<97-10-28-dl> = diário de um leitor avariado - 7161 caracteres <cch-1>
ACTUALIDADE HOLÍSTICA
PEQUENAS TIRAGENS, GRANDE SACRIFÍCIOS
28/10/1997 - Pequenas tiragens, grande sacrifícios, aí estão elas, as revistas da «nova idade», ao serviço das causas perdidas (por enquanto perdidas): ecologia humana, holística, alternativas de vida, terceiro milénio, era zodiacal do aquário e tudo o mais que nasce da mágica cartola, do caldeirão a ferver que é a contagem decrescente para o ano 2000.
«Os tempos estão a chegar» - dizem eles, os adventistas do novo milénio. Mas, olhando em volta, vendo jornais e telejornais, muitos se perguntam se a agonia irá terminar ou se ainda agora começou. Será o Apocalipse um facto consumado, um processo sem retrocesso?
Grão a grão, o movimento holístico vai juntando forças para a saída colectiva na vertical, sem que os vários grupos, tendências e correntes se conheçam entre si e entre si dialoguem. Confinados em si mesmos, são ainda a imagem da época que dizem rejeitar, a era dos Peixes que tem como símbolo tumular a Cruz.
ESPÍRITO DE SEITA
A tornar o ambiente mais confuso, o poder político resolveu começar a perseguir aquilo a que chama «seitas», metendo tudo no mesmo saco: os que o são, os que nunca o foram e os que não têm nada a ver com isso.
«Há que estar atento e não deixar que se misturem as coisas» - diz a «A Capital» Francisco Vieira, da Sociedade Teosófica Portuguesa e o principal animador da revista «Portugal Teosófico» que esta organização publica trimestralmente. Atento ao fenómeno das seitas e preocupado em ajudar a Sociedade Teosófica a demarcar-se delas, distanciando-a desse anátema, Francisco Vieira irá certamente analisar o problema numa das palestras com que a Sociedade Teosófica tem assinalado os 75 anos de existência em Portugal.
Com uma longa tradição de «aggiornamento», a abordagem das questões filosóficas, na Sociedade Teosófica, é global e alargada, mas o duro calo da experiência ensinou também aos responsáveis que é muito difícil reunir e harmonizar tendências para que saiam novas forças do conjunto.
«Há diálogo e diálogo» - sublinha Francisco Vieira, consciente da ambiguidade que os processos de «unir a diversidade» sempre suscitam.
Que o diga também Pedro Veiguinha, o principal arauto da «unificação» através de um projecto que ele baptizou de «projecto Uno». Em breve nos dará notícias sobre as diligências que tem efectuado para reunir algumas organizações num encontro-debate. Sabe que vai encontrar as maiores resistências, pois o espírito de seita prevalece mesmo entre aquelas que o não são, mas continua a teimar.
MOVIMENTO EM ESPIRAL
Folha direccionada para os consumidores de produtos naturais, a «Informação Espiral» tem-se mantido regularmente como intercomunicador entre adeptos da causa holística, num trabalho de «divulgação de alternativas» que os objectivos estatutários da cooperativa Espiral determinam.
Depois de se terem extinto as revistas «Natura», «Vida Sã», «Saúde Actual» e «Mar e Vento», a «Informação Espiral» foi o único porta-voz dos ideais eco-alternativos.
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Realizado por pessoas próximas da Espiral, aparecerem recentemente duas publicações que diversificam o leque e reforçam as fileiras eco-ambientalistas. São elas: «Ar Livre», publicação trimestral de «Natureza, Sociedade e Humanidade» e «Beija Flor», «revista de saúde natural, ecologia e cultura».
«Ar Livre», dirigida por Tiago Quelhas, é realizada por uma equipa de jovens que, pegando no testemunho de José Carlos Marques (a trabalhar em Bruxelas), Sílvia Montarroyos e Vítor Quelhas, se mostram capazes de continuar as movimentações ecologistas das décadas de 70 e 80: José Dias Marques, A. Martins Ferro, Aurélio Porto, Manuela Lourenço, Paula Benevides e Sónia Cavaleiro apresentam um conjunto de artigos de actualidade, nomeadamente os que apontam para os princípios filosóficos e ideológicos do «ecologismo profundo», aquilo a que hoje em dia os reformistas do ambiente chamam «fundamentalismo».
O grafismo de «Ar Livre», bastante soft e de bom gosto, é de Carlos Reis e Vasco Rosa. Declarando-se essencialmente noticiosa, esta nova revista propõe-se apresentar «sínteses informativas, acompanhadas ou não de comentários, com base na imprensa diária ou especializada e em outras fontes.» O ambiente natural merece a melhor atenção nas suas páginas mas «também o ambiente humano». Fome, direitos humanos, desenvolvimento sustentável, paz, renovação cultural, democracia, estão entre os assuntos prioritários. As alternativas não serão esquecidas, promete a revista «Ar Livre».
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Sobre o primeiro número da publicação «Beija-Flor», destinada a constituir-se como suporte de publicidade na área dos produtos e suplementos alimentares, já «A Capital» deu uma primeira notícia anteriormente, quando a revista - de distribuição gratuita - surgiu nos escaparates. Resta lembrar que os temas de ecologia humana estão presentes em força na revista «Beija-Flor»: alimentação, doenças da alma e novos druídas, correspondências cósmicas, manutenção corporal, astrologia.
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«Urânia» - «divulgação temática no espírito de Aquarius» - é dirigida por Luís Resina e inclui no primeiro número colaboração de nomes ilustres do esoterismo português: Maria Flávia de Monsaraz escreve sobre «A Viragem dos Tempos», Luís Resina sobre «Ciclos, Reinos e Eleições» e José Manuel Anes sobre «o simbolismo iniciático da Flauta Mágica», propondo hipóteses ousadas que Mozart, na qualidade de iniciado maçónico, talvez não se importasse de subscrever.
A mística maçónica parece constituir hoje uma daquelas influências inescapáveis dos grupos e individualidades que se vão impondo à opinião pública. Sem nada que ver com os aproveitamentos políticos que têm sido a tónica dominante e pública desta organização, é como se os ideais que deram origem à Maçonaria regressassem à pureza original, às fontes primordiais.
Por isso se diz, com muita razão, que todos os caminhos do esoterismo e das ciências sagradas vão dar ao Egipto, indo o Egipto dar à Atlântida e desta, em directa, à Lemúria, pátria das pátrias.
É o percurso que, com mais ou menos consciência, os grupos «aquarianos estão realizando».