<greve-2> os dossiês do silêncio – os ismos da democracia – inédito (obviamente) ac de 1989

GREVES CONTRA O POVO

29/10/1989 - A rapaziada das greves está cada vez mais simpática e as duas centrais sindicais, as duas "intocáveis" que andam agora de beijoca na boca, acham que a célebre política da terra queimada, o "Quanto pior, melhor" , que fez e continua fazendo época depois do 25 de Abril, é a melhor forma de eternizar no Poder o Governo laranja que, reconhecido, agradece.

Os anarcas chamam a isto a "dentadura do proletariado". Outros preferem chamar-lhe a "concertação social" na sua melhor forma. De facto e na realidade objectiva, tem sido a "política da terra queimada" a atirar o país cada vez mais para a direita, como convém a certa pseudo-esquerda. Outros há, ainda( como eu), que sendo de esquerda e exactamente porque o são, chamam a isto a melhor forma de oprimir o oprimido e servir o Poder.

Eu bem queria manter o sorriso nos lábios e a esperança proletária no coração, mas à hora em que escrevo esta crónica, quarta-feira , já com 3 dias de greve ferroviária no papo, a única coisa que consigo articular são alguns palavrões que o pudor me impede de reproduzir em letra de forma mas que largamente me encheram os ouvidos entre Paço de Arcos e Cais do Sodré, desabafos vindos de gente do povo como eu e que, como eu, não deve ter carro porque se tivesse não se metia nestas carruagens com cinco vezes a lotação normal.

Para chegar a horas ao jornal, fui obrigado a procurar um comboio hora e meia mais cedo e, mesmo assim, não me livrei da sardinha em lata que até às 10 da manhã vão ser as carruagens do transporte público onde - cidadão sem o privilégio do automóvel - sou obrigado a viajar.

Greves contra os ricos , estas? Mas então porque são os pobres a pagar as favas?

Notável é a silêncio que sobre este grevismo intermitente observam os mais ilustres e cotados cronistas da nossa praça, tudo com medo que lhes chamem reaccionários ( com uma única excepção para o Vítor Direito, única voz independente a pôr o preto no branco, nesta como em outras situações do Gulag português).

Aliás, lendo a nossa afadigada imprensa, sempre a primeira a saber as últimas, quem não anda de comboio julgará que tudo corre sobre rodas e que não há pessoas a viajar com o pé no estribo e com a porta aberta das carruagens em movimento, carruagens à tulha a inclinar-se para lá do ponto de equilíbrio com cinco vezes a sua normal lotação e à beira de se enfeixar no comboio que vem em sentido contrário.

Quem conta e suporta isto é reaccionário, mas quem promove tais sevícias ao utente (a milhões de utentes) é de esquerda e socialista, querem lá ver? É natural que a Imprensa mantenha a cumplicidade do silêncio, e os cronistas, que andam todos de carro, não tenham dado por nada. Aliás, se desse e o dissessem, os compadres iam logo dizer que eram reaccionários e aqui ninguém quer ser reaccionário.

Em pleno processo do "quanto pior, melhor", em pleno processo diário de "lixar o próximo", que, mais do que nunca, é regra de oiro no dia a dia do Poder em Portugal, não deixa do ser curioso que as mais legítimas reivindicações de (grupos sociais) oprimidos sirvam, elas também, para oprimir (ainda mais) outros oprimidos.

A isto chama-se a "pura perversão da democracia". Quando as greves que se fazem, no legítimo propósito de defender os direitos ofendidos de alguns trabalhadores, servem na prática e objectivamente para chatiar ainda mais o já chatiado cidadão anónimo e sem poder reivindicativo, há aqui , qualquer coisa que não tem nada a ver com legitimidade reivindicativa e movimento sindical porque é pura e simplesmente a sua total perversão.

Quotidiano deste? Não, obrigado.