os macacos apreciavam muito. No entanto, os macacos tinham dificuldade em comer as batatas-doces por causa da areia que as cobria depois de serem lançadas pelos cientistas. Então, em 1952, uma macaca jovem, a que os cientistas chamaram Imo, teve a ideia de lavar as batatas num riacho. Watson chama génio à inteligência que ela teve para encontrar uma solução tão original para o problema, comparável à descoberta da roda pelo homem. Os outros macacos jovens observaram Imo, perceberam o truque, e logo muitos deles estavam também a lavar as suas batatas.

Em breve, todos os macacos jovens estavam a lavar a sua comida suja, contudo, é interessante notar que os macacos adultos com mais de cinco anos só o faziam se estivessem a imitar directamente um macaco mais jovem. No Outono desse ano, um grande número de macacos de Koshima estava a lavar a sua comida, mas agora no mar, porque o «génio» da tribo, Imo, descobrira que a água salgada não só lavava a comida como também lhe dava um paladar especial que os macacos apreciavam. Watson fixou arbitrariamente em noventa e nove a grande quantidade de macacos que fazia isto. Então, uma noite, o centésimo macaco aprendeu a lavar a sua comida. Watson relata-nos um fenómeno extraordinário que daí resultou:

O acréscimo do centésimo macaco elevou aparentemente o número para além dum certo tipo de limiar, forçando-o além duma espécie de massa crítica, pois, naquela noite, quase todos na colónia estavam a fazer o mesmo. Não apenas isso, mas o hábito parece ter saltado barreiras naturais e ter apare­cido espontaneamente — como os cristais de glicerina em frascos fechados de laboratório — em colónias de outras ilhas e numa tribo de Takasakiyama, numa das ilhas principais.

 De acordo com a teoria da evolução proposta por Darwin e sustentada na forma moderna pelos geneticistas, este acontecimento é impossível. Como pode uma característica ser passada espontaneamente na mesma geração de uma dada espécie, para já não falar de ser passada a todos ao mesmo tempo e em vários luga­res separados entre si no espaço? A glicerina em frascos de vidro, de que Watson nos fala, é um exemplo do mesmo tipo, onde o novo comportamento não foi sequer aprendido por uma espécie viva. É extremamente difícil fazer com que a glicerina se crista­lize; contudo, após a primeira conquista bem sucedida para induzir a cristalização, a glicerina cristalizou espontaneamente em frascos de vidro selados de outros laboratórios. Assim como no «fenómeno do centésimo macaco», a inteligência actuou duma maneira auto-referente, saltando barreiras de uma forma «impossível». Mas este é simplesmente o comportamento natural da inteligência — age sobre si mesma, por si mesma e através de si mesma. Não conhece barreiras absolutas. É claro que a inteligência não salta fora dos seus limites ao acaso. Ela respeita os seus próprios caminhos. No entanto, também sabe como criar novos caminhos. Criam-se novas realidades quando surge a necessidade disso.

Tendo em mente o que falámos sobre a consciência colectiva, o comentário mais significativo de Watson foi: «Pode ser que quando um número suficiente de pessoas considere algo como sendo verdade, isso se torne verdade para todos». Einstein disse sensivelmente a mesma coisa a propósito das suas ideias sobre a teoria da relatividade.

3. Se a consciência colectiva é real, então devemos ser capazes de fazer qualquer coisa com ela. Nesse sentido, a organização de Meditação Transcendental tem conduzido várias experiências com a finalidade de saber se a consciência colectiva pode ser estimulada e dar maior apoio à vida. Os resultados são fascinantes, uma vez que servem de testemunhos bastante concretos para o novo paradigma. Até agora, foram feitas dezenas de experiências. Mencionarei apenas as mais importantes.

