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25-3-1991

O ROMANCE DE TOM WOLFE

FILMADO POR BRIAN DE PALMA

«GOLDEN BOY» DE WALL STREET

JULGADO NO INFERNO DE BRONX

Não se afigurava tarefa fácil ao realizador e produtor Brian de Palma, meter em duas horas de cinema a lava vulcânica que transborda do livro «A Fogueira das Vaidades», o qual valeu ao seu autor, o jornalista norte-americano Tom Wolfe, muitos prémios nos Estados Unidos e, consequentemente, a posterior consagração internacional.

A opção de reduzir o filme a um único fio da intriga mas segurá-lo bem, parece ter resultado. Não temos um filme caudaloso, amplo como um grande fresco sobre as misérias e grandezas de Nova Iorque, mas o «universo» escolhido, como se diz nas sondagens, o episódio do atropelamento de um estudante negro nas ruas sórdidas de South Bronx, foi suficientemente significativo e elucidativo para servir de ilustração ao monstruoso mundo restante. O caso de Sherman Mac Coy, «yuppie» da Park Avenue que se vê enredado, com a amante Maria, numa trama implacável, que lhe destruirá o emprego de «raider» em Wall Street, a família, a casa, a carreira de «golden boy», os amigos e a «high society» de que era ornamento, atinge facilmente as proporções do símbolo e essa, sendo uma das razões que tornou fulminante, como um rastilho, o êxito do livro, poderá ser também o que torna este filme alguma coisa mais do que uma simples americanada para português (e Terceiro Mundo em geral) ver.

Sem que possamos falar de uma «escaldante verdade», só porque assistimos à queda do grande «master of the universe» que o próprio Sherman Mc Coy se autoconsiderava, o filme também não mente assim tanto como as várias manipulações da imagem e os processos estilísticos utilizados, fariam prever. Para lá da tonitruante e grandiloquente maneira de narrar que se tornou regra no cinema norte-americano de grande consumo -- onde tudo parece girar ao ritmo e ao som (cavo) do murro -- «A Fogueira das Vaidades» situa-se naquela mediania de processos que pode significar, conforme os momentos, mais ou menos mediocridade.

Exemplo de manipulação inaceitável, porém, e que ultrapassa as regras de um jogo que, mediante a lei das compensações, poderíamos em princípio aceitar, é o uso desmedido da lente «olho de peixe» que propositadamente disforma o rosto daqueles personagens que, em saldo final, se pretendem odiosos, na perspectiva do narrador e do protagonista, este claramente «defendido» pelo narrador: são esses personagens «odiosos», o reverendo Bacon e o Procurador Geral, que a câmara impiedosamente «julga», ao mesmo tempo que o juiz, por uma deformação primária e sem sentido, desonesta e abominável como processo. Um pouco mais de «decência», sr. Brian de Palma, como diria o juiz da comarca de Bronx...

Porque o filme não tinha que ambicionar grandes voos, devia ter havido o bom senso de se manter riquinho mas honesto. Isto, no fundo, choca ainda mais, porque contrasta com algumas boas perspectivas de um estilo claramente roubado ao Orson Wells de «Rosebud» («O Mundo a Seus Pés») numa pastiche de «plongés» e «contre-plongés», que, como plágio, facilmente se aceitariam, sem refilar. Justificados, ainda por cima, enquanto metáfora, porque eles criam esse jogo do «alto e do baixo» que a guerra de classes, em foco na narrativa, reclama.

RACISMO DO AVESSO

O actor Bruce Willis desempenha a figura do discreto jornalista que, cansado da profissão e saturado de uísque, apanha a história da sua vida exactamente quando se encontrava no mais baixo da escala, escorraçado do emprego e em fase avançada de embriaguês crónica. É a última oportunidade de se redimir, como repórter, junto do seu patrão do «New York Post». O filme começa pelo fim, em plena apoteose do antes jornalista falhado, num «flash back» que, não trazendo novidades de maior, dá ao conto aquela amplitude «circular» -- sem fim nem princípio, como na vida... -- que agrada sempre encontrar.

Colocando do avesso o conceito corrente da palavra racismo -- de onde o branco sai quase sempre como réu inapelável e o negro perseguido e castigado -- não há dúvida que o escritor e jornalista Tom Wolfe consegue ter colocado nas boas graças do público um representante da rica burguesia nova-iorquina, proprietário de um bruto Mercedes( protagonista da história), fazendo dele a vítima, só no último minuto ilesa da prisão. É um favor que a alta burguesia novaiorqina nunca deixará de lhe agradecer. Independentemente desse racismo posto ao contrário, não há dúvida que ele teve o condão de transformar em «romance exemplar» o que podia ter sido a mera reportagem de um mero «fait-divers» nos escombros de uma Bronx paupérrima e segregada, onde as raças se acotovelam. Deste Quarto Mundo que Nova Iorque esconde nas traseiras, Wolfe, de parceria com Brian de Palma, consegue pôr o público contra o Bronx e a favor dos que ganham fortunas, em um minuto, na jigajoga da bolsa de Wall Street.

Não há Pulitzers que cheguem para lhes pagar.