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[7-2-2006]

MANIPULAI-VOS UNS AOS OUTROS

sábado, 3 de Dezembro de 2005

Tenho talvez de postular um fundo sado-masoquista no código genético dos portugueses e não sei, mesmo assim, se encontraria explicação plausível para a onda tremendista que hoje inunda, como um tsunami moral, a nossa terra, a nossa gente, a nossa esperança.

Vou continuar atento e, para não ser injusto com todos os cultores da onda negra, vou chamar à colação alguns nomes mais que merecem o galardão de hiper-depressores nos tempos que correm e nos corropios que nos cabem em sorte.

Um bom contributo para esse meu trabalho vou consegui-lo na secções de citações, onde precisamente se antologia tudo o que é bater no ceguinho e nos males e podres e azares da vida nacional.

*

Quem esteja pessoalmente predisposto para a depressão,  sofre a dobrar com esta varridela diária de maldispostos, com esta monomania de malquerença e maldizer que enche os jornais, com as secções de citações.

E já que falei de maldizer, a tradição de maldizer das cantigas medievais nada tem a ver com este fundo , tendência adquirida e cultivada mas não inata. Tendência da super-estrutura ideológica ao serviço da sistemática manipulação da chamada «opinião pública».

Resta saber com que intenções, conscientes ou inconscientes, estes manipuladores vão continuando diariamente, semanalmente, mensalmente, a manipular-nos.

*

Quando falo de criticismo sado-masoquista, não é de pessimismo que falo. Tendo este pessimismo a ver com uma tendência profunda e autêntica da alma lusíada, não tem nada a ver com os equívocos demenciais de estar contra por estar contra, de destruir por destruir, de avacalhar por avacalhar.

O pessimismo – sobre o qual Manuel Laranjeira escreveu um livro – é uma tendência que nos define e que deverá entrar num estudo aprofundado e autêntico da alma portuguesa. O que os  opinion makers fazem é exactamente ignorar a nossa alma e os valores que mais e melhor nos definem.

*

sábado, 3 de Dezembro de 2005

Ainda hoje escrevi no meu blog que sou fã da melhor secção de jornais portugueses: «O Grande Ocidente Lusitano» - Leituras da Imprensa Regional, por Carlos Oliveira Santos.

Ali se tenta contrariar a tendência hoje dominante da «onda negra».

04-12-2005 16:33

Recuando no tempo, começo a perceber que esta neurose niilista vem de trás e já conta com alguns dos nossos clássicos das letras uivantes.

A amizade que me liga ao meu primo Fialho de Almeida, por exemplo, ainda não tinha permitido que eu percebesse quanto ele contribuiu para este criticismo desalmado da alma portuguesa que parece ter-se tornado pecha, vício e transtorno incuráveis.

Relendo, por exemplo, páginas do livro «Pasquinadas», tenho de reconhecer que esse meu primo, além de médico formado e que nunca exerceu, era doente e doentio até dizer chega.

Feitios. Sem dúvida, feitios: mas eu aqui, nesta retrospectiva muito rápida, só queria ver se diagnosticava algumas das principais raízes do nosso inextripável sado-masoquismo.

E já que li, em «Dicionário dos Milagres», Ed. Lello, Porto, 1980, um texto diatríbico de J.T. da Silva Bastos contra Fialho, porque este desaustinou parvamente contra Eça – é altura de reconhecer que Eça também entrou com uma boa quota para o clube de maldizentes da grei portuguesa.

Essa é uma das razões porque adoro, no Eça, as prosas místicas, (enquanto detesto os grandes romances que toda a gente admira) essas vidas de santos que, sem o criticismo das suas consideradas obras-primas, são bem mais admiráveis.

E é por isso que separo, na minha Biblioteca do Gato, alguns títulos que, pelo naif, pelo esplendor do naif, resgatam o execrável criticismo.

Já não vou, por falta de tempo, ao Ramalho Ortigão, de que li pouco, mas ele me parece um contributo menor a esse criticismo .

Em compensação, inoculei, desde os meus verdes anos, overdoses maciças de António Sérgio que, no plano das ideias, aparentemente menos sádico (talvez porque mais subtil) não deixa de contribuir para niilizar a única riqueza que nos resta: uma pátria de 8 séculos!

E ninguém melhor o mostrou do que o meu amigo António Quadros que, escalpelizando o derrotismo de António Sérgio, se coloca os antípodas da tendência suicida que, sob o nome de crítica, tem sido uma constante dos nossos hábitos mentais, crivando de nódoas negras o nosso inconsciente colectivo.

*

04-12-2005 16:56

Fixando-me, de relance, num senhor chamado Afonso Cautela, o tal que é primo do Fialho, posso comprovar que também essa alma se imolou aos deuses da má língua, em nome da crítica, ora de livros, ora de filmes, ora de ideias, ora de políticas, ora de ecologias profundas.

Na hora fatal de um balanço, com ar de reembolso compulsivo, tenho de me reconhecer arrependido de ter destilado tanto fel – embora talvez não pudesse ter feito outra coisa.

E não falo só do rótulo dos anos 50 – convívio, crítica e controvérsia – em que pretendi adoçar com o convívio o excesso de polemismo militante, em que parecia demente saltitando daqui para acolá, sempre à busca de algo para dizer mal.

Miguel Serrano foi talvez, nesse anos de Moura, quem contribuiu para atenuar um pouco o vezo criticista, constantemente atiçado pelas leituras racionalistas e racionalizantes estilo António Sérgio.

*

As minhas errâncias da razão confundem-se em grande parte com as errâncias pela crítica e pseudo-crítica em que quase me afoguei de vez.

É bem estranho o destino que cada um tem de cumprir e sem retorno possível, quando o arrependimento já não chega para remediar – ou remendar – as asneiras feitas. ©

 

 

 

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Última modificação: 22/06/07