1-1 < 92-01-29-ls> leituras do ac - segunda-feira, 31 de Março de 2003-novo word - 1802 caracteres <matilde> <livros> <beja>

29-1-1992

Cada novo livro de Matilde Rosa Araújo é uma festa e um acontecimento.

Tal como os sentimentos, os livros de Matilde não se medem aos palmos: têm a grandeza da simplicidade, o encanto do maravilhoso infantil, o «feeling» de um coração que sabe falar ao coração das crianças (ou dos adultos que sabem ser criança) e que por isso está perto do último e definitivo segredo dos deuses.

Muito perto. Matilde Rosa Araújo, na sua espantosa fidelidade a um género que, apesar de tudo, não traz assim muitos louros aos autores, género que não conseguiu ainda eximir-se às limitações de um rótulo -- literatura infantil --, continua escrevendo para as crianças apenas porque é essa a sua forma de escrever poesia.

Desde «O Livro da Tila», ou talvez antes, os diminutivos não incomodam esta escritora, nem tão poco a extensão minimal das suas histórias. É a densidade que importa, e a qualidade: perante «O Passarinho de Maio», por exemplo, qualquer adulto, mesmo da terceira idade, sente-se perante uma vibração especial que não sabe explicar mas que talvez seja o tão cantado «mistério da vida».

Em harmonia com o texto, as ilustrações de Manuela Bacelar, em estilo «retro», trazem uma atmosfera evocativa da nossa própria infância, a que poderão, inclusive, ser mais sensíveis alguns adultos do que os próprios infantes.

Não é por acaso que Matilde Rosa Araújo, em quem admiramos um trabalho de escritora discreta, recolhida num quase silêncio, recebe de vez em quando notícias de que os seus livros foram premiados por aqui e por ali, nomeadamente no Brasil.

É bom que os prémios digam publicamente que está aqui mais uma grande escritora de Portugal, mais uma notável e recatada sensibilidade da nossa poesia.