<cfv-2>revisão: segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2006 mein kampf 27/2/1997

MOVIMENTO MACROBIÓTICO

EM PORTUGAL

DIAGNÓSTICO DE UMA CRISE

(CONTRIBUTO)

27/Fevereiro/1997 - A crítica e autocrítica que tem faltado ao movimento macrobiótico em Portugal foi, com certeza, uma das causas do seu declínio.

Exercer a crítica e a autocrítica poderá ser, então, uma forma de inverter essa situação que pode levar o movimento ao colapso definitivo.

Se o movimento está doente, o mais lógico é começar por fazer o diagnóstico desse doente. E depois a sua oxigenação. O que até é natural entre terapeutas que se prezam.

Honra ao Francisco Varatojo que, com a reunião do dia 15 de Fevereiro de 1997, teve a coragem de inverter a marcha para o abismo, iniciando uma era de crítica e autocrítica internas, uma nova era, portanto, nos anais do movimento macrobiótico português.

1 - O seguidismo e uma certa subserviência em relação ao movimento macrobiótico americano (primeiro), europeu depois e, finalmente, suíço, pode ser uma das causas que explicam a decadência verificada.

O vício ancestral do português - depreciando a sua identidade e pondo-se de cócoras perante o estrangeiro - mais uma vez se verificou e mais uma vez fez estragos.

É do agrado nacional repetir o que os estrangeiros fazem, o que leva quase sempre a meter-nos nos buracos onde eles se meteram e a repetir-lhes os erros.

No caso da macrobiótica, a imitação poderá ser-nos fatal, nos 2 casos em curso noticiados por Francisco Varatojo:

Reflectir sobre a dissidência que se verificou entre Michio Kushi e a Suíça (que liderava o movimento europeu), é capaz de ser fundamental para compreender alguns dos motivos que levaram à estagnação do movimento em Portugal.

Talvez seja o momento de evitar mais estragos (irreversíveis) procurando a nossa própria identidade, reconhecendo a macrobiótica como :

2 - Estas 3 alíneas - «o movimento macrobiótico à procura da sua própria identidade» - denunciam, por omissão, outros tantos vícios que contribuíram para a estagnação do movimento :

3 - Outras causas, entretanto, contribuíram para as actuais dificuldades de expansão que o movimento regista:

Resumindo estas três alíneas, poderá dizer-se:

4 - A absorção de cada grupo no seu próprio casulo ou esfera de interesses (quase sempre de ordem comercial), poderá indicar-se como outro procedimento que contribuiu para «matar a galinha dos ovos de ouro».

Nos anos 70, parecia que essa galinha era imortal: com a exploração pouco sensata da linda poedeira, deixou-se que ela fosse emagrecendo e, em vez de ovos de ouro, passasse a pôr ovos de plástico.

É necessário que a galinha volte a pôr ovos de clara e gema, para regalo dos lacto-ovo-vegetarianos.

5 - A propósito de lacto-ovos: a falta de senso de humor - a ironia e a ambiguidade são taoístas, como se pode ler, linha a linha, no «Tao Te King» - deverá ter contribuído para uma certa monotonia nos meios macrobióticos, que pecaram também e quase sempre - como os lacto-ovo-vegetarianos - por um beatismo pouco saudável, por vezes mesmo intolerável e intolerante.

Radica nesse pecado, outro ainda maior: a falta de coragem autocrítica (já indicado).

O Yin-yang é, conforme Michio gosta de dizer, uma bola de borracha, elástica, flexível, descontraída.

Sem espírito de humor, fica a rigidez e o beatismo: que levam, em linha recta, ao fanatismo.

Poderá ser o fanatismo yang outra causa da decadência do movimento.

6 - Tem várias formas este fanatismo:

Surge assim outro sintoma da doença e que pode explicar a moribundez do (movimento) doente: o processo de yanguização e o consequente défice de Potássio (calamidade universal do Movimento). Yanguização que, em termos de Alquimia, corresponde ao Coagula, estado de morte-vida muito semelhante ao «zombie».

Sem ter que meter ninguém em tribunal, mas há a referir também o papel adverso de responsáveis e dirigentes da Macrobiótica: ausentando-se da obrigação de diálogo, foram excluindo muita gente ou levando muitos a que se auto-excluíssem.

