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PARADIGMAS DA CONDIÇÃO HUMANA
NAS OBRAS DE LITERATURA
[
31-05-1992 ] Há obras literárias que resistem ao tempo e permanecem, porque exprimem, explicita ou implicitamente, paradigmas (ou arquétipos?) da condição humana, suficientemente universais para se tornarem «eternos».Independentemente da qualidade literária, embora também por causa dela, essas obras tornam-se marcos de referência que transbordam do mero campo literário, para se tornarem, sem fronteiras e sem limitações, matéria de história universal.
É frequente que essas obras «paradigmáticas», exactamente porque o são e embora, muitas vezes, os «agentes culturais» não estejam conscientes disso, é frequente, digo, que sofram adaptações as mais diversas, para fins nomeadamente didácticos e/ou escolares.
O curioso é que o interesse dessas obras permanece mesmo que, adaptadas, readaptadas, traduzidas, recriadas, quer em versões em quadradinhos e banda desenhada, quer em filmes da série B, quer em colecções do Pinóquio para os mais pequeninos...
A «permanência» e «universalidade» das tragédias gregas dão outro exemplo de «obras paradigmáticas», nesse caso mais claramente, visto que recorrem a mitos já estabelecidos da tradição helénica que, por si mesmo, exprimem também paradigmas da condição humana.
[À medida que a memória me devolve os nomes e antes que perca alguns exemplos que considero fulcrais do que acabo de escrever, indico como contributo para uma lista completa e vasta, as seguintes obras que, pela sua qualidade paradigmática, convém ter sempre debaixo de olho:
--«Ulisses» criando o paradigma da eterna viagem que é a vida ou o paradigma do eterno herói solitário enfrentando as forças adversas, humanas e naturais
--«As Viagens de Gulliver» criando o eterno paradigma da «perspectiva de escala»
--«Pantagruel» criando o eterno paradigma de que tudo é alimento e toda a vida passa pelo metabolismo
--«Moby Dick» criando o eterno paradigma da inteligência que faz das forças naturais uma paisagem onde o homem significa menos do que um ponto
--«Medeia»
--«Antígona»
-«Madame Bovary» criando o paradigma do indivíduo que tudo sacrifica, inclusive reputação, ao objecto de uma paixão
--«Jean Cristophe» criando o paradigma do criador (artista, poeta, músico) capaz de amar as pessoas para lá das diferenças de sexo e das diferenças circunstanciais.
Em vez de paradigma, haverá quem fale de mitos ou de arquétipos: vem a dar no mesmo. São sinónimos.
Contar histórias é hoje a função da literatura e as artes que na literatura se apoiam - filmes e telefilmes, por exemplo.
Independentemente da função utilitária ou hedonística ou consumista da literatura, deverá reconhecer-se a distância que vai desta concepção ao entendimento da literatura na sua função específica.
Há quem não perceba para que servem as lendas ou a narrativas mais simbólicas do que reais: mas servem exactamente para dar da condição humana retratos globais (sínteses míticas) que mais nenhuma outra forma de expressão pode dar.
Quando se prevê com tanto afã a morte do romance -- e até da literatura em geral -- talvez esteja a falar-se daquilo que se afigura neste momento de maior consumo e de vida mais certa: a intriga romanesca, a história, a acção, o suspense.
Não vejo como se poderá falar em morte das «obras paradigmáticas» da literatura universal, que não encontraram até hoje nada que as pudesse substituir e que continuam portanto como um oxigénio respirável enquanto a espécie humana não for uma espécie totalmente extinta.§