Em 1976, um estudo publicado pelo psicólogo Candace Borland mostrou que, quando 1 por cento da população de uma cidade começa a meditar, o índice de criminalidade nessa cidade começa  a diminuir espontaneamente. Usando um grupo de onze cidades americanas como amostragem, nas quais se sabia comprovadamente que 1 por cento da população aprendera a técnica de MT, o Dr. Borland descobriu diminuições no crime da ordem dos 16 por cento ao ano. A comparação foi feita com cidades análogas onde, como no restante da América, a taxa de criminalidade estava a aumentar. Este estudo tem sido repetido muitas vezes, usando-se centenas de vilas e cidades, sempre com resultados semelhantes. Em 1979, um grande grupo de praticantes de MT reuniu-se na Universidade de Massachussetts, em Amherst. Os trabalhos incluíam períodos diários de meditação em grupo. Fisiologistas da Universidade Internacional Maharishi, de Iowa, mediram a actividade cerebral de indivíduos que, na mesma altura, meditavam em Iowa. Sem terem qualquer contacto com o grupo de Amherst ou qualquer conhecimento acerca de quando este grupo meditava (estava a ser usada uma técnica avançada de meditação, os MT-Sidhis), os meditantes de Iowa mostraram uma maior coerência das ondas cerebrais, exactamente no momento em que o grupo de Amherst começou a praticar as suas técnicas. Esta coerência não esteve presente antes nem se repetiu depois deste período específico.

No Inverno de 1983, um grande grupo de meditantes, cerca de sete mil e quinhentos, reuniu-se em Iowa para outra conferência que incluía a prática de MI em grupo e a técnica avançada de MT-Sidhis. Os sociólogos estudaram mais de uma dúzia de variáveis que pudessem ser influenciadas ao nível da consciência colectiva. Usando técnicas estatísticas bastante sofisticadas e fiáveis, descobriram que se produziram mudanças notáveis. Exactamente nesse período, o mercado de valores alterou-se por completo, depois de meses de estagnação, e voltou a animar-se, subindo quase em linha recta até ao último dia da conferência. Logo que acabaram estas meditações em grupo, realizadas pelos sete mil e quinhentos participantes, o mercado imediatamente decaiu também em linha recta. Outros índices também mudaram, apesar de não tão drasticamente. Durante esse período, houve menos desastres de automóvel, a entrada em hospitais baixou, o índice de criminalidade decresceu e publicaram-se menos notícias sobre conflitos internacionais.

Estes resultados parecem impossíveis a não ser que compre­endamos que a realidade é modelada ao nível da consciência colec­tiva. Sendo assim, estes resultados são fascinantes e altamente pro­missores para tomar a realidade humana mais positiva e progressista. Nos últimos quinze anos têm-se verificado resulta­dos semelhantes em dezenas de experiências, testando os efeitos da meditação sobre os índices nacionais de criminalidade, conflitos militares, acidentes de automóvel, incidência de doenças e várias outras medidas da qualidade de vida em geral. De acordo com o actual paradigma, estas variáveis não têm qualquer relação entre si. Não há qualquer razão que explique porque devam melhorar em conjunto, nem qualquer razão que explique porque devam melhorar espontaneamente em correlação com a meditação de gru­pos de pessoas distantes.

Estes resultados são possíveis porque a inteligência é uma só. Se a inteligência individual pode curar espontaneamente um pro­cesso de doença, trazer mais pensamentos de paz e amor, remo­ver o stress interno e apontar a mente em direcção a atitudes positivas, não há nada que impeça este processo de acontecer numa escala maior. Toda a realidade é compartilhada, e o que é reali­dade para um é realidade para todos. Ao nível da consciência colectiva, concordámos com esta realidade única. Tivemos de o fazer, pois é apenas através da inteligência compartilhada que se pode criar qualquer realidade — a inteligência é uma só, apenas se expressa por meio de canais infinitamente diferentes. 

