<suínos-1> temas recorrentes – a resposta das ta’s
A PESTE SUÍNA E O REALISMO ECOLÓGICO(*)
(*) Publicado no «Diário do Alentejo», 19/10/1981
19/10/1981 - A melhor forma de combater a peste suína e a sua causa próxima - a falta de higiene nas pocilgas - é manter em cada uma das explorações uma unidade produtora de biogás, obtido a partir dos excrementos dos animais por fermentação anaeróbia.
E porquê?
Perante o fenómeno que desmoraliza a economia pecuária - a febre suína nas suas formas de febre aftosa e de febre suína africana - verifica-se a tendência oficial para diagnosticar este efeito com base em falsas ou supostas causas.
Joga-se assim o barro à parede a ver se pega.
Perante a natural e geral indignação da opinião pública - a quem prometeram proteína animal com fartura - vários serviços veterinárias, intendências regionais e direcções gerais, multiplicam-se em comunicados de pura retórica medicamentosa (vacina & etc.) qual peste (suína) com a qual se manipula e intoxica aquela mesma opinião pública.
Vacinação com vacinas que não existem, distribuição de folhetos educativos para «sensibilizar as populações»; fiscalizações que nada fiscalizam, fazendo vista grossa à .candonga e à ilegalidade; conselhos sanitários aos produtores, que estão evidentemente mais preocupados com os seus lucros ilimitados do que em sanear o ambiente e proteger a saúde pública; certificados passados por veterinários municipais; inquéritos policiais depois de consumados os desastres; especulações sobre a proveniência espanhola das epidemias; etc.
Se quisessem indagar das verdadeiras causas, deveriam os serviços apontar as baterias para as questões de fundo: comparados os efectivos pecuários de hoje com os de há 10 anos, ver-se-ia por aqui que a fartura de proteínas tinha que trazer o seu reverso: a fartura de doenças.
Acusar «o criminoso oportunismo de negociantes sem escrúpulos»; acusar os intermediários; acusar o tempo seco ou a prolongada estiagem; acusar as feiras de gado, o abate clandestino e respectivo comércio de carnes verdes; acusar tudo isto de serem as «causas» da peste suína, é pura e simplesmente fraude.
Enquanto não se sair desta pecha «moralizante», idealista e sintomatológica, sempre à procura de um bode expiatório, enquanto não se tomarem verdadeiras medidas profilácticas, enquanto não se for à causa das causas, (a proliferação de pocilgas em condições de higiene verdadeiramente abomináveis), a peste alastrará, os prejuízos aumentarão, os clamores subirão de tom e nada , absolutamente nada se resolverá.
A única conclusão legítima é que os serviços não estão mesmo interessados em resolver o problema da peste suína. E por isso deixam andar enquanto cultivam um oceano de retórica. Não é dando conselhos e fazendo sermões no púlpito às pessoas, que estas alteram o seu comportamento. Só se as medidas higiénicas trouxerem aos produtores de gado vantagens económicas e aumento de lucros à sua exploração, é que eles realizarão essas medidas de profilaxia sanitária.
Ora a única maneira de tornar rentável a porcaria do porco é transformá-la em gás, em riqueza, em novos lucros e fonte de interesses. A única maneira de combater a peste porcina é generalizar as unidades geradoras de biogás, a forma mais económica de combater a poluição de pocilgas e aviários.
Idealista é a visão moralista e sintomatológica da realidade pecuária portuguesa.
Realista e revolucionária é a visão ecológica e causal da realidade.
A verdade é sempre revolucionária.
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(*) Publicado no «Diário do Alentejo», 19/10/1981