1-1 < 91-07-25-ls> leituras do afonso - segunda-feira, 31 de Março de 2003-novo word - <naufrago>

 

25-7-1991

HUMOR NEGRO EMERGE

DE UMA ESPESSA ANGÚSTIA

Um dos maiores escritores contemporâneos, o austríaco Thomas Bernhard, pode agora ser lido em língua portuguesa e nada melhor do que as férias para agarrar «O Náufrago»(*): breve nas suas 140 páginas mas denso e profundo. E «que se lê de um trago».

Findou para sempre a ideia de que o crítico é o juiz que classifica um livro de mau a óptimo. A perspectiva de escala ou relativismo, foi o melhor contributo que a Modernidade trouxe à cultura ocidental. O paradoxo da arte, hoje, é este e está contido, em termos quase didácticos, no romance alegórico de Thomas Bernhard.

Ainda que por um processo de translação alegórica, mas toda a narrativa de Bernhard é uma autobiografia (principalmente mental) na medida em que evidencia manias, dúvidas, inquietações, medos, desesperos que obcecam o escritor no seu próprio trabalho.

O irrisório de todos os actos humanos, a ausência de regras que estipulam onde está o «virtuose» e o virtuosismo, a cilindragem dos discípulos pelos mestres-galinha (que o romance cobre de vários adjectivos pejorativos) é o que Thomas Bernhard pensava de si próprio e dos seus problemas de autor: onde está a linha demarcatória entre o bom e o mau romance, o bom e o mau escritor? Não existe. E não existindo, a sociedade perde o suporte e o autor também. Desabam ambos. E ele atira-se da ponte abaixo.

Ao transferir a história para uma comunidade de músicos, é por demais evidente que Bernhard quer contar-nos, no entanto, as vicissitudes estruturais do escritor e sua vulnerabilidade. Afinal, vivendo na Áustria, pátria da música (?) podia dar assim melhor o arquétipo do artista que ele pretendia.

Se o suicídio (ou seus sucedâneos) aparece como pano de fundo permanente das situações contadas por Bernhard -- cujo fascínio narrativo é indiscutível -- se um ténue fio de humor negro e de ironia emerge de uma espessa angústia, o homem está sempre omnipresente nessas páginas aparentemente supérfluas.

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(*) «O Náufrago», Thomas Bernhard, Ed. Relógio D'Água