1-4 - <medicina-7-yy> = yin-yang - os dossiês do silêncio – contra a medicina ordinária – obviamente inédito - Sexta-feira, 25 de Julho de 2003
DIÁLOGO LESTE-OESTE
ALTERNATIVAS DE VIDA PARA OS ANOS DE APOCALIPSE
- O mundo das alternativas sem órgão de informação
- Consciência holística implica diálogo
- Bom serviço prestado à ordem
- Antigos fanatismos
- Obras de aproximação às fontes orientais
- Dialogar sem trair a ética yin-yang
19.Outubro.1986 – O mundo das actividades ecológicas e alternativas não tem ainda em Portugal o órgão informativo que merece e necessita.
Há público, há todo um mercado de produtos e equipamentos, há (inclusive) uma grande pressão internacional no sentido de dignificar as técnicas holísticas de saúde e os movimentos que advogam as eco-alternativas de vida, a construção de uma sociedade paralela que possa evitar o holocausto nuclear do Globo e o seu apocalipse definitivo.
Mas em Portugal ainda não existe o órgão de informação capaz de veicular e fomentar esse movimento, sendo ao mesmo tempo o seu porta-voz .
Em Portugal todo esse mundo alternativo está sujeito ainda a uma série de bloqueamentos, que derivam não só do mundo industrial que naturalmente o hostiliza mas dos próprios que deveriam defendê-lo já que dele (mundo alternativo e movimento holístico) fazem vida e profissão.
Todos estes bloqueamentos - de um lado e de outro, do mundo alternativo e do mundo industrial - se sentem de maneira às vezes brutal no dia a dia de quem escreve em jornais.
Quem teimar em ser franco-atirador isolado desta luta arrisca-se a perder o emprego.
Noticiar um novo restaurante, entrevistar um bom terapeuta, fazer a reportagem de um acontecimento na área holística das terapêuticas naturais e na defesa da vida, constitui um autêntico problema, depara com inusitadas, resistências, quase sempre não declaradas mas difusas.
MUNDO HOLÍSTICO EM PORTUGAL
O movimento holístico em geral e macrobiótico em particular, não têm, inclusive, forma de se defender quando são atacados, às vezes de maneira soez e baixa, por notícias sectárias e mentirosas, que falam em alternativas de vida sem saber do que falam ou falam por simples acinte, quando não obedecendo a ditames mais ou menos obscuros dos interesses económicos mais que sabidos e que, naturalmente, se opõem às alternativas naturais de vida propostas pelos que advogam uma nova mentalidade e uma nova forma de ver e mudar o mundo.
Dominada por interesses económicos que, pela sua própria natureza, hostilizam os métodos e processos naturais de saúde, a imprensa em geral dificilmente aceita a informação sobre aquelas actividades alternativas que, no espírito e na prática, se propõem criar, paralelamente ao pesadelo industrial, um mundo novo capaz de ir substituindo, gradualmente, o mundo velho e em decomposição acelerada.
Isto implicaria, inclusive, que a Imprensa da especialidade, aquela que se diz estar ao serviço do movimento holístico, tivesse maior vitalidade, não envergonhasse os seus próprios objectivos e ideais e realizasse a informação que a imprensa tout court não sabe, não quer ou não pode servir.
Mas acontece que a imprensa da especialidade, na área holística (profilaxia das doenças e conservação da saúde) se encontra igualmente bloqueada por fortes limitações de concepção e acção. A mesquinhez de horizontes e processos acompanha a mesquinhez deste triste mundo holístico em Portugal.
DIALOGAR COM OS PARENTES
Tal como se encontra, há muitos anos, a imprensa holística portuguesa é o melhor serviço prestado à Ordem dos Médicos, fazendo crer às elites intelectuais de que a "medicina natural" não passa nunca das mesmas inocuidades empírico-literárias.
Não tendo explorado as enormes virtualidades e as energias potenciais que tem à sua disposição, a imprensa holística não aproveita com inteligência a oportunidade histórica que lhe é dada. Não aproveita e tem ódio a quem lhe fala de inteligência. O tilintar da máquina registadora é motivação muita mais gratificante para os líderes do movimento.
Nenhuma revista das que se publicam, conseguiu até agora combinar os diversos factores que poderiam conduzi-las a um êxito de público, sintonizando as suas profundas mas recalcadas aspirações a um mundo diferente, e aproveitando a dinâmica que por todo o mundo essa profunda aspiração já criou de modo irreversível.
Continua por fazer uma revista independente, que aborde os problemas de saúde sem partis-pris mas com uma consciência profunda dos dados ecológicos da questão, num espírito permanente de objectividade e diálogo, cerrando as portas apenas à estupidez, à ganância, à incompetência, ao charlatanismo.
Para muitos de nós, que andamos nestas lides há uns anos largos, é ponto assente que de todas as técnicas alimentares hoje proclamadas como eco-alternativas, é a Macrobiótica, sem dúvida, aquela que maior margem de segurança, efectividade e eficácia oferece.
Quem conhece os "antigos vegetarianos", muito respeitáveis enquanto pioneiros mas que não souberam nem quiseram evoluir, sabe como esses movimentos enquistaram em erros crassos e posições de sectária intransigência, de que a tal "imprensa da especialidade" dá uma imagem bem triste e cinzenta.
A verdade é que a Macrobiótica também deveria ter evoluído e nem sempre isso aconteceu.
O grande problema, para um adepto não sectário da Macrobiótica, é saber manter-se fiel à essência da filosofia taoísta onde ela mergulha mas manter, por isso mesmo, a flexibilidade de espírito e abertura ao diálogo sem nunca se enquistar numa "igreja" fanática como fizeram anteriores correntes vegetarianas.
