1-3
< 92-01-04-ac-cf> ac a cf - sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2003-novo word - 8212 caracteres- <arade-5><diário91>cartas>CONVERSA DE SURDOS
Lisboa, 4/1/1992
Venho desabafar contigo, sim, porque só contigo posso conversar sobre esta «conversa de surdos» que tem sido toda a vida a minha sina de pregador no deserto. Até parece que quero impingir uma doutrina às pessoas, ou que estou ao serviço de um partido, de uma religião, de uma igreja, de um exército de salvação, de uma corrente, de uma seita. Até parece que estou vendendo o peixe de qualquer ideologia ou doutrina ou escola.
E, no entanto, vendo bem, se alguma coisa quis vender foi esta ideia básica e fundamental: que as pessoas dependam cada vez menos das monodependências (tóxicas e nem só), que fiquem menos escravizadas ao sistema e aos subsistemas, que não se deixem enredar na complicada rede de interdependências que o sistema continua a manter e a perpetuar, pois quer sobreviver e só sobrevive devorando, no fundo, a alma, o corpo e a bolsa das pessoas. Tudo vai dar aqui: todos os malentendidos meus com as pessoas que mais estimo, radicam aqui.
Quando aconselho normas alimentares segundo a lei do bom senso, não estou a vender nenhum peixe: estou a tentar que as pessoas, cultivando menos o seu egoísmo, estejam a descarregar obviamente o seu karma. Toda a minha doutrina -- se doutrina há -- radica aqui.
Quando ouço as longas queixas das pessoas -- regra geral porque lhes dói aqui, ou ali, ou porque têm de ir fazer um labirinto de análises, ou porque têm que ir à faca -- não há outro remédio -- rapidamente faço um balanço de todo o falhanço da minha vida, que usei, quanto pude, para informar as pessoas de como se livrar de tudo isto.
A verdade é que o fiz sozinho, pois a conversa de surdos tem sido, não só com os médicos e/ ou com os tecnocratas, inimigos declarados e oficiais das pessoas, mas com aqueles que poderiam parecer mais perto ou mais afins da minha «luta» de solidariedade inter-humanos : inclusive com os chamados lacto-ovo-vegetarianos, com os quais alguns me confundem, entre as muitas confusões que é corrente fazerem sobre o que penso e o que escrevo.
Meu irmão José, aos 30 anos, curou-se de uma nefrite pelos métodos vegetarianos: eu lia a revista «Natura» lá em casa dos nossos pais, porque ele a assinava. Ele, 40 anos depois, continua lacto-ovo-vegetariano, e eu acho que, face à ecologia alimentar, muita coisa tem que ser emendada neste vegetarianismo larvar, superficial, empírico, mas acima de tudo feito de ideias feitas que, no fundo, pertencem ao próprio sistema e lisonjeiam os mais elementares instintos sensoriais, além de continuarem levando pessoas para os consultórios médicos e mesas de operações. Quer dizer e resumindo este aspecto fulcral da questão -- a que chamo «conversa de surdos». Se insisto na ecologia alimentar yin-yang, não é por exotismo pró oriental ou por pendor místico e metafísico (embora também seja e não vejo motivo para sentir remorsos): mas porque a comida, a esta luz, é uma forma de conhecimento e aponta para «abrir o discernimento», enquanto as correntes lacto-ovo-vegetarianas, não passam do terreno escorregadio do «sabe bem», do «agradável ao paladar», do «natural porque sai cru da Natureza», enfim, uma série de mitos, ingenuidades, mas principalmente de atributos sensoriais, que lisonjeiam, que continuam lisonjeando os hábitos de gosto já inculcados pelo sistema e que, portanto, as pessoas adoptam porque «gostam» muito disto ou daquilo.
Mas não é de gostar ou não gostar, expressão que define o hedonismo sensorial de toda uma filosofa de vida, que se trata. Mas de discernir ou não discernir, compreender ou não compreender, perceber ou não perceber o sentido geral da vida e do universo. A merda é que a comida ajuda pouco mas ajuda alguma coisa. A «visão» sensorialista, pelo contrário, liga-se à concepção «religiosa» do naturismo mais fanatizado, que considera «pecado» a carne, por exemplo, e uma grande «virtude» o não comer carne. Esta dicotimia dualizante, não deverá existir em uma concepção da ecologia alimentar yin yang, chamada «macrobiótica».
A minha conversa de surdos, aliás, é também com os próprios que se rotulam de «doutores em macrobiótica» e que, segundo me parece, não a executam na sua plenitude e na sua clareza dialéctica, porque não leram os textos sobre macrobiótica com o discernimento que a própria macrobiótica, para o ser, deve dar. E se não dá esse discernimento, então não é macrobiótica, é melhor acabar.
Em todo o caso, neste minha «conversa de surdos», tenho que me aproximar, em última instância, dos «macrobióticos», pois, apesar de tudo, realizam um certo distanciamento em relação aos horrores que são os ovos, os lácteos, os doces, as frutas, etc., etc.
Valha-me Deus, não é por ascetismo, não é porque o Michio disse num livro ou numa conferência, não é por obediência dogmática a um sistema doutrinal, mas apenas por bom senso, apenas por experiência que afirmo isto sem admitir lugar a dúvidas: é apenas pelo exercício do tal «discernimento» que, mesmo não sendo muito, está estreitamente ligado ao tipo de alimentos que se comem e de tóxicos que se evitam.
Cá estamos de novo na «libertação das pessoas» e a comida é uma ocasião diária disso. Para quem não sabe iniciar-se de outra maneira, é uma iniciação simples. Exemplo disso -- a tal «conversa de surdos» e da minha luta perdida, foi que não consegui evitar, à minha filha, uma anestesia geral aos 16 anos, para lhe extrair dois terríveis sizos: a minha teoria é que tudo vai dar ao excesso de lacticínios em que esta geração, mais ainda do que as outras, chafurda. Mas os técnicos dentários -- inclusive aqueles que, como meu irmão José, têm responsabilidades porque até são vegetarianos -- quando se chega a essa minha tese anti-lacticínios, reagem com bastante violência contra. Qual lacticínios, qual quê. Ele é lacto-ovo-vegetariano e pode lá admitir que os lacticínios tenham criado toda esta geração com dentes desmesurados -- da descalcificação endémica dos carnívoros de ontem passou-se a uma hipercalcificação endémica hoje, a precisar de longos tratamentos e, principalmente, de prolongadas e chatíssimas próteses, que agora chegam a custar aos pais das criancinhas para cima de duzentos contos...
Claro: quando está instalado um negócio desta amplitude, que pode a minha voz, mesmo em casa, mesmo falando com a filha, no sentido de, no mínimo, dizer «reduzam os malditos lácteos», já que, se disser «cortem com eles», quem me cortará de certeza o pescoço é um dos meus mais próximos familiares. Estou, pois, numa interminável «conversa de surdos» com aqueles poucos com quem ainda converso e eu pergunto-me porquê, para quê, se não me meti nisto para ganhar nada, apenas talvez para não perder tanto. Sim, porque a minha filha continua e precisar de próteses dentárias e de cada vez as próteses sobem de preço, um dos grandes mistérios do mundo e do negócio actual com a chamada «saúde». Uma vida inteira pregando para evitar todo o tipo de Prótese -- a palavra ganha simbolismo -- e o que vejo, nos meus mais chegados, é as pessoas na monodependência das Próteses, ou de qualquer medicamento, o que é, no fundo, apenas uma outra forma de dizer o mesmo. Só queria que as pessoas tivessem evitado essa monodependência das próteses, e acho que o caminho do progresso passa por aí, sem estragar, inclusive, o negócio a ninguém.
Compreender os mecanismos do «ciclo do cálcio» é apenas um capítulo desta modesta luta de um modesto aprendiz, de um humilde eco-investigador: e a Ciência, a Ciência que sabe tudo, que sabe mesmo tudo sobre o «ciclo do Cálcio», não me diz uma palavra, permanece muda e queda sobre este fenómeno endémico da hipercalcificação dos jovens. Ah, linda ciência que sabe tanto, que tem tantos laboratórios, tantos livros, tantas universidades, tantas bibliografias, tantos doutores e licenciados e universitários, mas que -- perante o exagero de crescimento dos dentes nos jovens -- deixa a resposta, totalmente, aos fabricantes de próteses. Ah! Linda ciência! Como não há-de o meu modesto viver yin-yang, essa balançazinha que Mister Lao Tsé trazia às costas de um burrinho, sentir-se no meio do deserto, e como não há-de o meu discurso sobre ecologia humana em geral e ecologia alimentar em particular, ser esta interminável, insuportável conversa de surdos!