Foi costume dizer-se que a Macrobiótica também sofria da pecha geral em movimentos. Desde o Papa Breton e surrealistas, que as excomunhões ficaram em moda. Não faltaram os «autos de fé» no seio da Macrobiótica em Portugal, terra de excomunhões, inquisições e outras coisas em «ões» como pontapés. Isto explica mas não iliba comportamentos dos dirigentes macrobióticos. Um responsável tem, por definição, obrigação de responder. Se os da política se estão nas tintas, já na Macrobiótica a irresponsabilidade é mais difícil de engolir.

7 - Outra forma de fanatismo yang:

- A utopia da cura a 100% e de que o ideal humano é não estar doente.

A utopia da cura perfeita ou a 100% é o mais contrário, como logo se percebe, à dialéctica relativista do yin-yang.

Mas ainda que tecnicamente fosse possível, a cura perfeita não é desejável à luz última do destino humano: a doença está cá como oportunidade de evoluir (e todos, incluindo macrobióticos, têm esquecido este postulado de ouro).

Quando se fala em cura (macrobiótica) trata-se de cura iniciática onde outro princípio de ouro prevalece: o das reacções curativas. Medicina correcta é a que provoca e orienta reacções curativas na alquimia da célula e não a que, de uma maneira ou de outra, abafa momentaneamente sintomas.

8 - Este desprezo pelas reacções curativas advém de uma dificuldade estrutural às medicinas sagradas, muito difícil de remover: o terapeuta, se quiser sobreviver (ganhar a vida) como terapeuta, tem que apaziguar sintomas e não pode educar o doente no caminho das reacções curativas. Ou seja, tem que se negar como terapeuta de compaixão que deveria ser.

9 - Mas ainda há outra causa mais subtil do fanatismo: a cura sem alquimia deixa intactas as doenças da alma.

E quando um macrobiótico se queixa, hoje, que não resolveu até agora todos os achaques, está a dizer, sem saber, que só conseguiu curar o corpo mas as doenças da alma permanecem.

No global, Oshawa chamou-lhe Arrogância, que é, em dialéctica yin yang, sinónimo de ingratidão à Ordem do Universo. E, claro, de ausência de autocrítica.

10 - Causa estrutural que também contribuiu para restringir a macrobiótica a certos «eleitos», é a da sua condição básica: exigência ao doente de autotransformação, autonomia e autosuficiência.

Se levassem essa exigência às últimas consequências, os consultores macrobióticos iriam perder em breve a clientela.

Ou seja: a macrobiótica, como técnica de saúde - e não como técnica de reproduzir doenças - contém em si, a prazo, o princípio da sua própria extinção.

Fica aos profissionais um campo, no entanto, muito mais vasto e nobre: o do ensino. Formar em cada ser humano um professor de saúde é o escopo mais lindo e mais nobre que a macrobiótica pode ter.

É a iniciação em que todas as medicinas sagradas falam.

11 - Colando-se, como sintomatologia, à medicina química, a macrobiótica poderá ter concorrido (e, o que é mais grave, parece decidida a prosseguir nessa rota para o abismo) para a sua automutilação.

A confusão de funções entre Medicina (que trata doenças e regra geral mal) e Macrobiótica ( que conserva a saúde), tem-se agravado e só tem retirado espaço de manobra à macrobiótica como terapia alimentar.

Oficializar a macrobiótica como medicina pode ser o ponto sem regresso.

12 - Se consultarmos a tábua dos 7 princípios da Ordem Universal, tão divulgada logo nos primórdios do movimento, talvez encontremos lá muitos dos pontos que, por omissão, contribuíram para meter o movimento num beco.

13 - A exigência de qualidade energética faz da macrobiótica um movimento de elite, handicap este de ordem estrutural. Não se pode fazer um movimento de massas e de grande sucesso público com uma filosofia que elege os seus próprios adeptos.

Nunca irá para a macrobiótica quem não merecer ir.

Uma filosofia de elite como a alquimia yin-yang é para quem deseja efectivamente evoluir na escala cósmica: ora, se fizermos um inquérito, 80% das pessoas, provavelmente, preferem sucesso na carreira, uma conta bancária bem recheada e muitas viagens ao estrangeiro.

Num tempo de hipermaterialismo, uma filosofia efectivamente espiritual como é a filosofia taoísta, não congrega massas mas selecciona elites. Com elas se fará a Nova Idade de Ouro.▼Δ