Quando a Ordem dos Médicos escarnece dos "vegetarianos" e "naturistas" , com alguma razão, infelizmente, o faz, pois boa matéria de troça lhe continuam a fornecer.
Também é bom não esquecer que a Macrobiótica é apenas o nome moderno dado a uma tradição terapêutica multisecular que inclui ramos tão importantes como Acupunctura, Farmacopeia e a própria Homeopatia, tal como se praticava há muitos séculos, no Tibete ou na China.
Lamentável é verificar que a Macrobiótica, pelo menos em Portugal, ainda não aprendeu a dialogar nem com estes seus parentes mais próximos. E do que se trata, quando abordamos a Macrobiótica na sua essência, dada pelas fontes orientais da civilização e da cultura, é de manter o espírito aberto de diálogo às fontes orientais e destas com as fontes ocidentais da cultura.
FONTES OCIDENTAIS
Como vivemos no Ocidente, é indispensável um amplo espírito de diálogo também às fontes ocidentais.
Exemplos desse espírito são - lembremos - obras como a do brasileiro Flávio Zanatta, que traduz em termos de ciência ocidental (ele é químico de profissão) as verdades reveladas da ciência yin-yang.
Também a obra de Fritjof Capra, "A Física do Tao'', é uma homenagem de um físico atómico à sabedoria taoísta, a qual ele consegue identificar, ponto por ponto, com a física moderna, concluindo que tudo já estava contido na sabedoria taoísta... Para físico atómico, já não é nada mau.
A "metabolic medecine" é hoje outro vasto campo em que a ciência da nutrição e do metabolismo , caindo embora nos exageros e aberrações da hiper-análise e perdendo , também aí, a consciência unitária (holística) do conjunto, vai, no entanto, a pouco e pouco, confirmando as teses já defendidas em termos não analíticos mas talvez intuitivos (holísticos) pela argumentação yin-yang.
Parece-me um bom exemplo desta aproximação, a palestra de Michio Kushi intitulada "Transmutações Atómicas" traduzida e editada em português como "Guia de estudo do Instituto Kushi" em Portugal.
O desenvolvimento das chamadas "reflexoterapias", desde a reflexologia do pé até à da aurícula, são, em si mesmo, homenagens aos princípios invioláveis da ciência acupunctural e do princípio único.
MICRO/MACROCOSMOS
Enfim, a vida é um todo e o homem é parte integrante tanto do micro como do macro-cosmos. Por isso a Macrobiótica não pode fechar-se em si própria, sob pena de se trair. Terá constantemente de compreender a complementaridade dos opostos, os fios que a ligam a outras fontes não só orientais (yoga e artes marciais, por exemplo) mas também ocidentais.
Um órgão de informação é, por natureza, o lugar ideal para percorrer esse caminho de aproximação e para travar esse diálogo.
Sem o rótulo de Macrobiótica ele pode, no entanto, ser por isso mesmo muito mais fiel ao espírito do principio único e da dialéctica yin-yang.
E pode, sem trair a filosofia central do taoísmo, estar atento e aberto às técnicas de promoção de saúde que as pessoas , por enquanto, ainda necessitem, até porque o grau de evolução não é ainda igual para todos, conforme Michio Kushi já tem alertado.
Uma revista de espírito macrobiótico deve preocupar-se, principalmente, em alargar essa família e não em falar exclusivamente para a família.
As revistas portuguesas de saúde pecam todas por esse carácter doméstico, falam todas para a família, sem respeito nem atenção por outras formas alternativas de vida, e até sem perceberem que na abertura e no alargamento a novos públicos está a chave do sucesso comercial.
Nem isso ainda aprenderam.
Muita coisa, no mundo holístico, já mexe em Portugal. Admite-se, portanto, que as revistas continuem a ignorar esse mundo, mais ocupadas em coçar o umbigo?
Por outro lado, tarde ou cedo, mesmo os que mais hostilizam a Macrobiótica, lá irão parar quando chegar a sua hora. É dos livros e da experiência. Muitos que a hostilizam, aliás, não é por mera e emotiva aversão mas por receios bem sérios de lhes "acabar com o negócio dos frasquinhos'',
Mas para que aumente o movimento de "conversões" à Macrobiótica, é preciso inverter a estratégia até agora lamentavelmente seguida: é preciso ser tolerante, compreender o grau evolutivo de cada um, sem jamais transigir, evidentemente, com tudo o que é frontalmente adverso à ética rigorosa do yin-yang.
Separar o trigo do joio, é tarefa de uma direcção e de uma chefia de redacção com inteligência, cultura e conhecimentos técnicos suficientes para nunca se deixar enredar e subverter na lógica comercial de puros negociantes do ramo ou, por outro lado, nos equívocos da ciência analítica, no metabolismo das inas e etc.
Não podemos é rejeitar, no entanto, toda esta Medicina Metabólica em bloco, ou toda a Homeopatia, ou toda a hidro-terapia, ou todo o yoga, etc.
O que temos, sim, e uma revista é lugar ideal para isso, é de mostrar a superioridade dos métodos macrobióticos e até dos militantes macrobióticos (difícil, difícil!) em relação à maior parte dos outros.
O que não podemos é dizer que todos os métodos, fora da Macrobiótica, são maus, porque talvez todos sejam bons e óptimos desde que tomem como base a Macrobiótica. Esta a verdadeira superioridade que devemos mostrar.
Ainda que a Macrobiótica fosse o único método, uma revista orientada tão sectorialmente ou tão sectariamente, nunca conseguiria, em Portugal 1987, vingar, conquistando um público cada vez mais vasto para a área da compreensão yin-yang do Universo.