1-2 <92-04-26-ls> 5 estrelas leituras selectas - domingo, 2 de Fevereiro de 2003-novo word

UNIDEOLOGIA

OU «O HOMEM UNIDIMENSIONAL»

DE HERBERT MARCUSE

 

[ 26-4-1992]

Quando se descobriu que o estado soviético era um «capitalismo de Estado», vencia-se uma etapa decisiva na consciência que a Unideologia tomava de si própria e da sua capacidade de mistificação histórica.

CIA e KGB já intercambiavam experiências. Mas outra etapa não menos decisiva se vencia, quando o capitalismo aprendeu a moderar os seus naturais instintos homicidas, o seu intrínseco nazi-fascismo e resolveu «civilizar-se». A extrema direita hoje não é a de Le Pen e outros clássicos: mas a da Nova Direita, incarnada em Portugal por Paulo Portas e o grupo do seu jornal, e o novo líder do CDS, que fez escola, como o Paulo, na Universidade Católica.

O capitalismo avançado não despede nem tortura trabalhadores, mas faz acordos de concertação social com uma central sindical ( cindindo a unidade do movimento sindical), atulha de dinheiros da CEE a UGT e depois manda o jornalista de serviço, em três capítulos, pôr no banco dos réus os dirigentes da mesma UGT com quem lautamente «negociou».

Só a Unideologia pode proceder com tão altíssima técnica e tão fina ciência. A Unideologia aprende-se e as suas técnicas devem fazer parte de um Manual que qualquer amador de ecologia Humana bem gostaria de ter na mão. A CIA, aliás, estudou muito Dialéctica, aproveitou a filosofia de Herbert Marcuse e segue à risca os seus ditames: tudo pode ser e não ser ao mesmo tempo.

O capitalismo avançado é pragmático e toma para si aparentemente os temas reivindicativos do proletariado: não quer dar imagem odiosa de si, antes pelo contrário, o capitalista é «soft», pós-moderno, tem as cores agradáveis e optimistas do melhor spot publicitário. Para continuar explorando as pessoas e devastando a Terra, o Capitalismo só precisa que os «media» não lhe despenteiem a imagem. E os media não despenteiam, sendo os porta-vozes da Unideologia à sombra do pluralismo, seu conceito chave assim como o de debate. Os media são mesmo a Unideologia.

O Aborto é controverso? Abre-se um debate, mesmo uma mesa redonda e tudo regressa à Paz.

A Unideologia é uma palavra cunhada a partir do conceito de Herbert Marcuse de «homem unidimensional».

Quer dizer: os «media» não são à partida sectários, nem torcem por nenhum partido, antes pelo contrário: fazem é semanalmente um debate televisivo sobre a sida, tendo previamente conseguido manipular multidões e convencê-las de que a sida existe, de que é mesmo uma grave doença infecto-contagiosa, de que está em alarmante expansão e que tudo isto, todo este apocalipse é provocado por um vírus. O Vírus é o menino bonito da sida.

Ora a Unideologia consegue chamar saúde ao Ministério da Doença sem pestanejar, sendo a prótese a menina dos seus olhos. Óculos, Muletas, Peitos de Sílicone, Hemodiálise, Transplantes, etc. A prótese cria indústrias-satélite e é um mercado, ao contrário dos outros, que não satura nunca, antes pelo contrário; está sempre em expansão (veja-se, por exemplo, o que se passa no mercado de Optometria e Oftalmologia). Face à lógica da prótese, não há pois que diminuir doentes mas aumentá-los, fabricá-los, produzi-los.

A Unideologia defende a religião da ciência mas principalmente da tecnologia, alegando que aí é tudo neutral.

Ideologia do Tecnocrata que diz não ter ideologia, a Unideologia socorre-se da mitologia criada pela investigação científica apoiada nos sofismas de análises consecutivas, fora de qualquer perspectiva global.

A Unideologia defende a religião da tecnologia, pois são as aplicações - inovações - tecnológicas que, por um lado, permitem abrir novos mercados e que, por outro lado, pelo seu efeito traumatizante sobre o consumidor, vão recrutar exércitos de doentes cada vez mais numerosos.

A Unideologia é uma rede de sofismas - uma Sofismologia - adrede e previamente preparados para «justificar» nos media, logo que haja bronca, qualquer grande, médio e pequeno crime, catástrofe ou desastre provocado pela tecnologia ou em nome da ciência. Os retrocessos do progresso.

A Unideologia uniu durante décadas de guerra fria a URSS e os EUA em projectos megalómanos de «cooperação científica e tecnológica» - exploração espacial, testes termonucleares, etc - enquanto os americanos, em nome do santo anti-comunismo, executavam sobre o povo do Vietname a sua cruzada salvadora, um dos maiores genocídios da História.

A Unideologia é a ideologia típica da Coexistência Pacífica, megalomania que tanto produz o Concorde como o Tupolev. Se os americanos diziam «mata-se», os soviéticos logo acrescentavam «esfola-se».

A Unideologia garante que, após uma Perestroika, nunca haverá um tribunal da Humanidade para todos os estalinismos. Há sim uma grande borracha para apagar.

A Unideologia inspira assim tipos de actuação idênticos em governos tão diferentes como os EUA. França, China Popular, URSS: todos estes governos se empenharam, da mesmíssima forma, decalcando-se a papel químico uns aos outros, na megalomania das experiências nucleares, produto inevitável do chamado «átomo pacífico», outro produto dourado da coexistência e da Unideologia.

Quando se consegue falar de «átomo pacífico» sem pestanejar, é-se um «unideólogo» de estirpe.

À Unideologia agrada o conceito de «internacionalismo», seja ele o proletário ou o patronal. A troca de mercadorias. É a Unideologia que permite ao Norte Rico continuar bloqueando o Sul Pobre. A rasoira do internacionalismo é típica floração da Unideologia e as Internacionais têm um papel gémeo do das Multinacionais. Livre circulação de pessoas, bens e Cocaína é sua palavra de ordem.

A Unideologia usa a estratégia do braço armado, singular ou plural. Tem uma facção (ala) simpática, democrática, amiga de campanhas solidárias, dos concertos rock, mas tem outra face (escondida) que se liga aos bas-fonds do crime organizado.

Os «media» sabem como reflectir: nada melhor para os «media» que notícias violentas, mas os rostos das vedetas que aparecem no ecrã são simpáticos, sorridentes, telegénicos, de pasta dentífrica.

No meio a para manter o interesse do público sádico, ainda é sorte (a Unideologia tudo providencia) que haja cada vez mais violências noticiáveis, sendo os estupefacientes o único refúgio...Ainda é sorte que haja violências capazes de prender ao ecrã o espectador, e garantir assim os «níveis de audiência» exigidos pelos grandes da publicidade.

Com a unideologia, de facto, o ciclo fecha-se. @