1-2 - <81-03-28-cpt> domingo, 24 de Novembro de 2002-scan

SOS OCEANOS (*)

[28-3-1981] - A morte dos oceanos pelo petróleo derramado é um dos fenómenos onde melhor se pode ver a distância que há entre uma visão ambientalista e uma visão ecológica da poluição.

Para o ambientalista reformador, a poluição é contingente, uma espécie de doença aguda. Surge mas pode desaparecer. Acontece, aconteceu ou acontecerá sem que uma lei profunda a torne inevitável.

Para o ecologista radical, a poluição do petróleo é sistemática e acontece enquanto houver petróleo, o que equivale a dizer que acontecerá (para) sempre... Assemelha-se mais a uma doença crónica do que a uma afecção aguda.

Para os ambientalistas há razões morais (a maldade das pessoas) ou legais (não se instituiu ainda uma polícia dos mares ) que explicam o fracasso das medidas e tácticas contra a poluição até agora usadas.

Para o ecologista não é a maldade (dos homens ou da Natureza) nem a falta de petroleiros: a verdade é que todas as medidas reformistas e soluções parcelares, remendos e recomendações, não podem dominar um problema que, em escalada, é da estrutura a não de conjuntura.

Para um ambientalista da antipoluição, o Petróleo nos mares vai-se remendando (com detergentes...) sendo impensável que o mundo possa vir a dispensar essa forma de energia fóssil.

Para o ecologista, o fenómeno petróleo em escalada (e suas consequências irreversíveis sobre o ambiente), enquanto existir irá manter e agravar as características de flagelo, escalada, fatalidade, processo sem retorno, ciclo vicioso, beco sem saída.

Para o ambientalista, é suficiente limpar a casa: está tudo certo, desde que a poluição vá para longe. Petróleo é apenas lixo e o lixo é só questão de varrer ou não varrer.

Para o ecologista, a morte dos mares não é uma questão de lixo porque é planetária e quando o planeta morrer não há outro.

Para o ecologista, não se trata de limpar as (próprias) costas, mas

A imagem de cerco é uma das que acodem mais frequentemente ao espírito do ecologista radical, que sabe o holocausto inevitável.

O ambientalista vê, entretanto, o fenómeno petróleo de cada vez, em cada uma destas partes, parcelarizando sempre e dividindo.

O ecologista vê o fenómeno petróleo-morte-do-oceano em todos estes seus aspectos encadeados (reacção em cadeia é outra imagem muito comum ao eco-observador) e considerea-o na globalidade de catástrofe que ele na realidade tem. Porque a realidade é o todo... e não as partes.

Recapitulando: o fenómeno petróleo exibe todos os sinais que marcam o «fim dos tempos»: Irreversível, crónico, logarítmico ou exponencial, sem retrocesso, escalada, ciclo vicioso, cerco, reacção em cadeia.

E dilemático: não se pode viver com ele, mas tem da se viver com ele. Semelhante portanto à pedra de Sísifo, tem o petróleo a imagem de eterno retorno ao ponto de queda do homem. De facto, um anjo caído.

Ainda recapitulando: o petróleo é sintoma crónico e não agudo, ou contingente. É sistemático e não acidental. É previsível e não imprevisível. Portanto, fatal.

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado, com este título, no jornal «A Capital», «Crónica do Planeta Terra», em 28-3-1981 ©