<crise-6> - os dossiês do silêncio – inventários do terror – retrocessos do progresso - cães insaciáveis – publicado ac 5 estrelas

RETROCESSOS DO PROGRESSO (*)

14/2/1981 - Eles dizem que vão curar o cancro.

Eles dizem que vão de foguetão buscar energia ao sistema solar, porque na terra os combustíveis estão por horas.

Eles dizem que vão rebocar icebergues dos po1os porque os países industrializados andam desesperados por água potável.

Eles dizem que vão descobrir vida em laboratório e produzir proteína alimentar a partir de petróleo, porque vem aí uma fome e peras.

Eles dizem  que vão transplantar cérebros, insatisfeitos de só transplantar corações e porque o incremento de doenças incuráveis é imparável como o progresso.

Eles já vendem, a baixo preço, máscaras para as pessoas respirarem nas cidades que eles tornaram irrespiráveis.

Eles dizem (murmuram) que ainda há um terço de ozono na alta atmosfera para destruir - e que, até lá, podem ir usando sprays, aviões supersónicos, até gastar o resto.

Eles dizem que vão pôr arame farpado nas centrais nucleares avariadas e que para a gente se defender das radiações deve tomar vitamina B.

Estas são algumas das questões de fundo que hoje se põem à humanidade. De nada serve querer iludir esta crise ecológica de fundo com crises anedóticas ou episódicas, jogos de poder entre partidos ou entre blocos.

Baseada que foi a produção económica na pilhagem desenfreada da Natureza, sabe-se hoje, talvez já demasiado tarde, que o globo terrestre, finito nos seus recursos, se torna cada vez mais pequeno para os impérios que querem continuar a explorar os povos e a viver à custa da Morte planetária de todos os ecossistemas e espécies vivas.

Mas como é cada vez mais reduzido o bolo, mais feroz se torna a luta pela sua posse. Luta a que alguns chamam crise económica mundial.

Luta que, apesar de todos os disfarces para desorientar as pessoas, é no fundo e na essência, a dos mais fortes, ricos e poderosos sobre os mais fracos e pobres.

É cada vez maior o número de pessoas que se interroga sobre o futuro que espera os seus filhos.

É cada vez mais consciente aquela vanguarda que se recusa enfiar o barrete de um progresso industrial que serve apenas o lucro de alguns, sem jamais contribuir para melhorar a vida de muitos. Está cada vez mais desperta a consciência moral do homem contra a Morte, a doença e a insegurança que lhe é imposta sob a desculpa e o alibi do crescimento, do desenvolvimento, da industrialização, do progresso.

É cada vez maior o número de pessoas que percebeu a barbárie de tudo isso a que eles chamam progresso, e que se recusam a pagar a factura que lhe apresentam em riscos, desastres, traumatismos, violências atrás de violências.

Irá o cidadão assistir, calado, à escalada de morte e destruição, sem se organizar numa frente unida de autodefesa contra o genocídio em escalada?

Irá o consumidor pagar cada vez mais caro o produto que o adoece e estropia?

Irá o jovem aceitar o mundo de plástico e cimento armado que esta geração, armada até aos dentes de mísseis nucleares, lhe prepara?

Irá o peão aceitar que o atropelem quando seguir calmamente no passeio?

Irá o contribuinte pagar sem refilar os impostos cada vez mais caros que esta sociedade o obriga a pagar para sustentar as verdadeiras orgias de desperdício que exactamente caracterizam essa sociedade?

Irá o país real continuar assistindo ao circo do país político sem dizer baia?

Cremos que as coisas estão chegando ao ponto de ruptura e que o ecossistema chamado ser humano, tal como os outros, começa a ripostar a toda essa violência institucionalizada, disposto a dizer basta. Disposto a ser cidadão de facto e de direito, e não só de nome.

Por isso cremos que um movimento de cidadãos, quer dizer, um movimento ecologista, é irreversível.

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(*) Publicado no jornal "A Capital", ( Crónica do Planeta Terra") , 14/2/1981 @@@