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CARTAS
DE UMA AMIZADE (*)
[(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital», Leituras de Verão», 17-8-1991 ]
O aproveitamento póstumo dos inéditos de Nietzsche, a que sua irmã deu o nome, mesmo quando não concedeu a cumplicidade, continua a discutir-se como uma história interminável, uma telenovela de muitos capítulos, um dos mais intrincados enigmas policiais do nosso tempo. Poirot já se pôs no encalce.
Sempre que nos deparamos com um texto atribuído a Nietzsche, além das obras que publicou em vida, temos que primeiro passar por cima do cadáver da irmã e dar o necessário desconto.
À Guimarães Editores se deve o notável serviço prestado à cultura portuguesa com a tradução e divulgação das obras de Nietzsche, uma das apostas mais certeiras do nosso mundo editorial e à qual deram qualificada colaboração os nomes prestigiados de José Marinho, Álvaro Ribeiro, Delfim Santos. Em tal contexto de credibilidade deve ler-se, embora com desconfiança, esta correspondência trocada entre o filósofo e o compositor e agora apresentada ao público português por Delfim Santos Filho, em breve introdução datada de 1987.
É uma forma interessante e perturbadora de entrar no universo paradoxal do filósofo, que durante tantos anos rendeu um culto cego ao compositor. É uma espécie de visita guiada aos escombros dessa amizade e uma oportunidade de percorrer de novo os itinerários de um esquizofrénico, que não enlouqueceu quando oficialmente lhe foi colado o rótulo mas que, felizmente para nós, geriu desde sempre a loucura como a maneira mais expedita de lutar contra o niilismo e o vazio maníaco-depressivo, o outro lado da estupidez da sensatez institucionalizada.
As cartas são constantemente interrompidas pelas considerações biográficas da irmã, Elisabeth Foerster-Nietzsche, que na apresentação afirma:
«Este livro termina com a interrupção da correspondência entre Wagner e o meu irmão. Todas as observaçõees e opiniões posteriores, escritas depois da quebra da sua amizade, devem ser procuradas noutros locais. Neste livro comemorativo, desejo pôr em evidência apenas os mais afectuosos laços de intimidade, os quais, embora escritos com alguma melancolia, não revelam, pelo menos, dissonâncias desagradáveis de qualquer das partes.»
Não é difícil acreditar em Elisabeth e na sua boa-fé. Ainda que suscite dúvidas, o seu contributo à memória de Nietzsche terá sido, apesar de tudo, menos prejudicial do que a deturpação a que tem procedido um exército de críticos e catedráticos em filosofia, apostados em vampirizar o mártir de Engandine até à última gota - o sangue deste crucificado anti-Cristo.
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(*) «Correspondência com Wagner», Nietzsche, comentários de Elisabeth Foerster-Nietzsche, introdução de Delfim Santos Filho, Ed. Guimarães
(**) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital», Leituras de Verão», 17-8-1991 ♦