* * *

O novo paradigma está a brotar simultaneamente de diversas fontes. Já falámos da nova física, que iniciou a mudança de paradigma através da teoria da relatividade. Na física, alguns pensadores avançados já propõem que a consciência colectiva é a única hipótese que consegue explicar o universo que vemos e aceitamos como real. Um biólogo britânico, o Dr. Rupert Sheldrake, é pioneiro no estudo da «força oculta» que pode ser responsável pelo fenómeno do centésimo macaco. Ele propõe que as mudanças nas for­mas das plantas e dos animais podem, na verdade, ser causadas num nível mais subtil que o do ADN. Por outras palavras, em vez de contar apenas com a composição física dos genes, o Dr. Sheldrake começa a olhar para a sua qualidade abstracta, a informação que eles codificam. Conforme já discutimos, os genes não são simplesmente físicos; transmitem o conhecimento acumulado de toda a evolução. O Dr. Sheldrake propôs a existência de campos de informação que dão à vida as formas definidas que nela vemos. Estes «campos morfogenéticos» modelam a vida antes que a forma fisica se manifeste. Eles são, em essência, a versão natural dos pensamentos.

A ideia de um campo está subjacente à maior parte da maneira de pensar da nova física. O que antes era visto como electrões separados ou ondas de luz isoladas é agora visto como manifestações de campos infinitos. Os campos são a «verdadeira» realidade; aquilo que vemos são apenas acontecimentos locais surgindo inesperadamente a partir deles. O Dr. Sheldrake está ampliando o conceito de campo para a biologia, e os investigadores da MI estão a levá-lo para o domínio da consciência humana. E desta maneira que o paradigma se propaga, indo de uma área para outra até que todas as maçãs do carrinho virado tenham sido recolhidas novamente.

O que é que nos leva a pensar que a consciência seja um campo? Os Drs. R. Keith Wallace, Michael Dillbeck e David Orme-Johnson, cientistas dedicados à investigação da MI, propuseram a ideia de um campo de consciência precisamente para explicar os resultados experimentais aqui mencionados. Como podem dois cérebros responder um ao outro à distância? Como pode a meditação feita por um grupo, pequeno ou grande, de pessoas fazer baixar os índices de criminalidade? Armados com centenas de descobertas concretas, dignas de confiança, e precisando explicá-las, os cientistas dedicados à MI aproveitaram-se do novo paradigma. Se considerarmos a consciência humana como sendo um campo infinito do qual cada pessoa é uma expressão local, então torna-se plausível que uma parte do campo possa afectar outra parte. É exactamente assim que os campos funcionam. Uma bússola colocada em qualquer parte do campo magnético da Terra alinhar-se-á espontaneamente com esse campo - apontará o norte. Assim, se o processo de transcender permite que as mentes individuais se aquietem e alcancem um estado de máxima coerência cerebral, parece lógico que as outras mentes humanas possam sentir o efeito. Uma «força oculta» do campo da consciência dá forma aos efeitos que então surgem como realidade. Essa força deixa de ser um mistério quando compreendemos que se trata da consciência. A consciência, canalizando a inteligência ao nível do eu, traz os benefícios da meditação. Numa escala mais ampla, traz benefícios para essa expressão da inteligência chamada sociedade.

Os investigadores da MI deram um nome ao efeito geral que estão a estudar; chamaram-lhe «efeito Maharishi». Maharishi Mahesh Yogi, nos seus ensinamentos sobre consciência, foi o primeiro a predizer que o processo de transcender pode provocar mudanças à distância, que é a característica principal de um efeito de campo. Disse também que bastaria um pequeno número de pessoas para produzir o efeito. As bases para essa especulação, uma vez mais, vieram da física, onde são bem conhecidos certos casos em que, para que o todo mude, basta que mude um pequeno número de partículas. Por exemplo, se se magnetizar cerca de 1 por cento dos átomos duma barra de ferro, toda a barra fica magnetizada. A mesma coisa se passa nas reacções químicas; logo que uma pequena percentagem de uma solução tenha reagido, o resto da reacção segue-se quase instantaneamente. Muitos outros efeitos físicos, incluindo o Jaser, funcionam do mesmo modo.

