<79-10-27> yin yang

AUTOTERAPIA ALIMENTAR

 YIN-YANG

Este texto (publicado?) ilustra uma fase de alargamento da ecologia a partir da macrobiótica e da macrobiótica a partir da ecologia. Insistia já nessa altura na ecologia humana, que ainda hoje continua tabu. Curiosamente aparece uma referência ao mundo vibratório , ao mundo das ondas e só faltou a palavra «frequências vibratórias» para antecipar o meu pensamento actual.

De qualquer maneira esta fase do yin-yang teve uma importância decisiva para a introdução no mundo das energias (mais) subtis. Não sei se este texto chegou a ser publicado, pois os últimos parágrafos são pouco lisonjeiros para com a medicina, que chego a classificar de carniceira...Coisa que ontem e hoje não se pode dizer e muito menos publicar. Parágrafos antes, escrevo eu coisas ainda mais censuráveis, desta vez com alusões aos guardas do gulag, pensando nos quais este texto é escrito. Esquerdista que se prezasse não podia ser macrobiótico nem vegetariano. Entretecia-se a rede de equívocos em que me fui debatendo neste gulag português, à beira mar plantado. A dialéctica dos contrários, a que se adequava como uma luva o yin-yang, aparece neste texto como palavra-chave do que tenho pensado ao longo destes anos. Os opostos complementares voltam a reaparecer em força na radiestesia holística ( 5/Setembro/1999)

27/Outubro/1979 - Se o homem é o que come, como afirma a macrobiótica e Michio Kushi reafirmou, mais uma vez, nas conferências que realizou a convite do movimento macrobiótico português, teremos de saber em que medida essa expressão é uma metáfora.

Se tomarmos o «alimento» no sentido estrito , isto é, o que, depois de cozinhado, se tira do prato e mete à boca, afigura-se-nos arriscado afirmar que o homem é apenas o que come, porque o ser vivo e por maioria de razão o homem em sociedade, é função do meio em que vive e do comércio biológico, do intercâmbio energético que se estabelece entre ele e o ambiente.

Sem tomar aquele provérbio à letra, deveremos então traduzi-lo por outro: «cada indivíduo ou cada povo é aquilo que consome» e ficaremos mais próximo da verdade, subentendendo nos consumos , o que o ser vivo retira do ar, do ambiente electromagnético, das radiações e das vibrações, das ondas curtas, longas e médias...

Numa das suas lições mais interessantes , Michio Kushi falou de comida fisicalizada (legumes, cereais, vegetais, frutos, carne, ovos, etc.) e falou de comida não fisicalizada : mas ambas as categorias são alimento.

«Diz-me o que consomes, dir-te-ei quem és» e «pela boca morre o peixe» - sim, são dois aforismos da tradição popular portuguesa livremente adaptados aos tempos modernos e à tradição taoísta renascida que Michio Kushi ensina. Nesse veio de sabedoria popular , temos um dos pontos radiais da doutrina alimentar ou dietética mais aberta e tolerante que se conhece. Mais de acordo com a Ordem do Universo.

NADA É PROIBIDO

TUDO SE PAGA

Sempre zelosos de proibir alguém de alguma coisa, pretendem alguns puritanos e puristas - vegetarianos, carnívoros e assim-assim - que a macrobiótica zen é a arte de proibir uns alimentos e autorizar outros.

Nada mais falso e errado. A grande via da dialéctica taoísta não proibe nada, a não ser aquilo que entra no campo do puro homicídio: a química, o conservante químico, o corante químico, o refinado, o alimento industrializado, etc.

De resto, a macrobiótica deixa ao discernimento de cada um escolher a dieta que lhe serve , na certeza de que, segundo a lei do carma, «tudo neste universo se paga pelo justo preço.» Tudo.

Para os que acreditam na ordem do universo e nas leis imutáveis da natureza, para a macrobiótica zen e para Michio Kushi - a mais actual e evoluída expressão de síntese entre o Oriente e o Ocidente - as leis desta Ordem do Universo são imutáveis e as infracções a essas leis não se chamam «pecado» - como em qualquer teologia balofa de moral jesuítica ou confucionista - mas chama-se «doença». A infracção à ordem do universo é a doença, logo: recuperar a saúde é reaproximarmo-nos de novo dessa ordem da qual nos afastámos por arrogância, orgulho, sofística.

A punição, portanto, não é de ordem moral nem legal: é física, psicosomática, material. A punição é a doença. E todos, portanto, têm o direito de estar doentes, se é esse o seu desejo, se é esse o seu grau de discernimento cósmico (quer dizer: ecológico...).

