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VERSO E REVERSO

CARTA DE PETER HANDKE A STEFAN ZWEIG

SOBRE A SORTE DA SORTE GRANDE

Lisboa, 27 de Fevereiro de 1992

Pesquisas levadas a cabo pela equipa de terreno do Instituto Polaco de Arqueologia Industrial, reforçaram os cientistas na convicção de que o texto aparecido nas cavernas de Maastrich, a duzentos quilómetros de Viena de Áustria, poderia ser atribuído ao escritor Peter Handke, aquele fatigado escritor que da Fadiga fez oxigénio, metafísica, ontologia, corpo matricial do universo, e que, em boa parte por isso, continua sem exegese crítica possível que lhe valha, irredutível a todos os reducionismos da análise psicopatológica e semântica, quiçá estruturalista, a mais usual nos açougues europeus de carne fresca e virgem.

Mas os arqueólogos de Maastrich, depois de uma análise espectral ao texto descoberto, concluem pela veracidade da tese: os manuscritos são, de facto, de Peter Handke, que os terá manuscrito (obviamente) e dado a dactilografar posteriormente à sua amada Catarina, que subitamente atacada de gripe asiática teria descurado a tarefa do seu amorável noivo . Esses textos, ameaçados de apocrificidade, correspondem a uma fase menos desejável da sua inexistente carreira. Peter, como hoje se sabe, esteve sempre atrás das grades (em sentido figurado), jamais conseguiu ter força para dar um passo em frente, deixou-se arrastar e submergir, como uma casca de noz ou -- na melhor das hipóteses -- uma rolha de cortiça que a corrente do Danúbio levasse até ao Mar Negro.

Entre os manuscritos descobertos nas profundas cavernas de Hoolsteicht, Handke preconiza a feitura de um testamento ponderal que ninguém sabe se chegou a concretizar e que assumia forma de uma carta a Stefan Zweig, um dos cronistas da Viena imperial, biógrafo deslumbrado com as luzes da cidade luz, com a grande capital da Europa antes do império Nazi pôr tudo em escombros e em ordem.

Em essa carta a Zweig, o escritor da Fadiga fazia notar que todo o verso tem reverso e que ele, sismógrafo não oficial das baixas frequências, dos movimentos subtis da História e da Matéria, não adivinhava nada de bom em função desse desmedido poderio imperial dos Habsburgos e da sua cidade símbolo, a Viena das valsas do Strauss que terá sido, segundo os mentideros da época, colaboracionista do Terceiro Reich.

Peter defende a tese, nessa carta a Stefan Zweig, de que as valsas de Strauss são uma espécie de canto do cisne -- outras, mais barrocos, diriam um «requiem» -- anunciador dos campos de concentração.

Dos muitos judeus que então emigraram para o Novo Mundo e nem só, ou dos que se suicidaram como Bethleheim [ ??? ], Zweig, Walter Benjamim, ninguém pressentia, mais do que Handke, a vaga que iria subir na Europa. O que hoje se pode perguntar, na esteira de Handke -- que andava sempre fatigado sem ninguém perceber porquê -- é que sinais se podem hoje pressentir de um possível holocausto que esteja para acontecer em breve. O melhor prenúncio de uma vaga má é sempre uma estranha vaga melhor que boa, tal como a que Viena viveu nos deslumbrantes e áureos tempos e antes da Segunda Guerra Mundial.

Quem nasceu à volta de 1933 nasceu de facto com a Era a que Handke, em outro dos seus inéditos semi-apócrifos, chama Era pós Apocalíptica, aquilo a que mais tarde, igualmente profeta, o Professor de ginástica e Educação Física Manuel Sérgio chamaria «pós modernismo».

Na carta inédita que o Instituto Polaco exumou das lamas vulcânicas de um vesúvio que terá estado em acção -- sem ninguém dar por isso -- durante o tempo dos crematórios, como resposta da Natureza ao extermínio em massa e às labaredas dos fornos, Handke refere a Zweig essa angústia na boca do estômago que o obcecava e que o levaria, em vida, a escrever o ensaio pai de todos os ensaios que foi «a vida enquanto fadiga crónica», ideia-chave que, depois de Handke, poucos teriam a ideia de conceber através de parto normal. Só trinta anos mais tarde, os magazines e cientistas iriam falar de «stress».

Só sir Tomas Bernhard ou mister Arthur Schnitzler se lhe igualam, na perspicácia analítica da Chatice e sua génese causal.

Pela força do pressentimento, pelo ardor profético de que vem animado esse terremoto sensível e autodestrutivo que foi autor semi-clandestino chamado Peter Handke, poucos se lhe igualam. Se a história respira, se há movimentos in e movimentos yang, se a uma crista da onda corresponde uma vaga, se o verso tem sempre um reverso, há que saber quem esteve primeiro, o que é causa e o que é efeito; se o esplendor e triunfo e poderio dos Habsburgos, com quase toda a Europa válida do tempo no Papo, ou se o Hitler que também tinha um apetite voraz e que, se não papou a Europa, tentou pelo menos aboletar-se com uns milhões de esqueletos, já depois de extraída a carne, o óleo e o marfim dos dentes.

Sigam a rota de Handke e é possível que cheguem a entender o inentendível. Tomem por boa a tese dele e talvez consigam explicar o inexplicável. Tomem o hipótese por tese e Juno pela nuvem, e talvez estejam a ler a história no sentido correcto. Do que Handke nos alertou com seus trejeitos incompreensíveis, foi de que talvez a gente esteja a ler o livro da história do fim para o princípio. Ou -- mais louco ainda -- com as letras de pernas pró ar. De acordo com o que o Instituto Polaco deixou expresso na adenda à carta do escritor, tudo está em aberto, a própria história ainda não é um livro completo, a filosofia oscila entre o serviço militar da tecnocracia e o desvendar crítico dos problemas. Tempo de encruzilhada, e sabendo pela prática que tudo se paga, que nada é gratuito, que o progresso tem preço e o triunfo um preço ainda maior, não custa crer no aviso de Handke e na ilusão naif de Zweig: este nunca terá percebido a «outra face» dos acontecimentos, opaco que esteve sempre ao dinamismo do bem e do mal, exaltando apenas um lado do mecanismo universal.

Quando ele escolhe personalidades vincadas e fortes para biografar -- aquilo a que todos nós chamamos génios -- , dá mostra desse mesmo hierarquismo e é por isso que a carta não foi um acaso, e muito menos acaso ter sido dirigida a Zweig, matagal de lugares-comuns mas apesar disso um homem com eles no sítio, pelo menos parece, um divulgador que entusiasmou gerações na vida de gente ilustre, enfim, um judeu que olhou a história sem perceber porque era e foi vítima de tudo aquilo que colectiva e individualmente o atingia. O karma na história é ainda mais difícil de percepcionar do que o Karma na vida individual de cada um.

Como é impossível perceber no ocidente laico e aintifundamentalista que há sempre uma causa para tudo o que acontece. Toda a gente culpa a sorte por não lhe sair a sorte grande. Mas toda a gente diz que teve uma grande sorte quando a sorte grande lhe sai.§