Aplicou-se, então, a mesma lógica à consciência humana. Lyall Watson especulara que, se um número suficiente de pessoas pensar que algo é verdadeiro, isso torna-se verdadeiro para todos nós. O efeito Maharishi mostra que aparentemente não é necessário um grande número de pessoas. O impacto significativo deu-se quando se descobriu que o efeito deve acontecer num nível mais profundo do que o do pensamento. Durante o processo de transcender, o meditante não está a pensar em crime, guerra, doença, etc., tentando vencê-los. Está simplesmente a expor a sua consciência ao nível do eu, à consciência tal como ela existe antes dos pensamentos surgirem. Tendo feito isso, a inteligência espontaneamente faz o resto. Os investigadores da MI comentam que «esta extraordinária nova tecnologia para criar coerência na consciência colectiva pode potencialmente levar não só à melhoria da qualidade de vida nas cidades, como sugerem os estudos sobre criminalidade acima citados, como também à resolução dos con­flitos internacionais e ao estabelecimento da paz mundial. »

Por outras palavras, o efeito pode propagar-se. Uma consciência calma, serena e coerente tem um poder tremendo — como mostram as vidas de Gandhi, Madre Teresa e muitos outros. Se a nossa consciência pode crescer e igualar-se à deles, a mesma influência pode expandir-se cada vez mais. Se pudermos aprofundar a nossa consciência para além, até, daquilo que eles experimentam, então essa influência será duradoura. 

Uma cura e paz duradouras só são reais ao nível do nosso ser. Enquanto aquilo que somos estiver isolado da natureza, não seremos ajudados pela natureza — e isso inclui a nossa própria natureza. O grande filósofo alemão Martin Heidegger disse que a ameaça que paira sobre a humanidade vem de dentro. Vem porque o homem se coloca contra o fluxo da natureza, ou Ser, quando foi feito para viver com ele: «A natureza humana encontra-se na relação do Ser com o homem». Este Ser é a nossa fonte. Tentar viver fora dele é romper com tudo: «O mundo torna-se incurável, profano».

As pessoas temem o perigo da bomba nuclear, mas este perigo de um mundo sem cura é que é o perigo, diz Heidegger. Todas as outras ameaças — guerra, doença, ódio, morte — derivam dele.

É aqui que uma nova visão do mundo traz o fim de todas as amea­ças. «Mas», diz Heidegger, «onde existe o perigo, cresce também o que dele nos salva.» Temos apenas de nos voltar novamente para a nossa fonte, para o nosso ser, e a natureza curar-se-á a si mesma. Não precisamos de ser cientistas para perceber porque é que uma nova realidade está a abrir caminho através das nossas men­tes. Um mundo sem cura é intolerável. A doença não é natural. E não é só porque nos causa sofrimento. No mais profundo do nosso íntimo, a doença ofende-nos, porque limita a nossa liber­dade; e uma coisa que a inteligência nunca pode tolerar é a perda da liberdade. Com a possibilidade de saúde, felicidade e amor, o coração expande-se. Quando começamos a criar saúde, o mundo profano erigido pelas nossas mentes transforma-se numa realidade mais importante, o mundo do coração. Através da sua compaixão, o coração humano abriga todos os seres. E o reino íntimo do mundo, maior do que todo o espaço objectivo. Os nossos pensamentos são como um conselheiro que sussurra aos ouvidos de um rei. Por muito sábio que seja, ele não é o rei. O rei é coração e mente, emoção e inteligência, todos num só. Porque cada pessoa viva contém isto dentro de si, pode governar-se a si própria. Ao nível do nosso ser, temos todo o potencial que podíamos talvez precisar para criar uma nova realidade.

Desde que acolhamos bem a nossa consciência de volta à sua fonte, os problemas da vida acabam por desaparecer. Surge a com­preensão de que os problemas, na verdade, não existem. Dessa compreensão, desponta um mundo diferente. Um mundo curado e sagrado.

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(*)  Este texto de antologia é o capítulo 37 (pgs. 229-240) do livro de Deepak Chopra, «Criando Saúde», editado pela Dinalivro, Lisboa, 1990 e traduzido por Jorge Angelino, praticante da Meditação Transcendental e elemento activo da Associação Portuguesa para o Avanço da Ciência da Inteligência Criativa, com sede em Lisboa. 

 

 

 

 

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Última modificação: 22/06/07