Cada qual - indivíduo ou povo - é o que consome, e cada qual (o indivíduo ou povo) é livre de consumir o que lhe dão, impõem ou ele conquista... Talvez a idiosssincrasia do povo português possa ser explicada , em grande parte, pelos consumos aqui predominantes ao longo de séculos e ao longo dos últimos anos: batata, cerveja, vinho, cereais refinados, frutos quimificados, etc., etc., podem perfeitamente compor um quadro do nosso carácter colectivo, dos nossos problemas, das nossas contradições e até de certos maioritarismos que se exibem como bandeira quando, no fundo, e à luz de uma óptica rigorosamente científica, são apenas dramáticos handicaps nossos. Consumindo o que consumimos - futebol, batata ou publicidade televisionada - não admira ser o que somos.

Para a ética macrobiótica, portanto, não existe nenhuma noção ou tentação moralizante: existe, sim, um jogo dialéctico de contrários complementares, de antagonismos complementares, yin yang, as duas forças originais do universo. É jogando com eses complementares, é apoiado no Princípio Único que o homem progride na espiral da criação cósmica. Depois de saber que alimentos são mais yin e que alimentos são mais yang e como se distribuem essas duas emanações de energia ki sobre toda a biosfera, o homem possui a bússola para se orientar na dialéctica dos contrários, para seguir através das tempestades não às cegas mas com os faróis do discernimento.

Daqui resulta uma outra noção - a de polaridade - fundamental nos ensinamentos de Michio Kushi.

CONTRA A MANIPULAÇÃO VIOLENTA

DO HOMEM PELO HOMEM

Acusados embora de elitistas pelos que só entendem a reivindicação operária a nível de exigências salariais e outras exigências de carácter quantitativo ( mais do que legítimas) , eis que os grevistas ao supermercado, à indústria alimentar, aos tóxicos da sociedade de consumo, aos refinados, corantes e conservantes químicos, representados em Portugal por correntes vegetarianas e por uma corrente macrobiótica zen, na linha de Oshawa e Michio Kushi, significam um importante movimento de contestação, partilhado principalmente pela pequena burguesia , até agora a mais sensível ao cancro médico, à exploração da indústria médica e aos absurdos do consumo médico.

O operariado - mais sujeito à tirânica política das Caixas de Previdência e serviços médico-sociais, mais na dependência e na beata ou incrítica adoração do médico - tem acordado mais lentamente para uma reconversão dos consumos em geral e dos consumos em geral e dos consumos alimentares em particular, para a descolonização do seu corpo.

Não quer dizer, porém, que entre as associações macrobióticas hoje existentes em Portugal não se encontrem trabalhadores, que já descobriram a burla da medicina e procuram na cosmologia materialista dialéctica do taoismo zen um caminho de autosuficiência em geral e de autocura em particular.

Alguns acusam de elitistas os seminários realizados em Lisboa pelo mestre Michio Kushi, vindo de Boston e para burguês o custo de frequência do curso, afinal um curso completo contra a alienação e contra a exploração do homem pelo homem.

Deveriam antes acusar a inépcia , a ignorância e a malevolência das autoridades ou entidades sanitárias e de higiene pública em Portugal, ou de medicina preventiva, que muito coerentemente não apoiaram nem poderiam apoiar a vinda de Michio Kushi, dado o carácter subversivo do sistema por ele proposto, dada a importância das técnicas de libertação e autosuficiência que ele ensina e dado o carácter revolucionário, de radical e profunda descolonização cultural, que o self government terapeutico-alimentar ensinado pela macrobiótica, coadjuvado pela massagem shiatsu, pela acupunctura , etc., têm.

Acham caro um curso do Michio Kushi, ele que ensina a técnica da libertação.

Mas não acham caro pagar por uma consulta a eminente especialista o mesmo preço (o facto de as Caixas pagarem não modifica em nada o fundo do problema, pois será sempre o povinho contribuinte a pagar essas e outras ...), para ficar mais doente, mais escravizado à medicina e possivelmente sem algum órgão vital, dos muitos órgãos que a medicina está sempre pronta, via cirurgia, a extirpar-nos.

Pagar trinta contos para ficar sem rins é um progresso da ciência e ai daquele que estiver contra o progresso, porque lhe tiram então os dois rins...

Pagar mil escudos para se libertar de toda essa carniceria e carnificina, para construir um mundo novo sem bisturis, sem cirurgiões, sem violências médico-cirúrgicas é um abuso burguês só para benefício de burgueses...