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15-9-1991

«O DEUS DAS MOSCAS»

PETER BROOK/ WILLIAM GOLDING

MORAL DA HISTÓRIA

A memória filogenética da humanidade através de um bando de miúdos, condicionados por todos os conceitos e preconceitos de uma «civilização superior» como a si mesma se considera a sociedade britânica, («the best», diz-se a certa altura dos diálogos).

Mas também é uma história de edificação e proveito: como reaprender as mais elementares técnicas de sobrevivência e as mais elementares regras de organização social.

Nas entrelinhas, no entanto e entretanto, pode ler-se que os (pre)conceitos de outra sociedade, dita evoluída e civilizada, não servem para nada nesta outra, feita de elementares necessidades de sobrevivência, mas continuam a vir ao de cima, supérfluas e frívolas na sua inadequação à (nova) realidade vivida por aqueles rapazes.

No pressuposto do (mito do) paraíso que seria lendário existir numa ilha deserta, o primeiro medo surge com a serpente (que poderá ser apenas um fantasma na mente aterrorizada das crianças) e depois com a fera (o outro fantasma que conduzirá ao caos e à violência declarada o relativo equilíbrio que as necessidades comuns tinham criado na comunidade). O frágil equilíbrio rompe-se e os mais civilizados praticam a mais primária «selvajeria», de nada servindo àqueles rapazes os costumes bem educados trazidos da civilizada Inglaterra.

Matam para comer como qualquer selvagem, enquanto um avião a jacto, para eles inútil na sua velocidade supersónica, sobrevoa a ilha sem ver nela os náufragos abandonados. Apesar de estar em jogo a sobrevivência colectiva, os egoísmos sobrepõem-se ao bom-senso e ao senso comum, caindo as primeiras vítimas dos primeiros algozes.

Visão com certeza pessimista da natureza humana -- mas que alguns preferem considerar apenas «realista», «O Deus das Moscas» é uma realização relativamente falhada de Peter Brook, mas uma história que merecia ser contada e que ganha assim uma audiência mais vasta que merece.

Um caso de livro que deu filme mas onde o filme remete, irreversivelmente, para a necessidade de ler o livro. E, já agora, a trilogia do mesmo autor publicada em tradução portuguesa do Daniel Gonçalves.