1-2 < 91-05-15-ls> leituras do afonso - quinta-feira, 6 de Março de 2003-novo word - <orlando-ls>

15-5-1991

NOVE ANOS DE TRABALHO DÃO 9 MIL «FRASES FEITAS»

OBRA ABERTA SEM PRECEDENTES

«UM DICIONÁRIO COMO ESTE

JAMAIS TEM FIM»

 

O «Dicionário das Frases Feitas» vai ser, com certeza, um dos livros mais procurados nos pavilhões da Lello, durante esta 61ª Feira do Livro de Lisboa. O palpite colhe e tem razão de ser, não só pelo óbvio interesse do livro, não só pelo ineditismo do tema, não só pela unanimidade favorável que a crítica já manifestou, mas porque é patente a paixão e o entusiasmo que o autor pôs na elaboração desta sua obra, como aliás põe em tudo o que faz.

Orlando Neves, poeta, crítico, investigador e muitas outras coisas mais, desde que ligadas às letras, confessou-nos como este livro o arrebatou e como a descoberta de cada nova «frase feita» constituiu para ele um motivo de grande alegria e satisfação: « Como outros coleccionam selos ou miniaturas de automóveis -- afirma ele -- eu juntava frases. A dado momento dei conta que o acervo «fichado» justificava um tratamento diferente. Passei à fase de investigação, o que foi óptimo: dei comigo a reler clássicos (D. Francisco Manuel de Melo, Cavaleiro de Oliveira, etc) e outros (o Camilo quase todo, Aquilino, Tomaz de Figueiredo, etc). Depois consultei a bibliografia específica (dicionários, obras de Alexandre Carvalho Costa, Vasco Botelho do Amaral, Antenor Nascentes, Cândido de Figueiredo, Rodrigo Sá Nogueira, etc.). E, finalmente, sistematizei as frases, de modo a dar-lhes uma organização.»

Com esta resposta, Orlando Neves dá não só uma imagem precisa do que significou para ele o «Dicionário» mas quais são os seus métodos e ritmo de trabalho. Rodeado de 15 mil livros, que compõem a sua «modesta» biblioteca, «rato de biblioteca» como se poderia designar usando uma frase feita, (vide página 316), este «forçado das letras» como diria Aquilino, consegue tempo para se desdobrar nos mil caminhos das suas múltiplas paixões: cinco dias por semana escreve crítica de televisão para o «Diário de Notícias», volta e meia chamam-no para encenar um espectáculo teatral, guiões para a televisão já fazem um bom molhinho, traduções de peças teatrais perdeu-lhes o conto (mas centena e meia de certeza que «já lá cantam» (frase feita?) ), e como se tudo isto fosse pouco, arrebata quase sempre os prémios literários onde concorre (três nos últimos três anos são apenas um sinal), escreve poemas e peças infantis, promete mais três dicionários na linha deste que agora publicou e o mais que adiante se dirá.

ANTECEDENTES POLÉMICOS

Com uma ironia cortante, que lhe ficou, talvez, do tempo em que foi um dos mais polémicos comentaristas que fizeram, no diário «República», o «Jornal de Crítica» que marcou época, Orlando Neves «tem a lata» (frase feita?) de falar em tempos livres, como se tivesse alguns quem confessa ver todos os programas de televisão pela madrugada dentro, em gravações que vai efectuando ao longo do dia, enquanto, evidentemente, trabalha «que nem um mouro» (frase feita) no que são as suas mil e tantas outras atribulações.

«O «Dicionário de Frases feitas» -- como afirmou a «A Capital» -- corresponde ao que eu chamo «tempos livres» da minha actividade literária e jornalística. Durante 9 anos fui fazendo fichas destas frases, inicialmente sem nenhuma outra preocupação que não fosse a de mero «coleccionador».»

Sem que ele agora precise de explicar muito mais, o «resultado (lindo, diga-se de passagem) foi este dicionário, já dado por completo há dois anos mas que sofria por falta de oportunidade. O editor surgiu, na Lello do Porto, uma casa de tradições mas em fase de franca renovação e expansão: «Estava a ficar obcecado -- sublinha ele -- e resolvi parar até porque um Dicionário deste tipo jamais tem fim. Surgiu então a oportunidade de o enviar para a Lello e o resultado foi o interesse, para mim surpreendente, do editor.»

Eis como ainda há horas felizes, sem lágrimas, para editores e escritores, eis como uma ideia fulgurante pode congregar, ao mesmo tempo, o entusiasmo de potenciais leitores, o risco de um editor e o empenhamento de um autor até ao sacrifício. Nove anos de parto, são quase os nove meses para nascer uma criança.

Deixando bem claro que não é nem tem formação de «linguista» e colocando-se, como é seu timbre, numa discreta zona de modéstia intelectual, Orlando Neves dá mais uma achega para o retrato deste seu livro com história: «Nesta actividade de «dicionarista amador» não fiz fichas só das frases. Outras zonas (outros eventuais Dicionários) mereceram-me curiosidade. Talvez com a saída deste me disponha (já me dispus, confesso) a sistematizar mais outros três dicionários. Um deles está praticamente pronto e nele me proponho contar a história, as origens de 800 das frases feitas agora incluídas neste que já saiu. Trata-se, portanto, do mesmo tema. Destas «freses feitas» escolhi cerca de 800 e fui procurar saber as suas origens, as histórias ou os «acidentes» que as fizeram nascer. Está, como disse, praticamente pronto. Se um editor o quiser, para o ano poderá sair. Quanto aos outros dois, o melhor é não revelar os seus temas... sei que também és perdido por estes assuntos e, portanto, constituis um grande perigo, corro o risco de ter um sério concorrente na estrada...»

Além disso, remata Orlando Neves com o seu incrível humor, «o segredo é a alma do negócio» , frase feita que por acaso não vem no Dicionário porque a considero incluída na categoria de «provérbio» e o «provérbio», por razões óbvias, não cabia neste dicionário que tem, segundo uns, 9000 mil entradas(frases) e segundo outros, mais «coca-bichinhos», 11 mil.

Fora as que, em futuras edições, claro, poderão ser acrescentadas, numa obra que será, como «obra aberta», uma das mais interessantes que os prelos portugueses produziram.