1-2 < 92-10-29-mc> memórias do cabo - 3955 caracteres <cabo-2> <diario92>

 29/10/1992

VOTEMOS NA CHICOTADA PSICOLÓGICA

 

Medida altamente popular, patriótica e moralizadora, e em defesa dos bons e sãos costumes da Grei, o Novo Zorrague vem apenas reforçar os outros que, na linha do IRS, têm dado uma nova fisionomia ao Portugal do Sucesso europeu.

E ainda agora a procissão vai na Praça.

Simplifique-se a burocracia. Em qualquer caso, beneficie-se o Estado, que mete assim mais uns milhões ao bolso e vende mais uns papéis de impresso necessários à operação. Medida moralizadora, portanto, foi esta do Zorrague pelas costas abaixo do Trabalhador pouco trabalhista e dado ao desfrute. Zorrague tão oportuno, só o da Beleza que mandou os reformados apresentar prova de vida.

Aliás, eu já tinha sugerido que metessem os velhos todos num pelotão de fuzilamento, e que depois chamassem os rapazes da tropa para carregarem sobre os infelizes velhinhos da Terceira Idade.

Pra frente, gente, se precisarem de ajuda para implementar a medida, chamem o Le Pen, que ele vem logo, ele é um especialista.

Força, rapazes, mandem vir o Gulag da Sibéria. Siberizem isto. Mas se acharem frio, mandem vir as câmaras de gás de Aushwitz, ou peçam emprestadas as da Petrogal, em Cabo Ruivo, que sempre ficam mais em conta e são mais quentinhas.

E zorraguem, gentes, forte e feio, dia e noite, a bem e a mal, ao pequeno almoço e à ceia, nas costas do trabalhador preguiçoso, espertalhão, finório.

Salazar caiu da cadeira porque não soube implementar a tempo uma medida tão necessária como esta e um chicote tão certeiro nas costas do trabalhador. Nem tinha lobbies a pressioná-lo para agir e gerir em conformidade. E vão ganhar.

Todos os trabalhadores devem votar saúde,  votar Moralidade, votar Democracia. Nada melhor que uma boa chicotada psicológica para acordar da letargia os trabalhadores deste deste País.