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Hoje estou virado para o passado que está mais presente no presente do que nunca. E fui descobrir, nas escavações diárias que faço em papéis antigos, uma página do semanário «Maré Alta» (Portimão), Junho 2000, com um precioso texto do meu amigo Carlos Filipe Marreiros da Luz sobre um livro de Robins Jenkins, «Morte de uma Aldeia Portuguesa». Eis o texto de Carlos da Luz: + Em 1979, a editora Inglesa Pluto press, sediada em Londres, publicou The Road to Alto. An account of peasants, capitalists and the soil in the mountains of Souther Portugal, da autoria de Robin Jenkins. Em 1983, a editora portuguesa Querco publicou a obra dando-lhe o título «Morte de uma Aldeia Portuguesa», com tradução de Ana Marta Falcão Bastos. Hoje, passados 17 anos da tradução da obra para a língua portuguesa, e cerca de 25 anos depois do trabalho de campo efectuado pelo autor na pequena aldeia de Alto, próxima de Alferce (Serra de Monchique), voltamos a assinalar a importância deste trabalho, que o tornam excepcional, e provavelmente ainda único no panorama da pesquisa monográfica feita sobre localidades portuguesas. Como assinalou certa vez o Dr. José Carlos C. Marques, o autor, embora treinado na London School of Economics, viveu em Alto, perto de Alferce (Concelho de Monchique), não como fieldworker, sociólogo ou antropólogo, fazendo trabalho de campo entre os indígenas, mas como um residente forasteiro. Diz-nos: «Não fomos a Alto para estudar a comunidade local nem para escrever um livro, mas porque nos queríamos familiarizar com a agricultura numa situação revolucionária» (p. 7). Por outro lado, a monografia sobre Alto interlaça três aspectos da realidade que raramente são vistos em conjunto e de forma sinérgica: o rural, o económico e o ecológico. Normalmente, quem foca no máximo dois destes aspectos, omite o outro. Por último, para além do saber antropológico ou sociológico tradicionais, na monografia de Jenkins sobro Alto estão presentes considerações sobre grandes coordenadas do pensamento actual) (ou, mais precisamente, de segunda metade da década de 70), sobre os impasses da civilização moderna e suas possíveis alternativas. Isto, ao que parece, pelo menos por enquanto e a nível sistemático, ainda não o devemos à investigação universitária em Portugal. Mas detenhamo-nos mais de perto sobre o processo da surgimento de Robin Jenkins em Alto e da obra por ele escrita. Foi uma inglesa de nome Sheila Young, residente em Alto desde 1966, e que vai completar neste ano de 2000 a bonita idade das 80 primaveras que, no ano de 1975, colocou num jornal inglês um anúncio solicitando gente para a ajudar a trabalhar a terra nuns socalcos que ainda possui em Alto. Foi assim que apareceram Robin Jenkins e sua mulher Mary, vindos da Inglaterra, que utilizaram uma casa até então desocupada de um morador de Alto. Jenkins era então um jovem sociólogo de 32 anos. Desconhecendo por completo da língua portuguesa, obteve todos os seus dados por dois meios: observação e entrevistas a Sheila. É cedo que Jenkins e sua mulher Mary não chegariam a passar um ano em Alto (mais precisamente, de fins de Janeiro de 1976 até Setembro desse ano), transferindo-se depois, em nova tentativa de vida na terra, para as Montanhas Montseny, na Catalunha, e regressando mais tarde às calçadas de Londres, para ficar ou partir de novo isso já não sei. Entretanto nasceu um filho e o casal divorciou-se. Diga-se a propósito, que o título da edição portuguesa recebeu a desaprovação geral, tanto de Sheila como do próprio Jenkins e da população de Alto que dele teve conhecimento. O Dr. José Carlos Marques afirmou certa vez: «Quem como eu esteve em Alto não pode deixar de sentir um sobressalto perante o título. Na verdade, Morte de uma Aldeia portuguesa é uma expressão forçada e impressionista, uma certidão de óbito no mínimo precipitada, talvez ditada por imperativos comerciais, e que está longe de dar uma ideia justa do conteúdo. Jenkins foi bastante mais prudente: «Daqui a vinte anos já todos os camponeses de Alto terão morrido e a zona estará transformada num gigantesco eucaliptal. (p. 134).» Hoje, passados cerca de 25 anos, pode verificar-se que esta previsão mais pessimista do autor não se realizou, mas quantas outras não se confirmarem? O livro estuda sem dúvida um processo de decadência. Mas decadência ainda não é morte, e se a pequena aldeia de Alto participa do abandono geral da agricultura, se sofre as consequências do êxodo rural, da invasão dominante da economia urbana, está no entanto longe ainda de se ter transformado numa «aldeia fantasma», como são muitas aldeias europeias e já muitas em certas regiões de Portugal. Sobre Alto, Robin Jenkins escreveu: «Há uma grande riqueza de conhecimentos nas casinhas lá em baixo, que dentro de poucos anos se perderá para sempre. (p.133).» No final da obra acrescenta mesmo: «A comunidade e a sua cultura cada vez mais subordinada são muito mais importantes para o futuro da humanidade do que qualquer dos habitantes poderia pensar. (p.149).» Teria Jenkins exagerado este aspecto? Teria um tudo-nada de mitos urbanos interiorizados acerca da pequena aldeia que estudou? Não parece, pois também afirma que: «Sem qualquer espécie de sentimentalismo relativamente aos prazeres e inquietações da vida rural do passado, será necessário reexaminar as culturas que foram destruídas e se perderam (...) (p 149).» Independentemente de algumas falhas metodológicas do autor (não ter dito às pessoas que estava a fazer um trabalho, não ter usado mais fontes portuguesas), a obra «Morte de uma Aldeia Portuguesa» é notável pelos aspectos já focados. No quadro actual da aceleração da história, do reino do efémero, da delapidação dos recursos, da destruição dos solos e da desertificação galopante do Sul de Portugal, a investigação de Robin Jenkins deve ser recordada. Carlos da Luz♥ |
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