1-4 domingo, 8 de Dezembro de 2002 - <84-04-04-ea> <sdeh-1> sem data ecologia humana e alimentar

O MIMETISMO DA MODA E OS CONSUMIDORES

(CRIANÇAS E JOVENS)

MAIS VULNERÁVEIS À MODA

(Um bocado francamente odioso deste texto é a sujeição à dicotomia reinante nos anos 70 entre esquerda e direita, para tudo e para nada, dicotomia de que era autor e principal arauto o partido comunista português: quando considero execrável essa influência , é porque a considero hoje realmente execrável: mas por isso a deixo estar, que documente as lavagens ao cérebro a que, apesar de todos os cuidados e cautelas, fui vulnerável no pós 25 de Abril É a lavagem ao cérebro perpetrada pelos comunistas o que está em causa quando, neste texto, me insurjo contra os publicitários, classe na qual o partido comunista tinha e continua a ter uma influência determinante, como aliás é lógico e óbvio, sendo Pavlov como supremo patrono.... Apesar das sujeições , este texto atreve-se a propor uma reformulação dos consumos, utopia simpática apesar de utopia e apesar de nunca mais ter sido retomada por ninguém (como também é óbvio, com tantos interesses a mamar dos consumos que matam e adoecem). Este texto é contemporâneo de uma maior aproximação ao Araújo Ferreira, aqui citado como pioneiro da defesa do consumidor, como indubitavelmente foi Os autores citados, Vance Packard e Ralph Nader, eram nomes citadíssimos por Araújo Ferreira. Curioso neste texto onde se fala tanto de qualidade, jamais me atrevo a falar de qualidade biológica, palavra que tinha provocado um em embate frontal com a presidente do Instituto de Qualidade Alimentar (ver entrevista in «A Capital» )

PALAVRAS-CHAVE DESTE TEXTO:

TEMAS AFINS (CONTEMPORÂNEOS) DESTE TEXTO:

[4/4/1984 ?] - ( In «A Capital» 1984?) - Poderá a escola questionar os hábitos do consumidor e os consumos que, além de prejudiciais para a saúde pública, concorrem para a delapidação dos recursos naturais da terra?

Uma análise sucinta do ambiente que rodeia o consumidor em geral e os jovens e crianças em particular , mostra que a escola pouco poderá fazer e pouca influência poderá ter na alteração dos hábitos.

Aliás, se há casos individuais de pessoas que decidem fazer uma selecção daquilo que consomem, adoptar regimes de austeridade , rejeitar produtos comprovadamente cancerígenos ou tóxicos, enfim, comprar apenas o que merece um mínimo de confiança, na perspectiva da qualidade, essas tácticas ou eco-tácticas pouco significado têm no conjunto da sociedade, dominado pela engrenagem do consumismo e da respectiva propaganda publicitária.

A criança vive cercada desta publicidade declara ou ínvia. todas as horas ouve os apelos que a televisão e a rádio lhe fazem para consumir as mais desvairadas porcarias. Mais do que os meios audio-visuais, porém, o que pesa sobre as crianças e os jovens é a moda, o mimetismo da moda .

Ver nos outros o que os outros fazem, vestem, comem, consomem, é a principal determinante «educativa».

Não poderá haver reorientação nos consumos, portanto, sem uma decidida política nesse sentido. Em Portugal, a lei da publicidade , lançada em 1980 pelo governo de Francisco Sá Carneiro, foi apenas um acto de propaganda eleitoral

O chamado Código da Publicidade ficou na fase de consulta às entidades interessadas. É evidente que as agências de publicidade, com o poder que têm de controle monopólio - são um estado dentro do estado . logo abafaram o código: como a classe dos publicitário é predominantemente de esquerda, tratava-se também de boicotar um documento legal que vinha da direita e era ponto de honra da direita.

Os portugueses continuam, portanto, à mercê dos abutres que nos manipulam a alma, nos envenenam o espírito, os cancerizam o corpo.

A quota parte da responsabilidade dos chamados «criativos» nunca foi assunto suficientemente debatido. «É preciso ganhar a vida» alegam e pode-se ganhar a vida aconselhando o público a adoecer e a matar-se.

Que importa?

Mas têm as eco-tácticas qualquer hipótese de quebrar o cerco e criar a alternativa de consumos?

Só por si, não. Para conseguir uma alteração significativa no mercado dos venenos, terão os consumidores que se constitui em «movimento de pressão» (e opinião) sobre os órgãos do poder. fazer greve a certos consumos, só resulta se não for greve individual. reorganizar o mercado e abrir mercados alternativos, só com a fase seguinte das eco-tácticas, que é a sua organização em movimento social.

Sem esquecer que a sabedoria alimentar zen dá o modelo prático e filosófico até agora mais perfeito, na disciplina do consumidor e na conservação de recursos vivos, a questão de fundo que uma política democrática deverá enfrentar é a intervenção decidida em defesa do consumidor, sempre que o dilema seja entre saúde pública e interesses corporativos das indústrias patogénicas.

Deverá essa política em defesa do consumidor obedecer algumas premissas básicas:

informação oficial constante sobre os produtos que oferecem riscos para o consumidor

Moralização de organismos já existentes como a direcção geral da qualidade industrial e o Instituto de Qualidade Alimentar

Reactivar e efectivar o Código da Publicidade que ficou no esquecimento

Incentivar , através de estímulos vários, o aparecimento de advogados que defendam o partido do consumidor

Delinear uma política de «racionalização» dos consumos, quer dizer, obrigar a uma redução de produtos.

Distinguir entre os consumos de interesse social e ecológico . e os consumos que declaradamente concorrem para a poluição do meio ambiente e a destruição dos recursos

Provar , pela pratica, que se pode consumidor menos e melhor: que a qualidade é muito mais importante que a quantidade.

PERSPECTIVA HISTÓRICA DO CONSUMIDOR

Uma perspectivação histórica do movimento e defesa do consumidor pode consolidar ma certa consciência crítica na juventude, que compreenderá então, que fugir à regra dos consumos institucionalizados e constantemente ladrados através da TV é uma questão de refinamento e cultura pessoal.

Que há uma certa aristocracia ou elite que rejeita o standart dos consumos ordinários.

Enfim, cultivar um certo sentido «snob» na juventude é bom conselho para a educar nos hábitos de consumo.

Nesta perspectiva histórica, figuras como o advogado norte-americano Ralph Nader e o escritor Vance Packard são ponto de referência úteis ao jovem na sua autodefesa. Estratégis do desperdício», o livro de Vance Packard, ficou como data marcante no movimento em defesa do consumidor.

Em Portugal, acção pioneira de Araújo Ferreira que lançou a revista «Conteste» é igualmente um marco histórico que os jovens podem lembrar , que mais não seja como acto de justiça prestado aos que por ela lutaram.

Uma política de prudência em relação aos consumos «provocantes» onde os factores emocionais se encontram entrelaçados, deve corresponder por outro lado, a uma política ousada e de vanguarda nos consumos fundamentais, nomeadamente os alimentares.

É o contrário disto, exactamente, o que acontece em Portugal, Fazem-se campanhas contraproducentes contra o tabaco, por exemplo, sem qualquer resultado prático na saúde do consumidor e desprezam-se verdadeiros crimes que continuam em vigor sem a mínima objecção por parte dos organismos oficiais dedicados à educação alimentar dos portugueses, Centro de Estudos de Nutrição e Conselho Nacional de Alimentação, são esses dois organismos responsáveis.

Alguns jornais têm levantado, por exemplo, o problema do pão que os portugueses comem, a sua péssima qualidade e os vários produtos químicos que legal ou ilegalmente lhe são adicionados.

Que se espera para atacar de frente este verdadeiro atentado contra a saúde publica dos portugueses?

Impõe-se um decidido apoio oficial às correntes de filosofia alimentar que já deram provas da sua eficácia prática.

POLÍTICA DE PRIORIDADES

Outra aberração nos produtos alimentares para o consumidor, diz respeito aos desvios que se fazem na alimentação humana básica para frivolidades de uso lúdico.

A alfarroba para indústria de doçaria, as algas para gelatina, o cacau para chocolate, as uvas para vinho ou aguardente, o café para bica - são exemplos de como se sacrificam milhares de hectares a indústrias puramente idiotas, enquanto a FAO se esganiça, todos os anos, no Dia Mundial da Fome, a dizer que milhões de crianças morrem subnutridas.

Mas jamais a mesma FAO pôs a sua autoridade ao serviço de uma «moralização» destas aberrações que são os usos de alimentos básicos para supérfluos perfeitamente gratuitos.

Esse, evidentemente, será o argumento básico para educar os jovens: cada uma das quinquilharias que a engrenagem lhes dá para consumidor é um bocado de pão retirado à boca de milhares de crianças.

A reconversão de consumos é um acto moral na nossa quotidiana depravação de hábitos alimentares. Embora quando se fala em reconverter consumos, haja logo um progressista de esquerda que diz haver ainda muita gente cujo problema é não ter consumos ainda suficientes, em quantidade e qualidade.

A demagogia, neste campo, atinge aspectos circenses.