<vitrac-1> sexta-feira, 14 de Junho de 2002 - 6353 caracteres <vitrac> <literatu> <manifest> rascunhos - intuições ac - ensaios sobre a estética do obsceno- para um manifesto literário da modernidade - radicalizar a perspectiva para uma teoria sem dogma da crítica literária para uma ciência dialéctica ou não dogmática da criação literária
A LEI DA RELATIVIDADE
EM LITERATURA
2/Maio/1970 - Em «Vítor ou as Crianças no Poder», Roger Vitrac explora uma situação que viria a fazer lei em toda a sensibilidade moderna. Talvez sem se dar por isso, Vitrac utiliza ardilosamente um estratagema que viria a estar na origem de muita vanguarda literária, de que é expoente máximo a obra inalienável, indivisível (toda a obra) de Samuel Beckett: um posto de observação inédito para o autor, ou para a personagem que na história, no poema, na obra, é o alter ego do autor.
No caso de «Vítor ou as Crianças no Poder», esse posto de observação é o da experiência infantil, em oposição à dos adultos; mas outros postos de observação seriam descobertos: a experiência do louco, do toxicodependente, do doente profundo, do «out-sider», o do chamado «selvagem» [->>]
Se não foi descoberta e teorizada pelos surrealistas, esta lei da relatividade -- princípio diabólico por excelência -- foi, pelo menos, largamente praticada por autores surrealistas, (entretanto rotulados por André Breton sob a etiqueta prática de «humor negro» ou «non sense») que conferiram ao conceito «experiência em literatura» uma latitude e complexidade até então desconhecida.
DESARMONIA DOS CONTRÁRIOS
Quer se trate de uma idade contra outra idade (a criança contra o adulto, no exemplo de Roger Vitrac), de um grupo contra outro grupo (o colonizado contra o colonizador, o negro contra o branco, o judeu contra o nazi, o aluno contra o professor), de uma classe contra outra classe (o proletário contra o pequeno-burguês), de uma vivência contra outra vivência (o doente contra o sadio, o anormal contra o normal, o «out-sider» contra o instalado, o drogado contra o imune, o celibatário contra o casado, o infractor contra o legal, o criminoso contra o polícia, a mulher contra o homem...), uma conclusão provisória, na busca de uma lei geral, pode ser enunciada: a Modernidade (ou Prospectiva) em literatura, vem quase sempre aliada à ideia de uma resistência às normas estipuladas, aos valores hierarquicamente impostos, às autoridades executivas, à ordem reinante, instalada e considerada até aí -- até surgir o texto -- imutável, indiscutível.
A Modernidade -- a existir -- vem sempre ligada a uma estética do Obsceno, quer dizer, uma quebra de regras e tabus e antinomias e rótulos e classificações-->>.
Na melhor das hipóteses, Modernidade é uma literatura de marginados, excluídos, segregados pelos «status quo» vigentes.
A esta luz, o fantástico em literatura aparece apenas como um posto mais diferente de observação.
Entre os postos de observação «diferentes» que se tornaram clássicos na chamada literatura de ficção científica, está o de ver a Terra do Planeta Marte, o que, em princípio, gera uma «perspectiva de escala» obviamente interessante e poética.
«Vítor ou as Crianças no Poder» não será um dos mais frisantes nem dos mais conscientes, mas é exemplo significativo de modernidade ou prospectiva literaria; um claro exemplo de como também o humor resulta de uma alteração de perspectiva epistemológica e de novos postos de observação da realidade, de novas ópticas além das convencionais; um exemplo, pois, de que o humor não é uma evasão, denegação ou sonegação do real mas a descoberta nele de insólitos, inéditos ou originais e mais profundos aspectos.
A revolução, modernidade ou prospectiva literária tem em Roger Vitrac um cultor brilhante, porque ele conhecia, ao menos de intuição, os mecanismos que estabelecem a desordem e denunciam, portanto, determinada ordem estabelecida, seus crimes e suas contradições.
Quando se procura uma nova literatura -- uma literatura prospectiva [??] -- é fundamental esta questão das ópticas possíveis. Dela é corolário o sentido da relatividade que vem substituir o do absolutismo. A nova literatura é dialéctica, por oposição aos monolitismos dogmáticos, aos sistemas metafísicos, imutáveis e inamovíveis. É contra a imutabilidade dos dogmas (a ciência, incluindo a ciência literária, instituiu-se, como se sabe, em Dogma maior da religião contemporânea). É pela mudança, pelo movimento, pela INSTABILIDADE [??].
Se aqui fica assinalado o caminho para uma lei geral da literatura e da criação, uma semântica do imaginário humano, então acredito que a Estética do Obsceno seja o campo certo da criação poética florescer, o método eficaz de não criar dogmas a partir de teorias, de fazer caminhar e encaminhar para a ciência (dialéctica) a análise crítica ou análise crítica literária.
A literatura de novas ópticas é subversiva no sentido em que vem afirmar haver mais mundos e mais «marias na terra», dando a palavra aos que até agora a não tinham, ao Terceiro, Quarto e Quinto Mundo dos indivíduos e dos povos: os deserdados, os heréticos, os marginados, os humilhados e ofendidos, os excluídos, os eternamente vencidos, aquelas a quem a própria condição de «submundo» lança sobre eles designações geralmente pejorativas, rótulos ou etiquetas que a medicina, a sociologia, a psiquiatria, a política (em suma as autoridades piossidentes) se encarregam de inventar: criança, toxicodependente, louco, doente profundo, anormal, out-sider, anarco-libertário, homosexual, negro, colonizado, presidiário, interno dos hospitais, ------>>>>>>>>
A perspectiva de escala em literatura é a descolonização em sentido lato, é o Terceiro Mundo da Literatura.
--temos, em resumo, a propósito de Roger Vitrac e do calão (os dois últimos textos a serem teclados para esta manifesto aberto), algumas noções básicas -- a sublinhar eventualmente nesses textos -- ao desvendar os mecanismos e dispositivos que regem a imaginação criadora de ontem, de hoje, de sempre: