1-2 < 91-05-27-ls> <rui-ls> segunda-feira, 5 de Maio de 2003-novo word
27-5-1991
JOÃO RUI DE SOUSA FALA DE «PALAVRA AZUL E QUANDO»
«NA FIDELIDADE AOS VALORES POÉTICOS
«PROCURO COMO SEMPRE PROCUREI
A MAIS LÍMPIDA COMUNICABILIDADE»
«Este livro enquadra-se no que julgo ser a dualidade fundamental da minha anterior poesia: a noite e o dia, as sombras espectrais e o plexo solar, a opacidade e a transparência, o traço recessivo, doloroso e a aspiração ao esplendor (do corpo e da alma), à alegria», declarou a «A Capital» o escritor e poeta João Rui de Sousa, uma das vozes mais discretas da moderna poesia portuguesa, um itinerário de fidelidade, como nos disse, aos valores do poético e ao rigor dos valores da expressão que caracterizou, segundo ele, a época marcada pelas revistas-movimento «Árvore» (quatro números) e «Cassiopeia» (número único).
«Formalmente, julgo estar, com este livro "Palavra Azul e Quando" (*), numa linha de evolução em que, desde "Meditação em Samos" (1970) até ao meu último livro, "Respirar pela Água" (1983), se procura uma clarificação do discurso poético, em favor, sobretudo, de uma mais límpida comunicabilidade, e uma certa intensificação do rigor expressivo.»
Com efeito, a poesia de João Rui de Sousa -- que se estreou em 1960 com «Circulação», publicado na Moraes, que tem seis livros de poesia no currículo e que agora apresenta «Palavra Azul e Quando», nas edições Átrio, colecção «O Lugar da Pirâmide», dirigida por José Manuel Capêlo -- vem, em termos de génese histórica e de tendência epocal, dessa geração, onde, à volta das duas citadas revistas, pontificaram nomes como os de António Ramos Rosa, José Terra, José Bento, Raul de Carvalho, Egito Gonçalves, Luís Amaro. Em pano de fundo, e como figuras tutelares das quais emanou maior influência, Rui de Sousa cita Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Camilo Pessanha, Cesário Verde.
Consciente desse «ar de família», que não nega nem repudia, e dessa filiação espiritual, João Rui de Sousa vai mesmo ao ponto de falar na «confluência» que então se verificou de «três grandes tendências muito vivas e dominantes na época»: surrealismo, neo-realismo e, representado pela revista «Távola Redonda», «um certo classicismo».
«Do surrealismo -- afirma -- teria vindo o valor da transfiguração da palavra, do imaginário, do fogo, do apelo poético, enquanto do neo-realismo, embora em termos mais depurados e retirando-lhe o sentido panfletário -- como faz questão de salientar -- o espírito de intervenção na cidade e nos assuntos sociais.»
Finalmente, da «Távola Redonda» -- onde dominavam nomes como David Mourão-Ferreira e António Manuel Couto Viana -- teria vindo «um determinado rigor estrutural e formal».
Mas se esta confluência de três correntes conferia algum parentesco aos poetas da geração «Árvore», «a verdade é que cada um seguiu depois o seu próprio caminho». É nesse caminho próprio, individual, que Rui de Sousa continua a desenvolver uma imagética atractiva à volta da polaridade que sempre o absorveu, como aliás nos confessa:
«Este livro integra-se na linha daquela antinomia que me parece ser essencial na minha poesia, a que se concretiza entre a noite e o dia, entre a sombra e a claridade, entre a recessão psíquica e o momento da alegria, do esplendor.»
Que o ofício poético é primordial entre as actividades a que se dedica ou já dedicou -- João Rui de Sousa, licenciado em Letras, trabalha actualmente na Biblioteca Nacional, área de espólios --atestam-no os projectos que tem para o curto prazo:
«O meu próximo livro, situado sobretudo no pólo da noite, do sofrimento, da angústia, sairá em breve na colecção dirigida por Luís Filipe Sarmento, da editora Tertúlia e chama-se "Enquanto a Noite, a Folhagem".»
O SIMBOLISMO DO AZUL
Quem melhor do que o autor para nos falar do seu livro?
Dêmos, pois, na íntegra a palavra a Rui de Sousa, que escreveu para «A Capital» um comentário sobre o seu próprio livro:
«Pode detectar-se, talvez, esta novidade: é que acima dessa dualidade fundamental e mesmo de facetas complementares, adjacentes que a acompanham, paira sempre a transcendência a que tende o ser, paira sempre uma palavra azul que, neste caso, simboliza ascensão, superação das contingências más, ou menos boas, que dominam esse ser nos trajectos múltiplos do seu quando, isto é, do tempo que lhe cabe viver.»
Torna-se significativo que o livro abra com a interrogação «Quantas novidades e lembranças/ abre o azul ao todo, ao bojo central do universo?» No mesmo poema fala-se também de «faróis e lâmpadas para a escuridão». O azul torna-se, ao que me parece, o símbolo desse apelo para a iluminação, para a clarificação, para uma superior libertação.
«Se o azul é, aqui e notoriamente, um signo de essencial referência para o ser, assoberbado pelas forças do não ser, desterrado num universo de inautenticidade, de sofrimento e de repressão -- "sobrevivo porque o azul cresce" (pg 10) -- o quando sintetiza e simboliza a diversidade infinita de condições em que o ser tem de coexistir: "os mais duros arrabaldes"(pg 13), as crispações, as lutas, a dor, a escuridão, a aridez (e a acidez) de tantas coisas, os esfacelamentos, escombros, etc.»
Sintomático que o livro oscile entre a forma interrogativa do 1º poema («Quanto azul lembrado?») e a convicta afirmatividade de um olhar certo que ultrapasse a confusão e o encobrimento através de uma operação que consiste em «lavar o ar e a visão de dentro» (pg 29).
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(*) Na Feira do Livro de Lisboa, o livro de João Rui de Sousa encontra-se no pavilhão número 11, da editorial Notícias♠